Edney Silvestre fala sobre “Amores improváveis”, seu novo romance

Edney Silvestre nunca escreveu tanto quanto neste período de pandemia. “Percebi que a criatividade seria, como quando eu era adolescente, minha âncora na sanidade”, diz. E foi. Amores improváveis, romance do escritor que está sendo lançado hoje (7 de junho), é resultado desse momento em que a criatividade tornou-se o melhor antídoto para esse tempo em que estamos “caminhando sobre escombros”, conforme define Edney.

E criatividade é também uma boa palavra para descrever o novo livro, que deve surpreender os leitores do autor. Acostumado a entrelaçar fatos históricos a enredos que passam por gêneros distintos, como o romance policial e o romance de formação, em Amores improváveis ele volta seu olhar a uma narrativa mais “histórica”, mas que debate temas atuais, como preconceito, imigração e escravidão.  

A partir de um encontro casual, em uma cidade à beira da mata e rodeada por fazendas de café, a adolescente Emiliana Vivacqua, filha de imigrantes italianos, desperta para a sensualidade ao conhecer o lavrador e criador de porcos Felício Theodoro, descendente de africanos, índios Puris e europeus. Um homem casado e pai de três filhos.

Por meio desse encontro, Edney passeia por diversos momentos históricos importantes, como a travessia do Atlântico por imigrantes, vindos para o Brasil substituir a mão de obra escravizada, o golpe militar da Proclamação da República, em 1889, e o florescer de São Paulo como metrópole de diversidade étnica no início do século 20. “Nossas vidas dependem do passado histórico, as vidas dos personagens da minha ficção não poderiam ser diferentes”, diz.

Tudo isso é embalado por uma escrita “seca e econômica”, a mais contida em um livro do autor. Fotos e desenhos de Rugendas, Debret e Goya se entrelaçam à narrativa e dão ao romance uma cara elegante.

“A pandemia me fez aprofundar as reflexões sobre os tempos sombrios que o Brasil e o mundo atravessam”, diz o autor, sobre a vontade de criar no período de isolamento. Nesses meses, além de terminar Amores improváveis, Edney avançou em seu próximo livro, Pequenas vinganças, fechou o texto do musical Rainhas, que será encenado pela dupla Charles Möeller-Claudio Botelho, e colocou ponto final também nas peças Novos tempos e Caminhando sobre escombros. Ou seja, nos próximos meses, o leitor terá boas oportunidades para desfrutar mais deste escritor que ocupa lugar de destaque na literatura brasileira contemporânea.

Edney Silvestre: “Receio a atração que os tiranos exercem sobre os pequenostiranos da esquina”. Foto: Victor Pollak

Seus livros mais conhecidos trazem narrativas que se entrelaçam com o passado histórico. Amores improváveis também é uma narrativa histórica. O que ele tem de diferente, além de se passar no século 19 (e seus outros romances serem mais “urbanos”)?
Sou nascido e criado no interior até os 16 anos. Me sentia um roceiro, nos 12 anos em que morei em Nova York — porque é isso que sou. Também. Urbano e roceiro. Tudo isso está dentro de mim. A pandemia me fez aprofundar as reflexões sobre os tempos sombrios que o Brasil e o mundo atravessam. Particularmente nós, aqui. Do caos na saúde, com centenas de milhares de mortes, às tentativas de desmantelamento da proteção ambiental e de alicerces culturais, enfrentamos hoje, no Brasil, as consequências de termos um perverso eleito para o comando do país. A diáspora brasileira só aconteceu porque houve um Plano Collor que destroçou esperanças e economias. Sem a industrialização surgida nos anos JK, jamais as vítimas da seca e pobreza no Nordeste teriam tido um destino possível e um menino chamado Luiz Inácio da Silva vindo de Pernambuco para São Bernardo do Campo. Posso continuar citando exemplo atrás de exemplo. O suicídio de Vargas, a ditadura militar, o exílio de uma geração inteira, a decisão inglesa de proibir o comércio de escravos pelo Atlântico Sul, são mais que pano de fundo para minha obra. Nossas vidas dependem do passado histórico, as vidas dos personagens da minha ficção não poderiam ser diferentes.

O livro, como o próprio título sugere, conta a história de um amor improvável para o tempo em que aconteceu — a descendente de italianos Emiliana e o negro Felício. Como lhe surgiu essa ideia e como foi escrita?
Quando comecei o romance, não tinha esse título e achei que estava a caminho de um romance histórico, em que a — digamos assim — personagem central era uma cidade do interior do Brasil, falida ao fim do ciclo do ouro e da escravidão, passando por início da República, construção da rede ferroviária que ligava o Rio de Janeiro aos estados vizinhos, até chegar ao início do vertiginoso crescimento de São Paulo no século 20. Foi aí que, sem mais nem menos, surgiu Felício Theodoro, já com o primeiro nome, saindo de um armazém, e visto por Emiliana, que descia da charrete, levando o almoço do pai, enrolado num bornal. Pronto. A trama tomou outro rumo, comecei a enxugar e editar mais e mais o texto, a vinda da Sardenha dos pais de Emiliana (que entrariam em certa parte do romance original), uma das irmãs de Emiliana mergulha em uma paixão a que, em carta aos pais, chama de “um amor improvável”. Emiliana, aliás, era o nome da irmã mais velha de minha avó materna.

O romance é muito elegante também graficamente, intercalando texto com imagens, fotos e pinturas. Como foi pensada essa estrutura? Você o escreveu tendo em mente essa questão visual?
O texto é seco e econômico, sem comentários quando falo da venda das irmãs Jacinta e Isaltina, ou do abuso frequente que o padre Lurran faz da menina filha da escrava alforriada, do esmagamento do desejo feminino na atração de Fortunata pelo jovem cigano, e pedia isso: imagens que dessem a quem lia a chance de refletir sobre a banalidade desses absurdos até hoje presentes na sociedade brasileira. Luciana Villas-Boas, minha agente literária, teve essa mesma reação. As imagens ajudam a criar essa atmosfera entre a extrema beleza na banalidade dos absurdos cotidianos de Amores improváveis. As imagens de Rugendas, Debret, Goya, etc., que acompanham o texto vieram de arquivos da Biblioteca Nacional, do Instituto Moreira Sales, de coleções particulares, de agências fotográficas e até mesmo de meu arquivo de cartões-postais e fotos, e foram sugeridas e escolhidas tanto por mim quanto pela editora Amanda Orlando, com quem estabeleci uma parceria harmoniosa desde a primeira leitura. Eu digo sempre à Amanda que este é “nosso livro”. Foi a Amanda, também, quem pensou no aspecto de álbum de fotografias que dá tanta elegância e encanto ao livro.

No começo do livro, você escreve um texto de apresentação muito bonito, que já surpreende o leitor com uma informação que relaciona a sua história com o romance que seguirá. Apesar de se passar em um tempo longínquo, o que há de autobiográfico nele?
Eu não tinha consciência de que o romance tinha nascido de minha profunda admiração pela luta por sobrevivência de minha avó, viúva, lavradora e depois tecelã, analfabeta, mãe de três crianças, e sua amizade com a vizinha imigrante italiana, também viúva igualmente pobre e com vários filhos. Delas e de sua recusa em aceitar as imposições do destino brotaram as bravas mulheres que habitam Amores improváveis. Baseei a personalidade de Felício Theodoro na minha própria. E o vejo como um antepassado do Paulo, de Se eu fechar os olhos agora.

Edney Silvestre: “Percebi que a criatividade seria, como quando eu era adolescente, minha âncora na sanidade”. Foto: Victor Pollak

De uma forma bastante original, fragmentada, você passa por questões como imigração, escravidão, “orgulho e preconceito”. Por que falar sobre esses temas agora?  
Somos fruto de nossa história, do passado de nossos países e terras de origem, de nossos antepassados indígenas, africanos, europeus, e asiáticos, do final do século 19 em diante. Felício Theodoro e Emiliana Vivacqua representam parte do que somos. Precisamos falar destes que vieram para cá por opção, degredo ou escravizados. A escravidão foi encerrada por leis e decretos, mas o cancro do poder cego às necessidades da população — de maioria negra, conforme mostrado por pesquisas, censos, IGGE, mas não apenas — não acabou e parece estar dando metástase por toda a nossa sociedade. São temas urgentes. Precisamos falar disso. Espero que Amores improváveis e a forma não demagógica, não sectária, com que apresenta a época, os costumes, os eventos e o desenrolar dos acontecimentos externos aos personagens, ajude na compreensão dos rumos que tomamos. E dos que podemos tomar. Receio a atração que os tiranos exercem sobre os pequenos tiranos da esquina.

Sua escrita também está mais “econômica” neste novo livro. Por quê?
Sempre editei muito, antes de apresentar o texto pronto. Em parte, porque pesquiso muito antes e durante a escrita, e prefiro que toda a informação se mescle com o corpo do texto, como parte de um todo. A felicidade é fácil chegou a ter umas setenta ou oitenta páginas a mais, antes que eu apresentasse o texto à Luciana Villas-Boas, então diretora editorial da Record, pois até o tempo de corrida dos sequestradores do menino eu havia cronometrado, refazendo o percurso deles, por exemplo. Em O último dia da inocência enxuguei, igualmente, os discursos (reais) de Brizola e Jango no Comício da Central, deixando o essencial para compreender mais densamente a tensão, suspense e risco naquele palanque, às vésperas do golpe militar de 1964. A trama de Amores improváveis vai dos anos 1870, numa aldeia no interior montanhoso da Sardenha, passando por outro golpe militar, o que proclamou a República, e os primórdios das estradas de ferro no Brasil, pela construção da Madeira-Mamoré na Amazônia, até fechar na cidade de São Paulo, nos anos 1920, depois da primeira guerra mundial. Fui cortando e enxugando o texto ao mesmo tempo que o romance se desenvolvia. Percebi a força que podiam ter alguns capítulos de apenas um parágrafo, como o momento em que Emiliana se pergunta sobre o gosto que a pele negra de Felício teria se a lambesse. Cortei o verbo lamber. Deu mais força ao texto. E assim fui fazendo, até o desfecho.

Se eu fechar os olhos agora, seu romance de 2009, foi um verdadeiro arrasa quarteirão. Vendeu muito, foi adaptado para a TV e ganhou prêmios importantes. Como o vê hoje, 12 anos depois?
Aquele momento em que Se eu fechar os olhos agora saiu foi um momento de grande reafirmação dos valores nacionais, de nossa cultura, particularmente da literatura, com excelente acolhida crítica e boas vendas de obras de, por exemplo, Milton Hatoum, Luiz Ruffato, Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro, Bernardo Carvalho, Alberto Mussa, Claudia Laje, romances que refletiam sobre nosso país e nosso povo. Era um momento de orgulho por um Brasil que se construía, sob olhares admirados do mundo (e de nós mesmos). Se eu fechar os olhos agora contribuía para a compreensão de quem éramos, de onde tínhamos vindo, das misérias que conduziam à morte de uma mulher como Anita, ao mesmo tempo do vigor que criava idealistas como Paulo e Eduardo. Acredito que Amores improváveis contenha a mesma densidade para reflexão, nos difíceis dias que os brasileiros atravessamos.

Pesquisas mostram que as pessoas estão lendo mais na pandemia. E você? Que autores andam frequentando a cabeceira de sua cama?
Fiz duas fantásticas descobertas, ao reler dois autores que me deram enorme alento: Camus, e seu A peste, e Lima Barreto, com seu Triste fim de Policarpo Quaresma, na edição comentada por Lilia Moritz Schwarcz. A contundência e atualidade dessas duas obras do século 20 é, para usar um clichê deste século 21, incrível.

Uma pergunta que se tornou praticamente inevitável desde março de 2020: como tem sido escrever na pandemia?
Meu horror vinha de antes de março, conforme me informava da peste se alastrando e matando na China. Era óbvio que chegaria aos países do lado de cá do planeta. Fiquei chocado quando permitiram as aglomerações no carnaval de 2020. Vários de meus amigos ridicularizaram minha preocupação ou me chamavam de alarmista. Mesmo assim, mesmo estando “preparado”, o grande silêncio do isolamento decretado em março, e o fascismo intrínseco das propostas de confinamento de maiores de 60 anos e pessoas com comorbidades me deixou muito mal. Foi então que minha agência, VBMLitag, me propôs escrever um conto sobe o tema da pandemia, para áudio da Storytel. Daí surgiu o conto “O grande silêncio”. E percebi que a criatividade seria, como quando eu era adolescente, minha âncora na sanidade. E foi. Nunca escrevi tanto. Fechei o texto de Amores improváveis, iniciado no ano anterior, avancei com meu próximo livro, Pequenas vinganças, fechei o texto do musical Rainhas, que será encenado pela dupla Möeller-Botelho, além das peças Novos tempos e Caminhando sobre escombros, além de ter gravado dois programas Globo Repórter (no ano passado) e ter gravado mais dois neste ano.

Como as pessoas e o mundo serão depois que a pandemia acabar?
Seguramente piores, algumas pessoas, legitimadas em seu comportamento pelos tempos excepcionais que estamos atravessando. Assim aconteceu depois das crises dos anos 1920 e 1930, consequência da primeira grande guerra mundial, de onde brotaram Mussolini e Hitler. Mas foram, igualmente, os tempos que fortaleceram o idealismo dos partidos que abraçavam a busca de sociedades mais justas, como o comunista, em várias partes do mundo, e o democrata, com Franklin Roosevelt, nos Estados Unidos. Tomara que brotem muitos idealistas. E que se possa construir um mundo melhor, mesmo caminhando sobre escombros.

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Amores improváveis
Edney Silvestre
Globo Livros
194 págs.