Como o poeta francês Arthur Rimbaud se tornou um ícone em apenas 37 anos de vida

A trajetória do francês Arthur Rimbaud (1854-1891) é tão interessante e intensa quanto foi sua obra poética — interrompida, segundo datação de seus versos, quando ele tinha apenas 18 anos. O trabalho mais famoso do enfant terrible é Um tempo no inferno, que acaba de sair pela Todavia junto com suas Iluminações, em tradução de Júlio Castañon Guimarães.

Há quem diga que ele abandonou a pena aos 21, na verdade, mas essa divergência se torna curiosidade mórbida quando se vê a fotografia ampla dessa vida desregrada, que acabou com o poeta tendo uma perna amputada e morrendo, em decorrência de complicações pós-cirúrgicas e de um câncer espalhado por seus ossos, antes mesmo de completar meio século na Terra. 

Parece que tudo sempre foi muito urgente para Rimbaud. Ele nasceu na pequena cidade de Charleville e assistiu, aos oito anos, seu pai abandonar o lar. Na escola, em um período de cinco anos, colecionou 37 prêmios literários e algumas desavenças.

Ainda menino, estudando em um colégio misto (que reunia seminaristas e alunos “comuns”), demonstrou grande revolta contra a Igreja e devotos. Nas paredes do local, com a caligrafia do jovem rebelde, lia-se: “Merde à Dieu”.

Essa fúria, que também se manifestava por meio das agressões físicas que Rimbaud cometia contra os seminaristas, está totalmente presente em seu trabalho poético — iniciado com versos fixos (de dez, sete ou cinco sílabas), no que o estilo de autores que ele admirava se fazia presente, e descambou para o verso livre, em uma “pegada” muito presente na produção contemporânea.

O barco bêbado e Um coração sob a sotaina, títulos que podem mudar de acordo com a escolha do tradutor, são outros de seus poemas mais conhecidos.

Quadro “Esquina de mesa” (1872), de Henri Fantin-Latour; Rimbaud é o segundo da esquerda para a direta.

A vida de Rimbaud

  • Nasceu em Charleville, na França, em 1854
  • Na escola, em um período de cinco anos, ganhou 37 prêmios literários
  • Viveu com o poeta Paul Verlaine na França, em uma relação bem conturbada
  • Ao voltar para sua terra natal, escreveu Um tempo no inferno
  • Abandonou a poesia e foi viver pela Europa e África
  • Foi traficante de armas, empregado em pedreira e negociador de produtos
  • Tinha o objetivo de enriquecer e voltar à França para formar uma família
  • Caiu do cavalo, literalmente, machucando uma perna; precisou amputá-la
  • No hospital, os médicos descobrem que ele tem um câncer que já se espalhou para os ossos
  • Morreu aos 37 anos, em 1891, em um hospital de Marselha

O caso com Paul Verlaine

Na biografia de Rimbaud, um dos acontecimentos mais marcantes e comentados é o caso amoroso com o poeta Paul Verlaine, que era casado e tinha filhos. Arthur, admirado por seu gênio precoce, abandonou o vilarejo em que nasceu e partiu para a capital francesa, em 1871, tendo em mente que nada seria muito fácil.

“Esse mundo de letrados, de artistas, de salões, de elegâncias! Não sei como me comportar, sou desastrado, tímido, não sei falar! Ah! Intelectualmente não tenho medo de ninguém… mas, essa gente! Não sei o que vou fazer ali”, confidenciou ao amigo Ernest Delahaye, antes de partir de Charleville, conforme mostra o texto do tradutor Ivo Barroso (1929-2021) na introdução da antologia Prosa poética.

Ao chegar a Paris, Rimbaud caminhou da estação de trem até a casa do poeta mais velho e foi recepcionado por Mathilde, esposa de Verlaine. O relato dela dá uma ideia da aparência do garoto, que é quase a caricatura do que se imagina um rebelde cativante:

“Cabelos hirsutos, gravata retorcida, traje negligente, olhos azuis, muito bonitos, mas onde havia uma expressão dissimulada que, em nossa indulgência, acreditamos fosse timidez”.

Não deu outra. Rimbaud passou pela capital como um furacão, destratando todo círculo literário local e se entregando aos abusos de álcool e drogas. No final, fugiu com Verlaine para a Inglaterra, onde viveram na penúria, e tudo terminou com o poeta mais experiente dando dois tiros contra o enfant terrible, pelo que foi preso.

A obra-prima

Após o caos vivido longe de sua cidade natal, Rimbaud voltou para Charleville em 1873. No sótão de casa, em grande sofrimento, escreveu os versos de Um tempo no inferno — os quais foram reunidos em livro e editados com financiamento de Vitalie Cuif, sua mãe, com tiragem de 500 exemplares. Para Ivo Barroso, que também traduziu Rimbaud para o português, esse é o episódio mais icônico da trajetória do poeta.

“No passado, se bem me lembro, minha vida era uma festa em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos corriam./ Num anoitecer, sentei a Beleza em meus joelhos. — E a achei amarga. — E a insultei./ Fugi (…) ”, dizem os primeiros versos desse trabalho que é até hoje festejado, no qual Rimbaud confessa ter pregado peças na loucura e dado o “salto surdo da fera” para estrangular a alegria.

Essa vida tresloucada foi muito bem representada no filme Eclipse de uma paixão, de 1995, em que um jovem Leonardo DiCaprio faz o papel de Rimbaud e David Thewlis encarna Paul Verlaine. A direção do longa-metragem, que traz diálogos intensos e dá um vislumbre da intensidade do jovem francês, é da polonesa Agnieszka Holland.

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Um tempo no inferno & iluminações
Arthur Rimbaud
Trad.: Júlio Castañon Guimarães
Todavia
264 págs.