Em defesa do SUS e do ser humano: o que a pandemia nos ensinou

Se por um lado a Covid-19 trouxe como efeito colateral uma explosão de medo, ansiedade, insônia, dores e cansaço, o retorno às atividades presenciais apresenta outros dilemas como euforia, insegurança e culpa. Para analisar esse cenário e compartilhar suas experiências, a Estação Plural recebeu na noite desta terça, a escritora, mestre em Psicologia Social e ativista anticolonial Geni Nuñez; o psicanalista, escritor e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker e a médica de família e comunidade, escritora, cantora e compositora Julia Rocha.

Autora de “Pacientes que curam – o cotidiano de uma médica do SUS” (Civilização Brasileira), Julia dá uma outra perspectiva para quem se sente afetado pela realidade dos últimos tempos:

“Estar doente, angustiado, hoje, é sinal de que a saúde psíquica está bem: é a nossa capacidade de perceber nosso mundo e não ser indiferente. As pessoas não estão tristes por serem fracas ou não terem feito exercícios físicos, mas, sim, pela realidade que vivemos. Não é uma situação que se conserte apenas com remédios, mas condições de vida melhores”, afirma Julia.

Geni revelou um estudo que indica que 70% dos surtos pandêmicos começaram com desmatamentos. E que os povos indígenas já estão avisando isso há muito tempo. “Assim como a terra adoece, nós, que somos parte da terra, também adoecemos.”, disse Geni.

O Movimento Antimanicomial é um processo organizado de transformação dos serviços psiquiátricos. Com relação a este tópico, os três convidados veem como únicos caminhos o fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde brasileiro), além da adoção de uma política de cuidados e respeito aos pacientes que enfrentam problemas de saúde mental. E que isso não passa apenas pelo uso de medicamentos.

“Segundo a OMS, até 2030 a depressão será a doença mais comum. Atualmente, ela é a maior causa de suicídios e a segunda maior causa de absenteísmo. A expansão do neoliberalismo influencia a expansão da depressão, na medida que promove a individualização da culpa, o repúdio ao fracasso e o louvor do mérito”, defende Dunker.