É hora de acordar o mundo inteiro de seus sonos injustos

O último sábado de Bienal chegou ao fim com uma das mesas mais esperadas pelo público, reunindo aclamados autores de duas gerações. Ela, Conceição Evaristo, uma das mais respeitadas vozes contemporâneas; ele, Itamar Vieira Junior, fenômeno de vendas e reconhecido pela crítica com “Torto Arado”. Suas obras ajudam a refletir sobre o patriarcado com indignação e na mesma medida trazem conquistas, afirmação e transformação.

Um prólogo convidou os presentes a mergulhar no clima dos livros. As atrizes Cyria Coentro e Dani Ornellas fizeram, respectivamente, a leitura de trechos de “Torto arado”, de Itamar, e de “Insubmissas lágrimas de mulheres”, de Conceição. A mediação da mesa ‘Histórias para acordar um país de seus sonos injustos’ foi da jornalista e escritora Rosane Borges.

“Temos muitas conquistas, não só no plano individual, mas no plano coletivo. Pensar a literatura de Itamar, de tantos outros e a minha como uma literatura questionadora, que traz a nossa voz, a voz dos excluídos, é algo pra comemorar, porque rompe com determinados silêncios. Não pregamos no deserto, mas para vozes que se multiplicam”, disse Conceição, que participou online e foi muito aplaudida.

Itamar reverenciou autores de gerações anteriores à sua.

“Fico feliz de ver as coisas frutificarem, mas também de ver as sementes que foram plantadas no passado por tanta gente que nos antecedeu e abriu caminhos. A Conceição é uma dessas. Conceição é um orixá vivo da literatura que nos guia”, afirmou ele.

Uma das frases mais impactantes de Conceição – “A nossa ‘escrevivência’ não é para adormecer os da casa-grande, e sim acordá-los de seus sonos injustos” – foi trazida por Rosane Borges para a discussão.

“Eu sei o valor das redes sociais, eu estou lá, inclusive. Mas existe uma dimensão que a literatura traz. A ‘escrevivência’, dita por Conceição, não é meramente a justaposição de escrita e vivência, mas um paradigma que nos permite afirmar que se a literatura tem essa força afirmativa da imaginação, as experiências que a literatura nos traz não são sobre a vida do outro, mas que aquela vida deve me importar”, explicou Rosane.

Para Conceição, a literatura como fenômeno universal é a literatura que representa experiências muito específicas. É a literatura que convoca todos a partir de ‘todos particularizados’. “O texto literário não se encerra em si, mas abre possibilidades”, disse a autora, frisando o poder de convocação da literatura.

Rosane lembrou o caso do assassinato de George Floyd nos EUA, em março 2020, e o impacto que gerou no mundo inteiro. No Brasil, em 2015, cinco jovens foram mortos por PMs, com 111 tiros, em Costa Barros, zona norte do Rio de Janeiro, não tendo a mesma repercussão do caso norte-americano. Porque, segundo ela, não há reconhecimento a esses mortos.

“Quando acontece algo com a população indígena ou com uma mulher preta, isso deveria atingir as pessoas cis brancas, porque atinge a humanidade.”, defendeu Rosane. E continuou: “Empatia é uma palavra ‘fofa’. Mas eu só sou humana se reconheço que o outro também é”, concluiu.

Sobre os personagens reais que inspiraram “Torto arado”, Itamar se recente que muitos não poderão ler seu livro por diferentes razões, inclusive pelo analfabetismo, e acredita que isso seja uma dívida dele em relação a essas pessoas.

A conversa também teve momentos de leveza. Conceição confessou que, se pudesse escolher, teria nascido com a voz e o canto de Nina Simone, e que adoraria saber dançar.

“A dança transmite o que o corpo quer dizer, se faz entender. O texto escrito ainda é devedor para o texto que o corpo produz através de movimentos, sons, gestos e silêncios”, comentou a autora.

O público saiu em êxtase, em busca de contar e ouvir histórias que despertem todos os sonos injustos.