Dicas para estrear na literatura

Não há idade certa nem regras preestabelecidas para estrear na literatura de ficção ou poesia. Ao longo dos séculos, são muitos e diversos os exemplos de escritores e poetas que publicaram com idades variadas, sob diferentes circunstâncias — das mais às menos caóticas, com maior ou menor retorno imediato. 

A Bienal 360º já sugeriu alguns caminhos e dicas para se tornar escritor e mostrou, em “A literatura navega pelas redes”, que a internet abriu portas para a veiculação de conteúdo autoral. Desta vez, o texto é para aqueles que já produzem ficção ou poesia e estão buscando uma editora, com boas reflexões para quem quer superar as inseguranças que envolvem o ponto final em um primeiro trabalho.

Para esclarecer algumas dúvidas, um profissional experiente e três autoras de primeira viagem — Júlia Grilo (romance), Julia Codo (conto) e Maria Clara Parente (poesia) — têm algo a dizer sobre os processos que envolvem a finalização de um livro, com todas as preocupações costumeiras, e o trabalho mais mecânico de pôr o trabalho para circular.

Eduardo Lacerda: “Percebo que nos autores estreantes há mais energia, mais entusiasmo”. Foto: Arquivo BPP/Rafael Roncato

Primeira casa

A Patuá, em atividade desde 2011, publicou cerca de 700 livros de estreia — o que corresponde a 60 ou 70% de todo catálogo. “Percebo que nos autores estreantes há mais energia, mais entusiasmo”, diz Eduardo Lacerda, criador da editora. “Ainda são poucas as frustrações ou decepções na literatura. Publicar um livro é uma alegria e uma aventura para a maior parte dos autores e autoras iniciantes.”

Nessa jornada de uma década, a casa paulistana revelou Paula Fábrio, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura com o romance Desnorteio (2012), Maria Fernanda Elias Maglio, que levou um Jabuti pelos contos de Enfim, imperatriz (2017), e lançou a primeira narrativa de fôlego de Micheliny Verunschk, Nossa Teresa — Vida e morte de uma santa suicida (2014), também ganhadora do São Paulo. 

“É incrível reconhecer talentos em estreantes”, afirma Lacerda, pontuando que a boa energia transmitida pelos novos, empenhados em encontrar leitores, impulsiona a produção da própria Patuá. “As pequenas editoras são assim. Abrem espaço, fazem uma peneira, depois muitos autores acabam indo para casas maiores, o que é natural.”

Júlia Grilo: “É importante que aqueles que preenchem nossa vida cotidiana nos percebam como escritores, e é importante que saibamos nos mostrar escritores”.

Aproximação

Há tanto obstáculos mentais quanto práticos na hora de publicar o primeiro livro. “A autoridade que o papel de escritora implica é também muito exigente e reclama que abdiquemos de vez da — frágil, mas ainda persistente — distinção entre vida pública e privada”, pondera Júlia Grilo, autora do romance Cães (2020).

“Eu, que sempre fui muito mulherzinha, uma mulherzinha óbvia melancólica pra caramba, estive bastante acostumada com as quinas e os desníveis da vida doméstica: às mulherzinhas não restava nada além disto”, relata a escritora baiana, que finalizou seu primeiro livro, Deserção, aos 17 anos, mas não o lançou. “Até decidir publicar Cães, eu não estava preparada para a vida pública, que pressupõe uma performance exaustiva.”

No que diz respeito à questão mais prática de buscar uma editora, superados seja lá quais forem os impasses psicológicos, Eduardo Lacerda não acha de bom-tom sugerir formas de o autor fazer esse contato, mas deixa um comentário abrangente: “A forma ideal de aproximação é a que o autor respeita sua própria obra. Se ele respeita a si mesmo e ao seu trabalho, ele respeita a editora e o editor”.

Na prática

Pesquisar bem o catálogo da casa à qual você pretende submeter seu trabalho e mostrá-lo para amigos leitores e pessoas que entendem de literatura são algumas dicas importantes para quem vai dar o passo seguinte. “É preciso que um autor acredite no trabalho da sua editora tanto quanto ele espera que a editora acredite no seu trabalho”, reflete Lacerda.

Além disso, segundo Júlia Grilo, é necessário deixar pessoas próximas cientes de sua motivação e se autoafirmar. “A modernidade tentou tanto transformar o mundo em uma rede que conseguiu: há sempre alguém que conhece alguém, e os nossos amigos são o ponto de partida deste enredamento”, diz, aconselhando quem está com uma obra engavetada. “É importante que aqueles que preenchem nossa vida cotidiana nos percebam como escritores, e é importante que saibamos nos mostrar escritores.”

Para a paulistana Julia Codo, autora dos contos de Você não vai dizer nada (2021), é essencial que o livro finalizado esteja o mais “redondo” possível. “Também é bom se inserir no meio literário, frequentar oficinas, palestras, lançamentos, conhecer escritores, editores, leitores”, diz a escritora que, em 2019, fez parte da antologia Leia mulheres.

Julia Codo: “O conselho que eu daria é não desistir quando pensar que não está bom, mas seguir escrevendo”. Foto: Carolina Valentim

Insegurança e organização

“Quando estou insegura, costumo pensar que estou escrevendo apenas um rascunho, que aquilo não precisa ser definitivo. Quem sabe no meio desse rascunho a coisa começa engrenar e surge uma boa história”, diz Codo, para a qual a dificuldade maior está sempre em passar do segundo parágrafo na escrita de um conto.

“O conselho que eu daria é não desistir quando pensar que não está bom, mas seguir escrevendo. É provável que no meio do caminho algo se ilumine. Se for preciso, depois você volta e reescreve alguns trechos.”

Há todo um trabalho de artesão envolvido no fazer literário, que pede reescrita, reorganização e — por que não? — uma paciência de Jó. “O mais trabalhoso foi o processo de organização dos escritos, juntar tudo, reescrever, escolher o que tirar, depois que a maioria dos poemas já estavam escritos”, relata a carioca Maria Clara Parente, autora de nas frestas das fendas (2020).

Comece e leia muito

É normal ter uma pulga atrás da orelha antes de publicar, ou mesmo escrever, o primeiro livro. Maria Clara Parente, que também é documentarista premiada, dá uma dica enfática aos que têm o desejo de produzir, mas não conseguem sair do lugar: “Comece!”. Além disso, é aconselhável “ler muito, trocar ideias com os amigos, procurar grupos de leitura e oficinas de escrita. (…) Estar em contato com outras pessoas que estão escrevendo é muito fértil”.

E também é bom estar atento às facilidades ora traiçoeiras do mundo contemporâneo. “Publicar livros é cada vez mais fácil e barato, quase sempre de graça”, comenta Eduardo Lacerda. “Isso faz com que muitos autores não tenham qualquer compromisso com a própria obra. Lançam um livro como publicam um texto no Facebook, lançam um livro atrás do outro em várias editoras.”

Na contramão da produção industrial de ficção, Lacerda acredita naqueles que têm fé na própria obra e, para além dela, amam a literatura e os livros. “Se posso dar um conselho, se é que isso é possível, é que os escritores e escritoras leiam de tudo, principalmente seus contemporâneos”, diz o autor do livro de poemas Outro dia de folia (2012), emprestando a dica de Mário de Andrade a quem deseja se tornar um bom ficcionista.

“Literatura é descoberta, é mergulho. Há o lugar seguro e sagrado do cânone e há a noite escura da literatura contemporânea, onde é mais fácil se perder até encontrarmos algo”, diz o editor da Patuá.

Maria Clara Parente: “Estar em contato com outras pessoas que estão escrevendo é muito fértil”. Foto: Yulli Nakamura

Arthur Rimbaud e casos nacionais recentes

Em outubro de 1873, no mesmo mês em que completaria 19 anos, o francês Arthur Rimbaud marcou a poesia com Uma temporada no inferno, inspirado pelo término de um relacionamento conturbado com Paul Verlaine. De acordo com o tradutor Ivo Barroso, no texto de introdução à coletânea Prosa poética, trata-se do “relato espiritual do inferno por que [Rimbaud] passou”, vomitado e exorcizado pelo jovem com sua “prosa de diamante”.

No mesmo texto, Barroso pergunta-se a respeito da trajetória do francês: “Um verdadeiro fenômeno de precocidade? Espantoso caso de predestinação? Uma vida em duas etapas que se completam?”. Esta última interrogação se deve ao fato de que Rimbaud — um enfant terrible por excelência — abandonou a pena muito cedo e se mudou para a África a fim de “realizar-se materialmente, enriquecer, aburguesar-se”.

No Brasil, também antes dos 20, a gaúcha Luisa Geisler ganhou o Prêmio Sesc de Literatura com Contos de mentira. Outros exemplos recentes de obras de estreia que fizeram barulho em âmbito nacional são o romance O peso do pássaro morto (2017), da paulistana Aline Bei, que levou o Prêmio São Paulo de Literatura e acaba de lançar Pequena coreografia do adeus, e os contos de O sol na cabeça (2018), do carioca Geovani Martins, indicado ao Jabuti e vencedor do Prêmio Rio de Literatura.

Vinte importantes obras nacionais de estreia

Lavoura arcaica (1975), Raduan Nassar
Perto do coração selvagem (1943), Clarice Lispector
Caetés (1933), Graciliano Ramos
Cenas de abril (1979), Ana Cristina Cesar
Tanto faz (1981), Reinaldo Moraes
O quinze (1930), Rachel de Queiroz
Acqua Toffana (1994), Patrícia Melo
Os prisioneiros (1963), Rubem Fonseca
Alguma poesia (1930), Carlos Drummond de Andrade
O sobrevivente (1969), Sérgio Sant’Anna
Recordações do escrivão Isaías Caminha (1917), Lima Barreto
Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (1965), Cora Coralina
Um útero é do tamanho de um punho (2012), Angélica Freitas
Porão e sobrado (1938), Lygia Fagundes Telles
Quarto de despejo (1960), Maria Carolina de Jesus
Eu sozinha (1968), Marina Colasanti
Ponciá Vicêncio (2003), Conceição Evaristo
Catatau (1975), Paulo Leminski
Espectros (1919), Cecília Meireles
Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Mário de Andrade