Criolo: “Quando há arte, transformações são possíveis”

Em 23 de maio de 2018, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) divulgou a lista de leituras obrigatórias para o vestibular de 2020. No gênero poesia, o álbum Sobrevivendo no inferno (1997), dos Racionais MC’s, aparecia ao lado de sonetos selecionados do português Luís de Camões e ao livro A teus pés (1982), da carioca Ana Cristina Cesar.

Em outubro do mesmo ano, esse que é um dos principais discos do grupo de rap formado por Mano Brown, Edi Rock, KL Jay e Ice Blue foi transformado em livro pela Companhia das Letras.

O acontecimento gerou uma discussão semelhante à que já tinha tomado conta dos Estados Unidos quando o Nobel de Literatura foi concedido a Bob Dylan em 2016, permitindo ao público e à crítica pensar — ou repensar — elementos que aproximam as linguagens da literatura e do rap.

Em um país com abismos sociais como o Brasil, no entanto, parece ser necessário pensar questões mais elementares primeiro — o fato de o “acesso à escola ainda ser muito difícil em nosso território”, por exemplo, conforme o rapper Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, diz em conversa com a Bienal360º.

Criolo: “O rap descreve a realidade de nosso povo de um jeito tão sincero que uma pessoa que não tem contato com o mundo real pode achar que se trata de ficção”.

Primeiros passos

“O relato não frio, histórico e real da mentalidade que massacra e exclui no Brasil”, é como Criolo classifica a obra dos Racionais, que saiu da periferia para ganhar a academia. Já no prefácio ao livro Sobrevivendo no inferno, o professor de literatura brasileira na Universidade de Pernambuco (UPE) Acauam Silvério de Oliveira escreve:

 “Seu impacto no cenário nacional pode ser comparado sem exageros ao de outras grandes obras pertencentes aos mais diversos campos culturais, como Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, Terra em transe, de Glauber Rocha, e Chega de saudade, de João Gilberto”.

Apesar do grande salto, Criolo não deixa de lembrar como ainda há muitas pedras no caminho de quem deseja ter acesso ao “prazer indescritível da leitura”. “Impossível falar de acesso à literatura sem antes falar da falta de acesso à educação básica”, afirma.

Reflexões sobre o básico

Nascido na capital paulista, em 1975, Criolo cresceu no bairro do Grajaú e estreou com o álbum Ainda há tempo (2006), no qual os elementos que o notabilizaram estavam todos presentes: a lírica de forte crítica social, muitas metáforas, referências aos seus ídolos e uma grande esperança nas possibilidades da arte.

O reconhecimento do filho da professora Vilani e do ex-metalúrgico Cleon veio com Nó na orelha (2011), como qual ele chegou a ser considerado por Caetano Veloso, em matéria publicada pelo The Guardian, “possivelmente a figura mais importante da cena pop brasileira”.

O sucesso, porém, não parece ter anuviado sua forma crítica de encarar a realidade do Brasil: “Vivemos num país onde as pessoas não sabem o que vão comer no dia seguinte… Elites, o que são essas camadas?”, questiona, lembrando que, apesar dos percalços, “nosso povo vive, nosso povo sorri, constrói e conquista, pois não se dá por vencido e se reinventa a cada passo”.

Nesse cenário de desigualdades, Criolo diz que “a literatura apresenta um jeito, um colóquio aos acessos, à compreensão dos códigos sociais”. No entanto, em uma realidade em que as escolas nasceram para suprir as necessidades do mercado, e “não do desejo de oferecer a seus cidadãos acesso aos conhecimentos”, a balança parece estar sempre desregulada.

Criolo: “Impossível falar de acesso à literatura sem antes falar da falta de acesso à educação básica”.

Possibilidades artísticas

Se o acesso à literatura, de modo geral, parece relegado àqueles que têm o privilégio de estudar, há outras formas de consumir essa linguagem — que, segundo Criolo, vem se reinventando.

 “O rap faz parte dessa nova construção literária, assim como os saraus, slams, batalhas de freestyle e uma série de outras ações pulverizadas por todo país, em diversas estéticas, e não só de forma escrita”, comenta o rapper, citando um estilo de expressão já explorado pela Bienal 360º na matéria A insurgência das minas do slam.

Sobre o impacto da literatura, especificamente, Criolo pontua que “a linguagem escrita nos fascina e alcança os corações ao redor do mundo, conecta as pessoas ao mesmo tempo que afasta”.

Já a respeito do rap, o autor dos álbuns Convoque seu buda (2014) e Espiral de ilusão (2017) afirma que esse estilo musical consolidado na Nova York dos anos 1980 “tem a força da emoção que deságua em som” e é, ele próprio, um livro.

“O rap descreve a realidade de nosso povo de um jeito tão sincero que uma pessoa que não tem contato com o mundo real pode achar que se trata de ficção”, diz. Dentro desse Brasil mais profundo, no qual Kleber esteve imerso por mais de duas décadas antes de deslanchar como artista — vendeu roupas de porta em porta, trabalhou com ONGs que atendiam garotos de rua — vale a reflexão: “Se um não tem literatura por perto, como falar pro outro que livro existe?”.

Ainda há tempo

Os comentários de Criolo soam duros, mas o rapper não deixa de mirar em uma espécie de esperança na potencialidade das expressões artísticas. Compositor desde os 12, 13 anos de idade, ele deixa um conselho: “Quando se aprende a ler, tudo influencia no seu processo de escrita”.

E àqueles que desejam conhecer o “poder resiliente e criativo de nosso povo”, o conselho é escutar o rap produzido no país e se atentar à história da evolução do gênero musical. “Quando há arte”, afinal, “as transformações são possíveis.”