Conheça Louise Glück, a poeta que ganhou o Nobel de Literatura

No último anúncio do Prêmio Nobel de Literatura, feito pela academia sueca, o leitor brasileiro foi “pego de surpresa”. A vencedora, a norte-americana de 77 anos Louise Glück, não tinha nenhum livro traduzido aqui. Os únicos poemas dela vertidos para o português tinham sido publicados no jornal Rascunho, traduzidos por André Caramuru Aubert.

Quase um ano depois de Louise receber o Nobel, uma coletânea de poemas da americana é publicada no Brasil. Poemas (2006-2014) traz os três livros mais recentes da escritora: Averno, Uma vida no interior e Noite fiel e virtuosa.

A tradução ficou a cargo de Heloisa Jahn, Marília Garcia e Bruna Beber. Cada uma verteu um livro da coletânea, que é uma boa oportunidade para conhecer o trabalho da autora.

“Até o anúncio do Nobel, em outubro de 2020, poucos haviam ouvido falar na poeta no Brasil, pois não havia livros seus publicados aqui e, sendo poesia, o noticiário literário sobre autores inéditos no país é escasso”, diz Heloisa Jahn. “Eu não a conhecia, e foi uma descoberta e um prazer traduzir seus poemas.”

Louise Glück, vencedora do Nobel de Literatura 2020.

Editora e tradutora experiente, Heloisa define a poesia de Louise Glück como “narrativa, enraizada na memória — da infância, da vida familiar, da natureza, do aspecto e das evocações dos lugares onde viveu, dos amores —, cuidadosamente clara”.

“Porém quando digo ‘poesia narrativa’ não me refiro à linguagem poética, mas ao tratamento que ela dá a seu universo poético em sua poesia. A linguagem — fina, aguda, impregnada de afeto — é poética em suas sínteses, imagens, ritmos”, diz Heloisa, que durante muitos anos trabalhou como editora da Companhia das Letras, que publica agora a primeira obra de Louise Glück no Brasil.

Ela dá como exemplo dessa sua percepção sobre obra da americana o poema “Agouros”:

Fui de carro encontrar você: sonhos
como seres vivos enxameavam à minha volta
e a lua, à direita,
me acompanhava, ardendo.

Fiz o caminho de volta: tudo transformado.
Minha alma amorosa estava triste
e a lua, à esquerda,
vinha atrás sem esperança.

A impressões limitadas como essas
nós poetas nos entregamos inteiros,
vendo, em silêncio, agouro em coisa boba,
à espera de que o mundo reflita as necessidades mais fundas da alma. 

História

Louise Glück é um exemplo de que ainda há muitas lacunas no mercado editorial brasileiro — principalmente em relação à poesia. Mesmo sendo “uma das poetisas líricas mais puras e talentosas que agora escreve”, segundo o poeta Robert Hass, não conhecíamos sua obra por aqui.

Louise nasceu na cidade de Nova York, em 1943, e cresceu em Long Island, a ilha localizada no sudeste do estado de Nova York. Ela frequentou o Sarah Lawrence College e a Columbia University. Considerada por muitos como uma das poetas contemporâneos mais talentosas da América, Louise ficou conhecida pela precisão técnica, sensibilidade e percepção de sua poesia, que fala de solidão, relações familiares, divórcio e morte.

Louise é autora de 12 livros de poesia, incluindo os recentes Noite fiel e virtuosa, de 2014 e um dos livros da coletânea traduzida no Brasil, vencedor do National Book Award, e Poems 1962-2012 (2012), que ganhou o Los Angeles Times Book Prize. Teria sido esse livro, que reúne boa parte da obra da autora, que seduziu os membros da academia sueca.

Ela estreou na poesia em 1968 com Firstborn. E em 1992 recebeu o Prêmio Pulitzer por The Wild Iris. Os primeiros livros de Glück apresentam personas lutando com as consequências de casos de amor fracassados, encontros familiares desastrosos e desespero existencial, e seu trabalho posterior continua a explorar a agonia do “eu”.

Modernista

“A poesia de Louise Glück faz uma espécie de ligação direta com a intimidade do leitor, que passa a ser um leitor-cúmplice — a quem a poeta entrega seus poemas como confidências”, opina Heloisa.

Ela diz que foi da editora a ideia de ter três tradutoras para apresentar ao leitor brasileiro o trabalho de Louise. “Gosto da ideia de haver três vozes concertadas trazendo Louise Glück para o português.”   

Para a tradutora, os leitores de poesia encontrarão ecos de vários poetas no universo de Louise Glück. “Não vejo um em especial, nem a vejo como representando uma vertente poética específica”, diz. “Estão, aqui, os elementos básicos do modernismo: a síntese, as elipses, o recurso à linguagem do cotidiano para comunicar sentimentos às vezes muito sutis, um certo timbre de humor, a memória como chave.” E deixa  mais um exemplo da literatura dessa poeta extraordinária que tem tudo para ser mais lida e traduzida aqui após anos de ausência:

“Rotunda azul”

Eu era o homem porque era mais alta.
Minha irmã decidia
quando íamos comer.
De vez em quando ela tinha um bebê.

Então minha alma apareceu.
Quem é você, perguntei.
E minha alma disse,
Sou sua alma, a cativante estranha.

(…)
Minha alma foi recebida:
ela se atrelou a um homem.
Não um homem de verdade, o homem
que eu fingia ser, brincando com minha irmã.

A lembrança vai voltando — deitar no sofá
refrescou minha memória.
Minha memória é como um porão cheio de papéis velhos:
nada nunca muda.

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Poemas (2006-2014)
Louise Glück
Trad.: Heloisa Jahn, Marília Garcia e Bruna Beber
Companhia das Letras
504 págs.