Culpa e depressão, segundo Luiz Schwarcz

Há dez anos Luiz Schwarcz não publicava um livro com sua assinatura. Acostumado a editar grandes nomes da literatura brasileira e mundial, o fundador da Companhia das Letras volta agora às livrarias como autor de um livro impactante, que mistura a história de seus antepassados com o desenvolvimento da depressão que o acompanha há décadas.

O título do livro — O ar que me falta — pode soar familiar em um momento de pandemia, em que milhares de pessoas estão morrendo porque não conseguem respirar. Mas é apenas uma coincidência, apesar de também significar um momento de sofrimento para o autor. O ar que falta a Schwarcz é provocado pela ansiedade e tristeza que precedem uma fase depressiva.

Uma doença que, ele especula, seja hereditária. O pai, André, passou a vida se culpando por ter deixado o avô do autor seguir sozinho rumo a um campo de concentração na Hungria. Por conta disso, tinha pesadelos e batia os pés uns contra os outros quando dormia. Por sua vez, Luiz Schwarcz, filho único de judeus, ficou com a “missão” de tornar a vida dos pais mais feliz. Fardo que “uma psicanálise bem-sucedida me aparelhou para conviver melhor com a culpa”, diz o escritor.

“Inicialmente eu pensava num livro sobre meu pai, depois sobre meu pai e minha infância. No final, segui as pistas da depressão para falar dessas duas coisas e ampliar para toda a família”, explica sobre a ideia inicial do livro.

Luiz Schwarcz: “Uma psicanálise bem-sucedida me aparelhou para conviver melhor com a culpa”. Foto: Renato Parada

Linguagem clara

Como não poderia deixar de ser, em se tratando de um experiente editor de ficção, o livro é muito bem escrito. Tem frases e capítulos curtos, linguagem clara e nenhuma “afetação literária”. Mas o que mais chama a atenção é o tom sincero, de “coração aberto”, da narrativa. Schwarcz confessa fraquezas e defeitos, como a arrogância que fez sua fama no meio editorial.

Por conta da depressão e dos surtos causados pela bipolaridade, revela que passou a ser um homem de poucas palavras e cada vez mais avesso às badalações do mercado editorial. E não apenas falando ele é econômico. Schwarcz respondeu de maneira monossilábica várias perguntas para esta matéria.

Autor de dois livros de contos — Discurso sobre o capim (2005) e Linguagem de sinais (2010) — e outras duas histórias para o público infantojuvenil — Minha vida de goleiro (1999) e Em busca do Thesouro da Juventude (2003) —, ele se considera um escritor de ficção que não tem “repertório”.

“Gostaria de ter mais o que dizer para escrever mais”, confessa.

Episódios

Em 2019, pouco antes de uma mesa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que seria mediada por sua mulher, Lilia Schwarcz, o presidente da Companhia das Letras se envolveu em uma briga. Ele foi abordado por um homem que o cobrava a entrega de um livro ao escritor moçambicano Mia Couto. Houve uma discussão com xingamentos e Schwarcz acertou um soco no homem.

O episódio, narrado no livro e amplamente noticiado à época, serviu para que pela primeira vez o editor falasse abertamente sobre os problemas psicológicos que sofre, uma “depressão bipolar leve”, conforme termo que usou em uma nota à imprensa em que explicava o ocorrido.

No livro, o escritor detalha como a “culpa” o aterroriza após episódios de descontrole emocional, como quando se cortou no banheiro de sua casa em um momento de fúria. Ou ainda quando gritou com uma funcionária da Companhia das Letras por conta de uma questão profissional.

Mas há também no livro momentos mais leves. A mãe de Schwarcz, Mirta, era uma pessoa culta e incentivou o filho a ler e gostar de arte. Leitora de ficção, era fã de Jorge Amado. Por coincidência, Luiz era colega, no Colégio Rio Branco, de Roberto, sobrinho do grande escritor baiano.

Quando soube, Mirta deu ao filho a missão de levar uma pilha de romances para que o autor os autografasse, já que o escritor se hospedava na casa dos pais de Roberto quando ia a São Paulo. O que o filho Luiz fez. Décadas depois, toda a obra de Jorge Amado seria editada pela Companhia das Letras, uma decisão “sentimental e profissional”, conforme diz Schwarcz.

Companhia das Letras

Luiz Schwarcz começou sua carreira na editora Brasiliense, onde trabalhou de 1978 a 1986. Lá, fez parte do time comandado por Caio Graco Prado, que revolucionou o mercado de livros no Brasil, com coleções voltadas para o crescente público universitário da época — como a “Cantadas Literárias” e a “Primeiros Passos”, que tiveram o mérito de apresentar novos autores a leitores que começavam a experimentar a abertura do país com a redemocratização.

Em 1986, Luiz Schwarcz fundou a Companhia das Letras. Em poucos anos, a editora se tornou uma referência na edição de obras de ficção e, de certa forma, ajudou a profissionalizar o mercado editorial do país, com boas traduções, projetos gráficos atraentes e uma interessante curadoria de autores.

Mas O ar que me falta passa apenas raspando pela atividade profissional de Schwarcz. Em um momento ou outro ele cita algum evento ou autor de sua editora, mas sempre de forma breve. O que pode fazer o leitor pensar que as memórias profissionais de Schwarcz possam estar em um futuro livro, quem sabe… “Não pretendo escrever mais memórias, em princípio”, diz. “Talvez ensaios narrativos sobre aspectos éticos e práticos da vida editorial. Mas não já.”

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O ar que me falta
Luiz Schwarcz
Companhia das Letras
200 págs.