De Vinicius a Rubem Braga, livro reúne cronistas essenciais do Brasil

Para qualquer leitor interessado em descobrir mais sobre a crônica brasileira no século 20, será difícil escapar de Os sabiás das crônica, antologia que reúne alguns dos mais relevantes autores desse gênero tipicamente brasileiro.

Organizado pelo escritor e editor Augusto Massi, o livro surgiu de uma ideia da editora Maria Amélia Mello, inspirada em uma das fotos tiradas pelo fotógrafo Paulo Garcez na cobertura de Rubem Braga, em Ipanema, no verão de 1967.

Ela imaginou reunir numa antologia os mesmos escritores que figuram no ensaio fotográfico, encomendado para divulgar os primeiros títulos da então recém-fundada Editora Sabiá. E o livro agora está aí, saiu da imaginação e foi impresso pela Autêntica.

O ensaio fotográfico, em si, já é um evento à parte. Nele, os sabiás estão todos de terno: Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta), José Carlos Oliveira, Fernando Sabino e Rubem Braga. A cereja do bolo é um jovem compositor, vestido de maneira mais despojada e com sorriso fácil, chamado Chico Buarque.

Na antológica foto de Paulo Garcez, os cronistas Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, José Carlos Oliveira, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes e Rubem Braga

O livro

Augusto Massi reuniu no total 90 textos, 15 de cada cronista, que foram retirados de diversas fontes — de obras de estreia até coletâneas póstumas. A primeira crônica, claro, é de Rubem Braga, o decano da turma, que abre o livro.

O assunto? A falta de assunto. Um dos subterfúgios mais conhecidos dos cronistas e dos leitoras, falar sobre a carência de um tema que valha a pena ser comentado, virou um clássico. E Braga, o maior cronista brasileiro, também se valeu da tática.

“Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!”, diz o escritor no início de “Ao respeitável público”, de 1934.

“Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que aí vem no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; e outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…”

No restante do espaço que lhe cabe no livro, Braga fala de si mesmo, suas origens em Cachoeiro do Itapemerim, no Espírito Santo, de Noel Rosa, “aquele homenzinho sem queixo e olhos de criança”, uma viúva na praia e, por fim, se despede com “Bilhete para Los Angeles”, uma crônica poética em homenagem ao amigo Vinicius de Moraes.

Outros sabiás

As 90 crônicas que compõem o volume cobrem um arco histórico que vai de 1930 até 2004, quando Fernando Sabino morre. “Essa antologia coloca maior ênfase nas afinidades eletivas, nas paixões compartilhadas, na boemia das altas rodas etílicas, no rodízio pelas redações de jornais e revistas”, escreve Augusto Massi no longo e esclarecedor ensaio que serve de prefácio ao livro.

Nos outros blocos, cada um reservado a um dos outros “sabiás”, o leitor vai encontrar um amplo prisma temático: a geografia dos bairros e dos bares, os diálogos com a música e o cinema, os perfis de artistas e amigos, as histórias de passarinho, o futebol, os tipos urbanos, entre outros. Tudo que faz da crônica esse gênero que resiste mesmo às mudanças de suporte, migrando agora para a internet após a derrocada dos jornais e revistas, onde ela nasceu e se aclimatou.

Outra questão muito clara ao ler o volume é que todos os autores contribuíram para reafirmar os mitos (ou verdades) do Rio de Janeiro como um lugar onde tudo que acontecia era importante sob o olhar da crônica.

Vinicius e Sérgio Porto eram os únicos cariocas de verdade. Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, mineiros. Rubem Braga e Carlinhos Oliveira, capixabas. Mas, conforme escreve o antologista Augusto Massi, “para a maioria dos leitores, todos foram adquirindo uma dupla cidadania literária, cada vez mais identificada com o modo de ser carioca. Esse grupo de escritores colaborou para que o Rio de Janeiro voltasse a ser a capital da crônica”.

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Os sabiás da crônica
Vinicius de Moraes, Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e José Carlos Oliveira
Org.: Augusto Massi
Autêntica
354 págs.