Dez contos sobre as delícias e os dramas adolescentes

Há muitas obras sobre e para adolescentes por aí, mas são raríssimos os livros de contos para esse público. A editora Seguinte acaba de publicar um desse gênero. A ideia é bem simples: escritores e escritoras, em sua maioria bem jovens, tiveram o desafio de criar uma história curta sobre o complicado universo adolescente.

O resultado é o divertido — e às vezes dramático — De repente adolescente, que conta com histórias de Camila Fremder, Clara Alves, Iris Figueiredo, Jim Anotsu, Julie Dorrico, Keka Reis, Luly Trigo, Olívia Pilar, Socorro Acioli e Vitor Martins. Todos autores já com alguma rodagem na literatura — a cearense Socorro Acioli é a mais experiente do grupo.

Nos dez contos que compõem o livro, os escritores apostam, claro, naqueles temas que marcam a adolescência de qualquer pessoa, os momentos dramáticos ou engraçados que serão lembrados por muito tempo. Afinal, é nessa época que começamos a pensar em quem somos e o que queremos para o futuro, além de nos darmos conta de que, às vezes, a vida simplesmente foge do controle.

Estão no livro temas “clássicos” desse período tão conturbado, mas também divertido, de nossas vidas, como a separação dos pais, as traumáticas mudanças de colégio, o despertar de um sentimento inesperado, o amadurecimento às vezes precoce e as mudanças comportamentais e estéticas que todos passam após a infância.

Diferentes abordagens

São histórias muito diferentes umas das outras, cada uma com um jeito peculiar de ser contada. Mas há algumas marcas de nosso tempo bem presentes em quase todos os contos. A presença maçante da tecnologia é talvez a mais visível — não só no cotidiano daquilo que é narrado, mas na forma com que as histórias são descritas.

Um bom exemplo é “A revolta dos salgados”, da carioca Iris Figueiredo, autora do sucesso Céu sem estrelas. Ela utiliza não só a linguagem da internet e das redes sociais para contar um drama escolar de uma menina da 8ª série, mas também se vale de outros recursos, como cartazes, ofícios escolares e mensagens de WhatsApp.

Por outro lado, o mineiro Jim Anotsu opta por um conto histórico, com a recriação da linguagem oral do século 18. “Começo falando de mim, e cousa assim toma parágrafos, por isso, ao leitor digo, sede calmo, tenha mansidão, paciência. Além disso, já peço que perdoe a minha calligraphia, ainda não aprendi a escrever todas as palavras na ortographia dos dias de hoje, a linguagem é veloz nas mudanças e a cabeça de cidade muda lentamente, aos pouquinhos”, diz os primeiros trechos da narrativa.  

Bem diferentes, não? Mas o resultado são contos diversos, que emocionam, fazem rir e promovem a reflexão ao mostrar que, mesmo que a adolescência venha de repente, a gente sempre acaba se encontrando no meio do caminho.

O livro ainda não foi lançado, mas está em pré-venda. A Bienal 360º aproveita para dar uma palhinha sobre algumas histórias. Selecionamos quatro contos. Aí vai um breve resumo, mas sem spoilers, claro.

A última suspeita
Camila Fremder

A história que abre o livro é narrada por Karina, que “tem quase 15 anos” e ainda não menstruou. Um problema que a atormenta, pois ela tem amigas de 11 anos que já passaram pelo ritual. Paralelamente à história da menstruação que não chega, corre outra narrativa sobre um vizinho muito suspeito de Karina, que tem uma caminhonete muito grande, mora sozinho e não tem amigos. Muito suspeito. O conto, assim, trafega entre o drama e suspense. O final é bem engraçado e a narrativa, gostosa de ler.

Estou aqui
Clara Alves

Em forma de diário, Bianca descreve seu pavor diante de um concurso de texto da escola. Ela está insegura em relação às suas habilidades e ao que pode produzir. Sua tensão vai aumentando a cada dia que passa, com a hora da apresentação chegando mais perto. Para piorar sua situação, tem que lidar com problemas familiares, com um irmão que não fala mais com ela nem com a mãe. O lado bom da história é que Bianca, na dificuldade, consegue se reaproximar da mãe. Uma bonita história de superação da autora do sucesso Conectadas (2019), um romance LGBTQIA+ para jovens.

A revolta dos salgados
Iris Figueiredo

Rachel é uma menina com deficiência física e não pode frequentar as aulas de educação física na escola — para indignação da mãe. Seu refúgio passa a ser a biblioteca do colégio. Além de ler muitos livros (é a recordista da sala em livros emprestados), ela tem mania de fazer listas. E aí está a graça do livro, pois as intervenções de Rachel são todas muito divertidas. Iris Figueiredo também se utiliza de várias linguagens para contar a história, como prints de conversas do WhatsApp, bilhetes e documentos oficiais do colégio.

Menina-moça
Julie Dorrico

Aqui, a história não se passa na cidade, mas na mata, onde vive a narradora. Ela, assim como a autora Julie Dorrico, pertence ao povo macuxi, que habita o território de Roraima, na fronteira com a Guiana. Vivendo em plena harmonia com a natureza, a personagem vai contando causos que seus ancestrais viveram ou relataram para os mais jovens. Entre uma subida na árvore para comer uma fruta e atividades cotidianas, a personagem vai revelando um pouco da cultura de seu povo e a relação nem sempre amistosa com os não indígenas.

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De repente adolescente
Camila Fremder, Clara Alves, Iris Figueiredo, Jim Anotsu, Julie Dorrico, Keka Reis, Luly Trigo, Olívia Pilar, Socorro Acioli e Vitor Martins
Seguinte
272 págs.