De escravo a pai do abolicionismo, Luiz Gama tem obra revalorizada

A revalorização de autores negros brasileiros nos últimos anos — a exemplo de Carolina Maria de Jesus e Maria Firmina dos Reis — trouxe à tona um nome incontornável, mas que havia sido apagado da literatura do país. Luiz Gama foi uma das mais destacadas figuras de seu tempo e tem agora, quase 150 anos após sua morte, seu legado resgatado com a publicação de suas obras completas, em um projeto ousado da editora Hedra.

Advogado e abolicionista, Gama atuou em centenas de processos pra libertar escravos no século 19. Essa sua faceta é contada no longa-metragem Doutor Gama, de Jeferson De, atualmente disponível no serviço de streaming Globoplay.

No entanto, Gama era um intelectual polivalente, daqueles que jogam nas onze, tendo atuado no jornalismo e praticado os mais diversos gêneros literários, da prosa à poesia, além da crônica, gênero que usou para falar sobre quase tudo, de crimes à religião.

O legado de Luiz Gama está sendo resgatado 150 anos após sua morte.

Onde estavam as obras de Luiz Gama

As Obras completas trazem Gama por inteiro, em um conjunto de mais de 750 textos e 5 mil páginas. O mais impressionante é que 80% dos textos ainda são desconhecidos do público. Ou seja, cerca de 600 de seus escritos permaneciam inéditos.

“Isso é um escândalo porque revela o mal trato com a História e a obra de um intelectual de primeira importância. Um escândalo coletivo, estrutural e institucional”, diz o historiador Bruno Rodrigues de Lima, responsável por organizar todo o material da coleção.

Em um trabalho de “garimpo”, ele descobriu dezenas de textos assinados por Luiz Gama sob pseudônimo, uma prática recorrente na literatura e jornalismo do século 19 no Brasil. “Achar esses textos foi uma emoção muito grande”, diz o historiador, que vive na Alemanha, onde conclui doutorado na Universidade de Frankfurt. “Foi um trabalho de escavação, que resgata e reposiciona o Gama no debate brasileiro e no cânone nacional.”

Luta pela abolição

Bruno conheceu a obra de Luiz Gama ainda na adolescência, quando foi procurar um texto do autor no arquivo municipal de Itatiba, no interior de São Paulo. Ao ler histórias de liberdade da comunidade negra, mas também de “liberdade universal”, ele entrou de cabeça no universo do escritor. Sua monografia de conclusão do curso de Direito, na Universidade Federal da Bahia, foi sobre um processo de liberdade em que Gama defendia um africano chamado Caetano.

Em 1870, o autor advogava pela libertação de 217 escravizados em um único processo. Daí a animosidade entre os senhores escravistas que ele mobilizava, levando-o a disfarçar a autoria de seus escritos.

Livro de estreia de Luiz Gama, assinado com pseudônimo.

Quem era Luiz Gama

Tão incrível quanto a história de seu “apagamento” da cultura brasileira é sua própria história de vida. Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu livre em Salvador, na Bahia, em 21 de junho de 1830. Filho de Luiza Mahin, africana livre, e de um fidalgo baiano cujo nome nunca revelou, Gama foi escravizado pelo próprio pai, na ausência da mãe, e vendido para o sul do país em 1840.

Dos dez aos 18 anos de idade, viveu escravizado em São Paulo e, após conseguir provas de sua liberdade, fugiu do cativeiro e entrou para o exército (1848). Depois de seis anos de serviço militar (1854), tornou-se escrivão de polícia e, em 1859, publicou suas Primeiras trovas burlescas, livro de poemas escrito sob o pseudônimo Getulino, que marcaria o seu ingresso na história da literatura brasileira.

Desde o período em que era funcionário público, Gama redigiu, fundou e contribuiu com veículos de imprensa, tornando-se um dos principais jornalistas de seu tempo. Mas foi como advogado, posição que conquistou em dezembro de 1869, que escreveu a sua obra de maior destaque. Sozinho ele conseguiu a liberdade de 750 pessoas através das lutas nos tribunais.

Por que foi “apagado”

Apesar desses feitos no campo jurídico, Luiz Gama foi relegado a uma nota de rodapé na história intelectual brasileira. Para Bruno Rodrigues de Lima, foi exatamente as denúncias sobre as desigualdades, a miséria e a brutalidade do Brasil do século 19 que traçaram seu destino na História.

“Por conta dessas críticas, da literatura de combate, arrumou muitos inimigos. Não era benquisto na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, uma das máquinas de fabricação de burocratas e políticos do Brasil Império”, diz.

“E essa elite intelectual escreveu a história da abolição e deu ao Gama um papel menor, estereotipado. As Obras completas integram esse esforço de recuperação da obra dele. Precisamos contar melhor a história da luta abolicionista.” 

Obras completas de Luiz Gama