Dia da Consciência Negra: Uma Bienal representativa

O cenário literário brasileiro tem se notabilizado, nos últimos anos, por uma maior pluralidade de vozes. E isso inclui a publicação de novos autores, a criação de novas editoras e mais diversidade entre convidados de grandes eventos, como a Bienal do Rio, que nesta 20ª edição terá grande presença de escritoras e escritores negros.

“Um avanço e um belo caminho que é sem retorno”, diz a romancista Eliana Alves Cruz, uma das curadoras da Bienal. Neste ano, para diversificar ainda mais as vozes e os temas, o evento optou por uma curadoria coletiva da programação, que acontece entre 3 e 12 de dezembro, no Riocentro.

Eliana Alves Cruz, autora de Água de barrela.

Autora de livros elogiados, como Água de barrela e O crime do cais do Valongo, que resgatam questões da ancestralidade negra, Eliana diz que “autoras e autores negros cada vez mais firmam seus espaços e conquistam um público novo, que tem trazido oxigênio para a literatura”.

Uma das mesas pensadas por ela chama-se “Futuros Imaginados” e vai reunir a pesquisadora de literatura africana Aza Njeri e o roteirista Alê Santos. Eles vão discutir “distopias e utopias pensadas por artistas da literatura e do audiovisual”.

Para Eliana, todas as mesas estão muito instigantes, mas que “será muito poderoso” o bate-papo sobre “ancestralidade e memória”, que vai mesclar autores muito experientes, como Nei Lopes e Leda Maria, com a cantora Fabiana Cozza, que estreou este ano na literatura. “Sem contar a Graciela Guarani, que vai trazer outra ancestralidade fundante do Brasil”, diz.

Ana Paula Lisboa, artista textual.

Representatividade

O jornalista Edu Carvalho trouxe para o debate uma pergunta que paira sem resposta pelas grandes cidades brasileiras. “Invisíveis?” vai reunir autores que “ajudam a potencializar as maiorias minorizadas”. Ou seja, pessoas que, com seus trabalhos, “dão vazão a quem deve ser escutado em cada canto do país, sendo pontes para diálogo em um momento de polarização”.

Pessoas como o antropólogo e professor Juliano Spyer, o criador do jornal Voz das Comunidades, Rene Silva, e a vereadora Erika Hilton, eleita uma das 100 personalidades negras mais influentes no mundo pela revista Time. Eles vão se juntar ao experiente repórter Caco Barcellos para falar sobre pessoas excluídas da sociedades, os “invisíveis” que dão nome ao encontro.

“Estamos falando de representatividade, e a mesa trata sobre aqueles que são minorizados ao longo da história, mas que na real, são a maioria”, diz Edu Carvalho, que é autor de Na curva do S, livro de contos que tem a comunidade da Rocinha como cenário.

“E por sua vez, figuras que compõem parte da maioria da população brasileira. Nesse sentido, era uma demanda orgânica de relação e criação para a curadoria, afinal de contas, essas pessoas não são invisíveis. Elas estão por aí a cada milésimo. É só parar, virar o pescoço para os dois lados e confirmar”, conclui Carvalho.

Edu Carvalho, autor de Na curva do S. Foto: Thiago Vailati

Demanda

Eliana Alves Cruz e Edu Carvalho concordam que a maior presença de autores negros na literatura brasileira de um modo geral é uma demanda do público, “que vai se ver preenchendo esses espaços e contando suas próprias histórias/estórias”, segundo Carvalho.

“Existe um público ávido por ler o que estes artistas produzem. Não é razoável ignorar este fato. Então, um movimento crescente tem acontecido e que atinge todas as pontas do setor”, opina Eliana.

E essas “pontas” às quais se refere Eliana estão representadas por figuras como Conceição Evaristo, ícone da literatura brasileira e referência entre autores negros, e Ana Paula Lisboa, que se autodefine como artista textual em sua busca pela visibilização na narrativa e gramática negra no mundo.

Ao produtor Binho Cultura, à atriz Dani Ornellas, à professora Fernanda Felisberto e à escritora Luciene Nascimento juntam-se muitos outros nomes que darão conta, ao longo da Bienal, da força que a literatura e o pensamento negro têm na sociedade brasileira hoje.