Contos de Chico Buarque trazem barbárie, histórias sinistras e Clarice Lispector

Francisco Buarque de Hollanda, o Chico Buarque, conquistou um feito para poucos. Além de seu nome ser indissociável da história da música popular brasileira, em uma trajetória que começou na década de 1960, ele se firmou como um dos principais escritores do país. Anos de chumbo e outros contos é sua publicação mais recente.

Para quem precisou buscar exílio na Itália devido à repressão promovida pela ditadura militar no Brasil, não é de espantar que Chico viesse a lançar um livro com título que faz alusão a esse período. O conjunto, no entanto, trata de temas variados. Em oito contos, listados abaixo, o carioca conduz o leitor “pela sordidez e o patético da condição humana”, segundo a Companhia das Letras, que edita a obra.

  • Meu tio
  • O passaporte
  • Os primos de Campos
  • Cida
  • Copacabana
  • Para Clarice Lispector, com candura
  • O sítio
  • Anos de chumbo

A barbárie contemporânea, que parece não se distanciar muito do que o país já enfrentou um dia, e temas e questões muito presentes na vida do ser humano — como sexo, perversidade e desalento — compõem o conjunto, que marca a estreia do autor na narrativa breve.

Chico Buarque, autor de Anos de chumbo e outros contos. Foto: Leo Aversa

Trajetória de Chico Buarque

  • Nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de junho de 1944
  • Mudou-se, aos dois anos de idade, para São Paulo
  • Inspirado por João Gilberto, na década de 1950, começa a compor e tocar violão
  • Aos 17 anos, publica suas primeiras crônicas no jornal da escola
  • Em 1964, aos 20 anos, sobe ao palco pela primeira vez
  • Roda viva, de 1968, é sua primeira peça escrita
  • Estreou no romance com Estorvo, de 1991, e publicou outras cinco narrativas de fôlego:
  • Benjamin (1995), Budapeste (2003), Leite derramado (2009), O irmão alemão (2014) e Essa gente (2019)
  • Ganhou o Prêmio Camões, um dos principais reconhecimentos de língua portuguesa, em 2019
  • Estreia na narrativa breve com Anos de chumbo e outros contos (2021)

Histórias

No conto que dá nome à obra, “Anos de chumbo”, Chico apresenta ao leitor uma curiosa voz infantil que parece imersa na violência desde sempre. Tudo começa com um ataque promovido pelo exército norte-americano dos confederados em 1971 — que Luiz Haroldo, amigo do narrador, não pôde presenciar.

Nesse tenso equilíbrio entre a amizade de duas crianças e uma imaginação fértil, a narrativa se desenvolve com detalhes sobre a vida familiar do garoto que gosta de brincar com soldadinhos e promover guerras imaginárias. O final, que parece trazer a sangrenta fabulação do garoto para a realidade, encerra o texto de um jeito para lá de sinistro.

Um pouco menos delirante, apesar de não tanto assim, é o conto “Para Clarice Lispector, com candura”. Na história, um jovem poeta busca visitar a responsável por alguns dos maiores clássicos da literatura nacional. Como quem procura acha, ele acaba frente a frente com Clarice — que não parece muito interessada em seus versos, não.

O encontro é tenso para o menino, mas a autora de Perto do coração selvagem parece tranquila. Ela até sugere que ele volte acompanhado da namorada, caso tenha uma, junto da qual poderia fumar maconha sem problemas. Já para a mãe de I. J., o poeta da história, é preciso tomar cuidado: “Veja lá, filho, veja lá porque ela [Clarice Lispector] tem uma queda por rapazes frágeis”.

Obras premiadas

Além de ter recebido o Camões pelo conjunto da obra, Chico já venceu o Prêmio Jabuti em três ocasiões — 1992, 2004 e 2010, com os romances Estorvo, Budapeste e Leite derramado, respectivamente.

Em Estorvo, que marca a estreia do autor na narrativa de fôlego, um protagonista — preso entre o sono e a vigília, em um clima delirante — encara diversos rostos familiares através de um olho mágico, deparando-se com diferentes feições e situações. E a campainha, insistente, não permite que o personagem se liberte desse ciclo.

No outro livro premiado, Budapeste, Chico trabalha com toda uma estrutura duplicada — a começar pela densidade narrativa combinada a um senso de humor peculiar. A história acompanha a trajetória do ghost-writer José Costa, que se cansa de trabalhos ordinários e parte para Budapeste a fim de aperfeiçoar seu trato com “a única língua que o diabo respeita”.

Leite derramado, a mais recente das obras agraciadas com o Jabuti, é um monólogo de um homem velho, preso ao leito de hospital. A quem interessar possa, ela vai narrando toda saga de seus antepassados e a antiga paixão por uma mulher marcante, a Matilde.

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Anos de chumbo e outros contos
Chico Buarque
Companhia das Letras
168 págs.