De Valfenda a Gotham: escritores elegem suas cidades fictícias favoritas

Todo bom leitor percorre o mundo da ficção abraçado a personagens, em inúmeros países e cidades. É um passeio lúdico – mesmo nas histórias mais violentas ou sombrias – por ruas, vielas, praças, becos, parques. Enfim, as cidades sempre foram palco para a construção de grandes narrativas. Em geral, são lugares verdadeiros, nos quais identificamos a geografia com certa facilidade. Mas a literatura está repleta de cidades inventadas, fictícias, mas que, cada uma a sua maneira, fazem parte da realidade dos leitores.

E se fosse possível visitar literalmente algumas metrópoles existentes apenas nos livros? Com este mapa imaginário em mãos, a Bienal 360º ouviu cinco escritores de diferentes idades — Ana Maria Machado, Luisa Geisler, Raphael Draccon, Paula Pimenta e Nina Rizzi — para traçar um panorama de cidades fictícias da literatura e das histórias em quadrinhos.

Da Lilliput do irlandês Jonathan Swift, descrita em As viagens de Gulliver, passando pela Valfenda de Tolkien e chegando à perigosa Gotham, lar do Batman e do temível Coringa: há criações para todos os gostos e idades, cada qual guardando uma peculiaridade — seja a semelhança com a brutalidade do real ou a tranquilidade utópica de Genóvia, lugar criado por Meg Cabot, que possui as menores taxas de violência e desemprego do mundo.

Paula Pimenta

Meu país preferido da ficção é Genóvia, do livro O diário da princesa [de Meg Cabot]. Localizado entre a França e a Itália, esse principado tem uma costa mediterrânea e na outra fronteira estão os Alpes. Quase sempre faz sol, a temperatura é de 24º o ano todo. O país possui as menores taxas de desemprego e violência do mundo, bem como a maior taxa de alfabetização da Europa e ausência de imposto de renda. A família real é independente financeiramente, não é financiada pelos contribuintes. Além de tudo, o país possui um castelo de conto de fadas. Fala se não dá vontade de morar em um lugar assim?

O principado de Genóvia, criado por Meg Cabot, seria o destino perfeito.

Paula Pimenta é autora das séries de livros Fazendo meu filme, iniciada em 2008, e Minha vida fora de série, de 2011. Mais conhecida por seu trabalho infantojuvenil, estreou na literatura com o livro de poemas Confissão (2001).

Luisa Geisler

Confesso que falar minha cidade literária favorita, assim na lata, é quase impossível — embora entenda que possa parecer uma resposta tosca. “Ah! É como perguntar qual filho é o favorito, pipipi popopó…”, todo mundo já ouviu essa. Como autora, minha cidade favorita é Octavia, de Italo Calvino, em As cidades invisíveis. “A Cidade está situada sobre o vácuo, ligada aos dois cumes por teleféricos e correntes e passarelas”, diz o livro. A cidade me interessa pelas ideias conceituais que traz, uma cidade teia de aranha. A fragilidade de ruir perante o vácuo! Quantas ideias surgem! Por outro lado — como pessoa, como criança, com meu cérebro de leitora em formação —, minha favorita é Valfenda, uma cidade élfica em O senhor dos anéis. É um lugar de paz e beleza, onde se cultiva amplo conhecimento preservado pelos elfos — e descrições da cidade povoam minha mente até hoje. Então, se for para escrever e explorar literariamente uma cidade, Octavia. Se for para morar e me maravilhar, Valfenda.

Valfenda (O Senhor dos Anéis). Crédito: Reprodução/Internet.

Luisa Geisler é autora dos livros Enfim, capivaras (2019), De espaços abandonados (2018) e Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), entre outros, e coautora de Corpos secos (2020).

Luisa Geisler: Moraria com certeza em Valfenda, a cidade élfica de O senhor dos anéis.

Raphael Draccon

Minha cidade fictícia favorita, sem sombra de dúvidas, seria Gotham City. Quando criança, Batman me era um herói muito distante para se identificar, então eu me imaginava sendo Dick Grayson, o primeiro Robin. Quando o personagem cresceu e fez seu próprio caminho, cresci junto com ele — e, não por acaso, Asa Noturna se tornou meu herói favorito. Seja nas HQs clássicas, nos filmes de Burton e Nolan, no desenho animado clássico, ou na série de jogos Arkham Knight, Gotham City nos traz aquela ideia de uma cidade sombria, dominada por problemas bem parecidos com os das capitais brasileiras, como violência, abuso de poder e corrupção, e que necessita de um herói não reluzente como o de Metrópolis [obra da alemã Thea Von Harbou, adaptada para o cinema por Fritz Lang], mas tão soturno quanto a cidade que ele se propõe a proteger. E por fim, como se não bastasse ter crescido com essas histórias como meu xodó, alguns anos atrás a escritora Marie Lu resolveu homenagear a mim e minha esposa, Carolina Munhóz, criando a detetive Carolina Draccon, comissária de Gotham antes de Jim Gordon em Batman: Nightwalker.

Gotham City (Batman). Crédito: Reprodução/Internet.

Raphael Draccon é autor da trilogia Dragões de éter. A série Cidade invisível (2021), produzida pela Netflix Brasil, é baseada em seu trabalho. Ao lado de sua esposa, Carolina Munhóz, e para a mesma plataforma de streaming, roteirizou os episódios de O escolhido (2019).

Raphael Draccon: Direto a Gotham City para estar ao lado de Batman e Robin na luta contra o crime.

Ana Maria Machado

Ao longo de minha vida leitora me encantei com diferentes cidades fictícias. A mais antiga lembrança é de Lilliput, de onde ilustrações me traziam um Gulliver cercado de gente miudinha, brinquedos humanos. Nas maravilhas de Marco Polo e nas peripécias de capa e espada da Paris dos Pardaillan me achei e me perdi. Até me mudar para a Macondo [de Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez] sem par, pela linguagem e magia de sua gente. Mas fico com as Cidades Invisíveis de Italo Calvino, síntese de todas elas e das inimaginadas.

Ana Maria Machado: Um passeio pelas clássicas Lilliput, Macondo e Cidades Invisíveis.

Ana Maria Machado ocupa a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras. Vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantil, publicou mais de cem livros para crianças.

Nina Rizzi

Quando eu era piveta gostava muito de ler (e assistir) obras de ficção científica e fantásticas, como Viagem ao centro da terra, Eu, robô, Crônicas marcianas, Blade runner, A ilha do dr. Moreau, Admirável mundo novo, 1984, Metrópolis, A invenção de Morel, Cem anos de solidão… Não sei dizer bem como assimilava essas obras na infância, para além da ideia de fuga da realidade banal e possibilidades de outras narrativas, então foi já um pouco mais velha que comecei a me questionar: “Qual é o lugar das pessoas negras nessas obras? O futuro não tem lugar para as pessoas negras?”. O único livro do gênero que li que tinha uma personagem negra foi já na adolescência avançada, e na verdade era uma personagem “híbrida”, meio como a Mística dos X-Men: uma branca que ficava negra nas noites de lua cheia, em O cheiro de Deus, de Roberto Drummond. Por isso escolho morar numa cidade afrofuturista, onde as pessoas negras resistiram e sobreviveram à violência policial, às desigualdades, à falta de oportunidades, ao racismo institucional e estrutural. Um futuro no qual existimos não como pessoas escravizadas. A cidade que escolho tem gente preta criando e produzindo cultura — com altíssima tecnologia, aliás. Vou para essa cidade na “nave” Afrofuturista, de Ellen Oléria com Elza Soares. Esta cidade que é também Pajubá, da MC Linn da Quebrada. É Wakanda fazendo fronteira com as cidades de Octavia Butler, N. K. Jemisin e Tomi Adeyemi. É a cidade de A cientista guerreira do facão furioso, de Fábio Kabral, e das histórias da maravilhosa Lu Ain-Zaila. Nos vemos lá, onde o futuro é glorioso.

Nina Rizzi: A busca pela liberdade e igualdade numa cidade afrofuturista.

Nina Rizzi é autora dos livros de poemas sereia em copo d’água (2019), quando vieres ver um banzo cor de fogo (2017) e geografia dos ossos (2016), entre outros. Participa da coletânea As 29 poetas hoje (2021), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.