Dia do Orgulho LGBTQIA+: A literatura saiu do armário

A incansável luta da comunidade LGBTQIA+ por respeito e representatividade na sociedade também passa pela literatura. E nada melhor do que aproveitar o Dia do Orgulho LGBTQIA+ para falar sobre a produção de livros com essa temática. Um “nicho” que cada vez mais se desvencilha dos rótulos para ser “apenas” literatura.

Não é possível fazer uma linha cronológica dessas obras, porque simplesmente os livros com alguma temática gay vêm sendo escritos há séculos, muito antes de a sigla LGBT ser criada. “Sempre existiram livros com personagens LGBTs, escritos por autores LGBTs”, diz o roteirista e escritor carioca Felipe Cabral.

“Basta lembrarmos de Maurice, do E. M. Forster, O retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde, Carol, da Patricia Highsmith, além de obras nacionais como A volúpia do desejo, da Cassandra Rios, Morangos mofados, do Caio Fernando Abreu, entre tantos outros”, completa o autor, que integrou a equipe de roteiristas das novelas Totalmente demais e Bom sucesso, da Rede Globo.

Felipe Cabral: “Autores independentes estão mostrando que as ‘novas vozes’ estão cansadas de não se verem representadas e dispostas a, elas mesmas, transformar esse cenário”.

Em ascensão, a chamada “literatura LGBT” não é mais encarada como um gênero literário em si, pois hoje se entende que livros com personagens LGBT são encontrados em diversos subgêneros, como suspense, romance, young adult, ficção científica, etc. Algo bastante comum nas livrarias físicas dos Estados Unidos e países da Europa, em que a prateleira “LGBT” tem absolutamente de tudo.   

“Felizmente, o mercado editorial percebeu essa lacuna no seu catálogo e vem correndo atrás para preenchê-lo com mais diversidade”, diz Felipe, que cita a autopublicação como um fator muito importante para o crescimento de livros nesse universo.

“Autores independentes estão mostrando que as ‘novas vozes’ estão cansadas de não se verem representadas e dispostas a, elas mesmas, transformar esse cenário, escrevendo e publicando suas histórias.”

Eu leio LGBT

Felipe Cabral fala com propriedade sobre o assunto. Além de sua produção no teatro, no cinema e na TV, desde 2017 ele faz resenhas no canal Eu leio LGBT. A ideia, como o próprio nome sugere, é compartilhar livros escritos por autores LGBTQIA+ e/ou que contenham um protagonismo LGBTQIA+.

E ali cabe quase tudo. Mesmo livros e autores que não são imediatamente identificados com o universo gay. É o caso da Nobel de Literatura Herta Müller, que ganhou uma resenha de Felipe por conta de seu livro Tudo o que tenho levo comigo, que trata da história de um protagonista gay levado aos campos de concentração na Segunda Guerra.

No velho estilo do it yourself, Felipe faz tudo sozinho no canal, da curadoria à gravação dos vídeos. “Como eu disse, existem muitas obras disponíveis pra gente ler. E como sigo com o canal por prazer — apesar de ser um trabalho —, vou pela minha vontade de ler determinado autor, determinado tema, gênero, lançamento”, diz. “Depois divido a minha opinião com os seguidores. Eu gosto da ideia de que eles se interessem pelo livro e sigam atrás para ler também. Esse é o meu propósito ali.”

Oscar Wilde, autor de O retrato de Dorian Gray.

Efervescência

Dentro de uma tradição que há séculos é dominada por autores héteros, a literatura LGBT ainda parece pequena. E, além disso, autores estrangeiros ainda dominam as estantes, em um fenômeno que é replicado de maneira mais ampla em todo mercado editorial brasileiro.

Mas Felipe alerta que há uma ideia errônea de que não se produz literatura com protagonismo LGBTQIA+ no Brasil. “Se produz e se produz muito”, diz. “Há muitos jovens publicando de forma independente suas histórias repletas de diversidade. Para nossa sorte, a autopublicação está formando uma nova geração de autores que, inclusive, poderão ser aproveitados pelas grandes editoras.”

Ele cita o trabalho de vários autores que considera relevantes, como Renan Quinalha, um dos organizadores de História do movimento LGBT no Brasil, Victor Di Marco, autor de Capacitismo: o mito da capacidade, Stefano Volp, de Homens pretos (não) choram, além de quadrinistas como Ilustralu, de Arlindo, e Mário César, de Bendita cura.

“Quando fui convidado em 2018 para mediar e fazer a curadoria de mesas na Arena #SemFiltro, da Bienal do Livro do Rio, não foram poucas as opções de autores LGBTs oferecidos pelas editoras. Há um crescimento, sim, mas que precisa ser cada vez mais incentivado, para que a gente alcance o volume gigantesco de publicações desse tipo que já existe lá fora.”

E. M. Forster, autor de Maurice.

Limite

Indagado se o rótulo LGTB pode limitar o percurso de um autor ou obra, ficando restrito a um tipo de público, Felipe é taxativo: “Se limita, não é culpa do autor, com certeza”. “Veja bem, essa pergunta nunca seria feita para um autor heterossexual. ‘Ser hétero te prejudica como autor?’ Agora, claro, podem existir barreiras. Já houve um caso de uma grande rede de livrarias que se recusou a exibir o livro Dois garotos se beijando, do David Levithan, lançado pela Galera Record, porque tinha um beijo gay ilustrado na capa. Isso mudou.”

Para o escritor, a literatura feita por autores LGBT deve ser lida como qualquer outro livro, em que os conflitos narrados podem gerar empatia em héteros ou gays. “Pessoalmente não tenho problema algum que falem que meu livro é um ‘livro gay’. Tudo bem, pode falar. Mas são histórias, são personagens, são conflitos inerentes a todos nós. O leitor heterossexual não deve pensar que aquela obra com protagonismo LGBTQIA+ não terá nada a lhe dizer, que ‘não lhe diz respeito’. O conflito daquele personagem pode se aproximar de algo que você viveu também.”

Os dez essenciais

A pedido da Bienal 360º, o escritor e roteirista Felipe Cabral lista dez obras interessantes para conhecer o universo LGBT.

Devassos no paraíso
João Silvério Trevisan
Objetiva
552 págs.

O fim do armário
Bruno Bimbi
Garamond
264 págs.

Tipo uma história de amor
Abdi Nazemian
Trad.: Vitor Martins
HarperCollins
352 págs.

História do movimento LGBT no Brasil
Org.: James N. Green, Renan Quinalha, Marcio Caetano e Marisa Fernandes
Alameda Editorial
536 págs.

Viagem solitária
João W. Nery
LeYa
378 págs.

Amora
Natalia Borges Polesso
Não Editora
256 págs.

Vozes transcendentes
Larissa Ibúmi Moreira
Hoo Editora
160 págs.

Eu, travesti
Luísa Marilac
Record
223 págs.

O quarto de Giovanni
James Baldwin
Trad.: Paulo Henriques Britto
Companhia das Letras
232 págs.

A palavra que resta
Stênio Gardel
Companhia das Letras
160 págs.