Curadoria coletiva dará mais diversidade à programação da Bienal

Em um momento atípico, em que mais do que nunca é preciso unir forças para superar as adversidades, a Bienal do Livro Rio será pensada e realizada por um time plural de curadores. Pela primeira vez em sua história, o maior festival de cultura e literatura do Brasil, que acontece entre 3 e 12 de dezembro, terá um coletivo curador, que em si mesmo já representa a diversidade planejada para o festival — que neste ano será híbrido, com 50% da capacidade de público.

Integram o grupo Rosane Svartman (cineasta, escritora e roteirista), Letícia Pires (escritora, cineasta e produtora), Bianca Ramoneda (jornalista, roteirista e atriz), Edu Carvalho (escritor e jornalista), Ana Paula Lisboa (jornalista e produtora), Felipe Cabral (roteirista, escritor e ator), Claudia Sardinha (roteirista e escritora), Julio Ludemir (escritor, roteirista e produtor cultural), Fátima Sá (jornalista), Raphaela Leite (pesquisadora e consultora artística) e Eliana Alves Cruz (escritora, jornalista e roteirista).

Esse time será o responsável pelos encontros que vão acontecer no novo espaço de debates da Bienal: “Estação Plural”. É lá que os convidados vão discutir temas instigantes que partem da pergunta que serve de mote para toda a programação: “Que histórias a gente precisa contar agora?”.

Seguindo todos os protocolos sanitários necessários para um evento seguro, a Bienal terá um formato híbrido, com mesas presenciais e online. A ideia é que pelo menos um dos convidados de cada debate esteja presente no Riocentro, onde a Bienal acontece. 

A cineasta, escritora e roteirista Rosane Svartman.

Novos olhares na Bienal

“A intenção da Bienal com esse time de curadores é justamente agregar novos olhares para o evento, com pessoas que tragam outras possibilidades de diálogos e trocas democráticas de saberes”, diz Rosane Svartman, que com Letícia Pires atua como uma espécie de “coordenadora” dos curadores.

A cineasta Letícia Pires diz que está se surpreendendo com o ânimo dos autores em relação à participação presencial no evento. “A Bienal está tomando muito cuidado com a questão sanitária, e vamos deixar os autores muito à vontade para escolher de que maneira querem participar. Mas está sendo bonito ver que vários dos convidados querem estar com o público”, explica Letícia, que em 2019 também participou da curadoria da Bienal, onde foi responsável por debates da Arena Jovem.

“Posso adiantar que as mesas estão muito interessantes porque há diversidade entre os convidados. Haverá uma mistura grande de perfis nas mesas”, diz Letícia. Ela destaca a mesa “Invisíveis”, que vai falar sobre pessoas que “não são vistas pela sociedade”. “Outro encontro vai debater adaptações, do ‘livro para a tela’, com autores muito interessantes.”

O roteirista, escritor e ator Felipe Cabral.

Bienal democrática

O roteirista e escritor Felipe Cabral já vai para sua terceira Bienal. “Todas inesquecíveis”, diz ele, mas sem dúvida nenhuma que o evento de 2019 foi o “mais marcante, em vários aspectos”.

É que naquele ano o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, tentou censurar a HQ A cruzada das crianças, de Allan Heinberg, que continha um beijo gay em suas páginas. “A censura ocorreu numa quinta-feira à noite e no sábado e domingo seguintes foram as minhas mesas, que ganharam um caráter de resistência maior ainda diante daquele contexto”, relembra Cabral.

Dois anos depois, ele volta à Bienal para dar novamente espaço a essas vozes e a esses autores. Serão duas mesas com autores LGBTQIA+, uma mais voltada à literatura Young Adult e outra com um tom mais político.

“Se em 2019 sofremos aquela tentativa de censura, um gesto antidemocrático, de lá para cá a nossa democracia continuou sob ataques”, diz Cabral, que é o criador do canal no YouTube Eu Leio LGBT.

“Por isso a importância de refletirmos sobre que histórias precisamos contar. Que histórias ainda faltam contar? Que histórias estão sendo contadas agora por autores LGBTQIA+? Como a literatura está nos ajudando a pensar sobre o presente, resgatar nosso passado e construir um futuro melhor? A linha das duas mesas será por este caminho.”

A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz.

Resgate

A jornalista e escritora Eliana Alves Cruz diz que o evento será uma oportunidade de “resgatar a vida”, depois de tanto sofrimento e morte por conta da pandemia de Covid-19. Ela está à frente de três mesas, e destaca entre a programação um debate sobre a “Pátria na língua”, “com autores cujas obras têm forte envolvimento com a territorialidade”, diz. “Será um momento para discutirmos o apagamento cultural de diversos idiomas”, completa a escritora, autora do romance Água de barrela.

Eliana também vê esse momento como uma oportunidade para reafirmar o valor e a importância da cultura, dos livros e dos artistas. “O que teria sido de nós sem as lives de literatura, teatro e música?”, questiona. “Mais do que nunca o artista é preponderante.”

A atriz, jornalista e roteirista Bianca Ramoneda também acredita que a literatura de ficção teve um papel fundamental na vida das pessoas durante a pandemia. “A ficção acolheu o isolamento”, diz.

A escritora, cineasta e produtora Letícia Pires.

Ela cita o crescimento das vendas de romances, livros de contos e de poesia, além de uma maior procura por cursos de escrita criativa para demonstrar o “acolhimento” da literatura em um momento de angústia coletiva.

E esse será o mote de uma das mesas pensadas por Bianca, chamada justamente “Eu posso escrever”. “Nos últimos meses, as palavras tiveram um protagonismo muito grande na vida das pessoas. Não que elas já não tivesse essa importância, mas com o isolamento, ganha outra dimensão. Tanta em relação à leitura quanto na escrita. E a escrita se revelou uma afirmação”, diz.

Ela também destaca a mesa “Histórias para acordar um país de seus sonos injustos”, inspirada em uma frase da escritora mineira Conceição Evaristo. “Vamos reunir autores para falar sobre temas urgentes, de um Brasil profundo, mas que está ouvindo narrativas transformadoras.”

A atriz, jornalista e roteirista Bianca Ramoneda. Foto: Nana Moraes

Esperança renovada

Com três Bienais Rio no currículo, Rosane Svartman acredita que o momento é para “curar, refletir, inspirar, enfim, fazer uma reflexão sobre o que acontece no Brasil hoje”.

“Sempre que participo da Bienal, saio com a esperança renovada, porque os livros são a porta de entrada para uma infinidade de mundos. Com eles e através deles a gente celebra tudo o que a Cultura pode nos proporcionar. Para mim a Bienal sempre significou isso.”