Conheça os vencedores da 18ª edição do Prêmio Sesc de Literatura

O pernambucano Diogo Monteiro e o paraense Fábio Horácio-Castro são os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura deste ano, anunciado recentemente. Além da satisfação pessoal em ganhar um concurso nacional tão concorrido, os escritores tiveram a honra de vencer uma edição histórica e simbólica da premiação.

Idealizado em 2003, o Prêmio Sesc de Literatura está completando 18 anos. Uma marca expressiva em um país onde os projetos voltados à literatura costumam ser efêmeros. Desde então, a premiação tem se firmado como uma das principais vitrines literárias, principalmente para autores inéditos ou que estão em busca de afirmação no cenário nacional. 

Neste ano, o Prêmio recebeu a inscrição de 1.688 livros, sendo 850 na categoria Romance e 838 na categoria Conto. Por isso, os dois mais recentes vencedores comemoraram muito a vitória. “É uma chancela fortíssima, uma apresentação ao público leitor, com uma atenção e uma divulgação que poucos outros colegas podem ter”, diz o jornalista Diogo Monteiro, que venceu com a coletânea de contos O que a casa criou.

Diogo Monteiro: “Eu costumo dizer que o meu projeto literário é baseado na preguiça e na procrastinação”.

Monteiro se refere aos “benefícios” que o prêmio traz. Os vencedores têm suas obras publicadas e distribuídas pela editora Record, o que contribui para a visibilidade dos autores, pois insere seus livros na cadeia produtiva do mercado livreiro.

Eles também participam dos eventos promovidos pelo Sesc em âmbito nacional, entram em contato com autores mais experientes e têm a possibilidade de falar sobre seus trabalhos a um público amplo.

“Para mim, essa premiação significa estabelecer novas possibilidades de interlocução”, diz, de Belém do Pará, Fábio Horácio-Castro, autor do romance O réptil melancólico. Os livros serão lançados no final do ano, com tiragem inicial de 2 mil exemplares.

Os autores

“Eu costumo dizer que o meu projeto literário é baseado na preguiça e na procrastinação”, confessa Diogo Monteiro, que já tem um livro publicado, o infantojuvenil Relógio de sol. Ele conta que a obra ficou anos na gaveta e só foi lançada por conta do empenho e dedicação da Editora Vacatussa, que publicou o livro neste ano.

Antes disso, ele teve textos veiculados em antologias e revistas literárias, mas o ofício de escritor estava sempre em “um lugar secundário”.

Fábio Horácio-Castro: “A literatura sempre esteve presente na minha vida, sempre li muito e também escrevi”.

Já o paraense Fábio Horácio-Castro, também jornalista, tem uma carreira ligada à academia, por isso seu projeto literário acabou sendo interrompido durante mais de três décadas. “A literatura sempre esteve presente na minha vida, sempre li muito e também escrevi. Aos 17 anos publiquei um livro de contos, chamado Terra dos cabeçudos.”

No entanto, paralelamente ao trabalho como docente, ele seguiu escrevendo. Mas a pandemia acabou sendo o start que precisava para retomar sua ficção. “A pandemia nos confrontou com uma percepção da finitude. Todos perdemos amigos e o mundo perdeu pessoas de referência, todas com quem gostaríamos de ter dialogado mais”, diz o escritor. “Então a perda e a vontade de dizer me afetaram profundamente e fizeram com que eu me organizasse melhor para recuperar o velho projeto literário”, completa.

Fora do eixo

Os livros vencedores do prêmio ainda não foram publicados, mas Fábio Horácio-Castro diz que sua escrita é “marcada pela ideia de fenomenologia e de hermenêutica”. O título curioso do romance já dá pistas dessa literatura “barroca”, nas palavras do próprio autor.

O réptil melancólico é um livro povoado por bairros que não existem, seres imaginários, melancolias e formas da língua portuguesa que são próprias de uma certa burguesia belemense.”

Luisa Geisler venceu o Prêmio Sesc de Literatura por dois anos consecutivos, em 2010 e 11.

Já os 16 contos de O que a casa criou nasceram de um certo “espanto” de Diogo Monteiro, “da relação entre a parte não contada dessas histórias e a ideia que eles tentam abraçar, do espanto diante de uma possível quebra da realidade banal. O mundo impõe a realidade dele sobre mim, e eu o contra-ataco escrevendo”.

Tanto Horácio-Castro quanto Monteiro estão fazendo literatura fora do eixo sul-sudeste, de onde ainda surge a maioria dos autores publicados por grandes editoras. Esse fato, inclusive, foi explorado pela organização do Prêmio Sesc como prova da pluralidade do concurso.

E ambos autores dizem trazer em suas escritas as marcas da tradição literária de seus Estados. “Minha vida como leitor caótico foi repleta de João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardozo, Alberto da Cunha Melo, na poesia. Na prosa, Osman Lins, Hermilo Borba Filho, Gilvan Lemos, Ariano Suassuna… Todos esses, e tantos outros, passaram por mim e eu certamente tomei muito deles, de alguma maneira”, diz Monteiro.

Já Fábio Horácio-Castro teve como referência a figura do professor Benedito Nunes, ensaísta paraense morto há dez anos, que foi seu orientador de mestrado e com quem dialogou muito nos anos de formação. “A fenomenologia e a hermenêutica que referi acima devo certamente a ele e a seu universo filosófico, embora as utilize para o fazer literário, e não, como ele, para o pensar ‘o literário’.”

André de Leones venceu a edição de 2006 do prêmio com o romance Hoje está um dia morto.

Mais sobre o Prêmio Sesc

Desde sua criação em 2003, mais de 16 mil livros foram inscritos e 31 novos autores revelados pelo Prêmio Sesc de Literatura. A relevância do projeto pode ser medida por meio do sucesso dos seus vencedores, que costumam ganhar ou ser finalistas de outros grandes prêmios literários, como Jabuti, Biblioteca Nacional e São Paulo de Literatura.

Se alguns ficaram pelo caminho, vários se firmaram no cenário literário nacional, como Juliana Leite, André de Leones, Luisa Geisler e Marta Barcellos. 

O processo de curadoria e seleção das obras é bastante democrático. Os livros são inscritos pela internet, gratuitamente, protegidos por anonimato. Isso impede que os avaliadores reconheçam os reais autores, evitando qualquer favorecimento. Os romances e contos são avaliados por escritores profissionais.

Em uma matéria sobre prêmios literários, a Bienal 360ª entrevistou o escritor Henrique Rodrigues, que concebeu o prêmio há 18 anos. Leia mais aqui.