Dez livros para conhecer a diversidade do Nobel de Literatura

O Prêmio Nobel de Literatura é oferecido há 120 anos. Em 1901, o francês Sully Prudhomme foi o primeiro a ser laureado com esse que se tornaria o reconhecimento mais importante das letras.

Para mostrar a diversidade do prêmio, a Bienal 360º fez um recorte que vai de 1945, quando a chilena Gabriela Mistral trouxe o Nobel de Literatura para a América Latina, até 2018, com a vitória da polonesa Olga Tokarczuk.

Abaixo, veja a lista completa dos autores selecionados — o ano em que ganharam o prêmio está indicado em parênteses. Na sequência, leia sobre um livro de cada um dos cinco homens e cinco mulheres escolhidos.  

  • Olga Tokarczuk (2018)
  • Svetlana Alexijevich (2015)
  • Alice Munro (2013)
  • Imre Kertész (2002)
  • José Saramago (1998)
  • Toni Morrison (1993)
  • Gabriel García Márquez (1982)
  • Albert Camus (1957)
  • Ernest Hemingway (1954)
  • Gabriela Mistral (1945)

Sobre os ossos dos mortos
Olga Tokarczuk

Olga Tokarczuk na Feira do Livro de Frankfurt 2019. Foto: Harald Krichel

Um dos livros mais festejados da autora polonesa chegou ao Brasil fazendo barulho — até porque o Nobel de Literatura, um ano antes da vitória de Olga, foi marcado por um escândalo e cancelado naquela edição. Na narrativa, ambientada em um região remota da Polônia e normalmente considerada subversiva e macabra, uma professora de inglês que prefere os animais às pessoas vive de desfazer armadilhas para impedir a caça dos bichos e se guia pela crença nos astros. Por meio dessa personagem, estudiosa da poesia de William Blake, o leitor imerge em reflexões a respeito da insanidade, dos direitos dos animais e da natureza versus civilização.   

Sobre os ossos dos mortos
Olga Tokarczuk
Trad.: Olga Bagińska-Shinzato
Todavia
256 págs.

Vozes de Tchernóbil — A história oral do desastre nuclear
Svetlana Alexijevich

Para fazer uma espécie de registro definitivo do pior desastre nuclear de todos os tempos, quando a usina de Tchernóbil explodiu em 1986, a autora bielorussa utilizou o rigor do jornalismo e a graciosidade do tom literário. A obra, que inspirou a ótima série da HBO Chernobyl (2019), mostra as consequências da contaminação do ar por partículas radioativas e investiga obscuras manobras políticas que, na extinta União Soviética, tentaram abafar, ou ao menos minimizar, a catástrofe que ocorreu naquele 26 de abril. Trata-se de um dos poucos casos de vencedores do Nobel de Literatura que não se dedicam majoritariamente à ficção.

Vozes de Tchernóbil — A história oral do desastre nuclear
Svetlana Alexijevich
Trad.: Sônia Branco
Companhia das Letras
384 págs.

O amor de uma boa mulher
Alice Munro

O conto, como se sabe, é um gênero literário que costuma ser relegado à margem. No caso desta escritora canadense, pelo menos, a premissa se mostra falsa. O amor de uma boa mulher, normalmente considerado sua obra-prima, mostra que as narrativas breves também são dignas de atenção. No conjunto, ambientado em cidades do condado de Huron, diferentes mulheres enfrentam situação envolvendo transtornos mentais, julgamentos, doenças, velhice e a solidão reservada àquelas que tentam desviar das normas impostas pela sociedade. De acordo com o The New York Times Book Review, em uma comparação que não acontece com frequência, “Munro é tão sensível quanto Tchekhov na construção de seus personagens”.

O amor de uma boa mulher
Alice Munro
Trad.: Jorio Dauster
Companhia das Letras
376 págs.

Liquidação
Imre Kertész

Imre Kertész (1929-2016), vencedor do Nobel de Literatura 2012. Foto: Segesvári Csaba

O húngaro foi um daqueles viveu os horrores de Auschwitz — experiência que, naturalmente, deixou marcas para sempre. O tom de Kertész não é dos mais fáceis de digerir, tampouco sua prosa é a mais palatável. Mas, quando o tema de sua literatura é a vida depois de ser prisioneiro em um campo de concentração, o “peso” do texto se torna justificável. Em Liquidação, B. é um escritor que se suicida e deixa uma peça que dá nome ao livro. Por meio de uma narrativa metaliterária, cheia de camadas e vozes desalentadas, o protagonista — chamado Amargo — investiga os pormenores que levaram ao triste fim do amigo. Destaque para um poema que se encontra no meio da narrativa, no qual B. afirma que a grande revolta, depois de o mundo ter experimentado algo tão desastroso quanto o Holocausto, é permanecer vivo.

Liquidação
Imre Kertész
Trad.: Paulo Schiller
Companhia das Letras
112 págs.

Ensaio sobre a cegueira
José Saramago

Único vencedor do Nobel de Literatura a escrever em português, Saramago é quase unanimidade entre os leitores. Uma parte de sua extensa produção literária é representada por dezoito romances, três livros de contos e outros três de poesia. Nesse extenso currículo ficcional, Ensaio sobre a cegueira tem um lugar especial. Na narrativa, depois que um motorista se descobre subitamente cego, o restante das pessoas começa a experimentar os efeitos da “treva branca”. A partir daí, o autor descreve um cenário que vai da guerra à esperança, mostrando como é possível existir união mesmo em meio à maior das adversidades — claro que sem deixar de explorar o lado mais podre do ser humano, que tende a sempre tentar tirar vantagem de seus iguais. Em 2008, o brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus) fez uma elogiada adaptação do livro para o cinema.

Ensaio sobre a cegueira
José Saramago
Companhia das Letras
312 págs.

O olho mais azul
Toni Morrison

Toni Morrison (1931-2019), primeira negra a ganhar o Nobel de Literatura.

Lançado há mais de meio século, em 1970, este romance da norte-americana segue atual e vem sendo mais cultuado do que nunca, em um momento em que a sociedade está cada vez mais atenta ao racismo e crítica em relação aos padrões de beleza. No livro de estreia de Morrison, a menina Pecola Breedlove é constantemente importunada por suas colegas e é negligenciada pelos adultos. Por consequência de todo esse descaso, a criança começa a achar que um olho azul resolveria seus problemas. Mas, à medida que embarca em uma sinistra jornada de autoconhecimento, começa a ficar mais claro que não é ela quem precisa mudar — é a intolerância e o preconceito que devem acabar. “Impossível terminar de ler este livro sem questionar os padrões de beleza e os riscos que a sociedade impõe às jovens”, anotou o jornal The Guardian sobre a obra.

O olho mais azul
Toni Morrison
Trad.: Manoel Paulo Ferreira
Companhia das Letras
224 págs.

Cem anos de solidão
Gabriel García Márquez

Um dos maiores clássicos da literatura mundial é assinado por um autor latino-americano. Em Cem anos de solidão, publicado há mais de 50 anos, o autor colombiano narra a saga dos infelizes Buendía em Macondo, uma das cidades fictícias mais festejadas pelos leitores. Um universo completo emerge das páginas do romance, que acompanha diversas gerações de uma família à qual não será oferecida “uma segunda oportunidade sobre a terra”. Vale lembrar que a abertura da narrativa (“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aurélio Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo”) é, com certeza, uma das mais memoráveis da ficção contemporânea.

Cem anos de solidão
Gabriel García Márquez
Trad.: Eric Nepomuceno
Record
448 págs.

A peste
Albert Camus

Albert Camus (1913-1960), morto em um acidente de carro aos 46 anos.

Um dos livros mais festejados do autor franco-argelino voltou a ser comentado devido a uma fatalidade: a pandemia do novo coronavírus, que começou a tomar conta do Brasil em fevereiro de 2020. No romance A peste, ambientado na década de 1940, ratos contaminados com a peste bubônica instauram o caos na cidade de Orã, na Argélia. Quem encabeça a história é o médico Rieux, que não mede esforços para enfrentar as adversidades do momento, com a incrível determinação de um profissional que jurou proteger seus semelhantes a qualquer custo. Além de tratar de vários temas caros ao momento atual do mundo, como a resiliência e a empatia, a obra ainda serve como uma triste alegoria da França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

A peste
Albert Camus
Trad.: Valerie Rumjanek
Record
288 págs.

O velho e o mar
Ernest Hemingway

O último romance que o norte-americano publicou em vida é meio “fora da curva” em relação à sua obra. Em O velho e o mar, Hemingway parece trabalhar com um tom mais contido, sem a “pegada” espalhafatosa presente em Paris é uma festa (1964), por exemplo. O teor melancólico da obra espelha a história, na qual o experiente pescador Santiago entra em uma maré de azar e, sem pegar nenhum peixe há 84 dias, aposta todas suas fichas para recuperar sua habilidade. Para isso, o protagonista não hesita em partir para o alto-mar, sozinho com seus próprios sonhos e pensamentos, em uma narrativa que inspira profunda esperança.

O velho e o mar
Ernest Hemingway
Trad.: Fernando de Castro Ferro
Bertrand Brasil
126 págs.

Balada da estrela e outros poemas
Gabriela Mistral

Apesar de pouco conhecida do público brasileiro, Gabriela Mistral foi a primeira latino-americana a vencer o Nobel de Literatura. Nascida em 1889, a chilena enfrentou o duro tratamento reservado às mulheres em todo seu período de atividade e deixou uma obra vasta, que conta com mais de dez títulos. Neste Balada da estrela e outros poemas há um diferencial: os versos, repletos de musicalidade e ternura, são voltados para os pequenos leitores. Nunca é cedo demais para imergir na boa literatura, afinal, não é mesmo? Aos leitores mais experientes, vale lembrar que a Pinard editou a antologia A mulher forte e outros poemas.

Balada da estrela e outros poemas
Gabriela Mistral
Trad.: Leo Cunha
Olho de Vidro
56 págs.