Diários revelam as origens das obras-primas de Franz Kafka

A vida de Franz Kafka pode parecer modorrenta aos olhos de nosso tempo veloz. Afinal, ele trabalhou como advogado e burocrata em uma estatal a vida toda, foi noivo duas vezes da mesma mulher (Felice Bauer) e nunca se casou, pouco saiu de Praga, onde morava com os pais, não teve reconhecimento como escritor em seu tempo e morreu um mês antes de completar 41 anos.

Mas essa trajetória meio “paradona”, envolta em uma deprê permanente de Kafka pela falta de sucesso, torna-se muito atraente pelas lentes do próprio escritor, que anotou lances de sua vida em diários por quase 15 anos — de 1909 a 1923.        

Uma nova versão desses cadernos, que apareceram pela primeira vez em 1937, numa seleção feita por Max Brod, amigo do escritor, acaba de ser publica no Brasil pela Todavia. Franz Kafka Diários baseia-se nos três volumes publicados em formato de bolso pela editora alemã Fischer Taschenbuch Verlag em fevereiro de 2014.

Mais do que objeto de curiosidade, esses escritos, ao longo das décadas, serviram para que críticos e estudiosos de Kafka conseguissem entender melhor as motivações por traz da genial obra do autor de A metamorfose, O processo e O castelo.

O que aborrecia Kafka

“Tudo que não é literatura me aborrece.” A famosa frase de Kafka deixa claro que o tcheco só pensava em escrever, ainda que desanimasse rotineiramente com a falta de perspectiva de sua carreira. Tanto que ele usou os cadernos não apenas para anotar sua rotina, mas também para praticar ficção. A novela O veredito, um de seus textos mais célebres, aparece pela primeira vez nos Diários.

“Ao pretender me levantar da cama hoje, simplesmente desmoronei. A razão para tanto é simples: estou trabalhando demais. Não no escritório, e sim em minhas outras ocupações”, escreve em um trecho dos Diários, em 1911. E depois se queixa de seu trabalho burocrático.

“O escritório só contribui aí com uma parcela inocente, já que, se não tivesse de ir até lá, eu poderia viver sossegadamente para o meu trabalho e não teria de passar todo dia seis horas ali, um tempo que, sobretudo na sexta e no sábado, estando eu atarantado com minhas coisas, me atormentou de uma maneira que o senhor nem poderia imaginar.”

Franz Kafka, um dos nomes mais importantes da literatura em língua alemã.

Produção

  • Kafka nasceu em 1883 na cidade de Praga, que pertencia ao Império Austro-Húngaro
  • Em 1912 escreve sua primeira obra importante, O veredito
  • No mesmo ano produz uma de suas histórias mais conhecidas, A metamorfose (publicada apenas em 1915)
  • A história tem um dos começos mais conhecidos, citados e imitados da literatura:
  • “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”
  • Sua obra-prima, O processo, foi publicado postumamente, em 1925
  • Em tempos em que o surreal toma conta da realidade, a história de Joseph K., que luta para saber do que é acusado, é atualíssima
  • Além da falta de reconhecimento e de um trabalho que o aborrecia, enfrentou a indiferença do pai, que não levava a sério seu trabalho como escritor

Max Brod é brother

O jornalista e escritor Max Brod é figura central na história dos Diários. O tradutor desta edição do livro para o português, Sergio Tallaroli, lembra que os primeiros textos tiveram a edição de Brod, e que a nova versão é mais completa, sem cortes. Mas enfatiza: “Sem Max Brod, este livro não existiria”.

E sem Brod talvez não existisse o Kafka que conhecemos hoje. Um escritor que criou uma linguagem “cartorial”, nas palavras de Modesto Carone (um dos maiores especialistas do país na obra do tcheco), e enredos completamente surpreendentes, mas contados de forma não “espalhafatosa”, como se uma outra camada do texto escondesse leituras psicanalíticas, políticas e existencialistas.    

Brod passou a vida incentivando o amigo Franz a seguir escrevendo e tentando fazer com o mundo visse o que, por anos, só ele via. Na tentativa de animar Kafka, Brod o levou para tours literários pela Europa, para conhecer de perto o ambiente em que grandes autores, como Goethe, criaram. Brod apresentou até mesmo Felice Bauer ao amigo.

“Ontem, em casa de Max, trabalhei no diário parisiense”, anota Kafka em 1911. Mais adiante, diz: “Sábado todo na casa de Max. Meu sentimento não era bom. Mas é justamente nesses momentos que Max me ama mais, ou apenas assim me parece, porque tenho então consciência muito clara de meus poucos méritos”. 

Kafka sempre teve a saúde frágil e aos 34 anos sofreu uma tuberculose pulmonar, doença que o mataria menos de uma década depois, um mês antes de completar 41 anos. Antes de morrer, no entanto, desgostoso com sua trajetória literária, pediu a Max Brod que queimasse seus escritos ainda inéditos. Dessa vez, Brod contrariou o amigo. Hoje Kafka é o escritor mais lido e comentado da literatura alemã moderna.

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Diários — 1909-1923
Franz Kafka
Trad.: Sergio Tellaroli
Todavia
576 págs.

O processo
Franz Kafka
Trad.: Modesto Carone
Companhia de Bolso
271 págs.

Essencial
Franz Kafka
Trad.: Modesto Carone
Penguin
304 págs.