Como lidar com o luto

Não há maneira fácil de lidar com a perda, e certamente não se trata de um assunto leve. As mais de 400 mil mortes por Covid-19 no Brasil, no entanto, e as cerca de 3,4 milhões ao redor do mundo, tornam o assunto do luto incontornável. Quando evitado, afinal, as consequências podem machucar ainda mais a pessoa enlutada.

“O luto é um sentimento”, explica o professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker. “O que é um sentimento? A partilha social de um afeto. O afeto, qual é? De ter perdido algo, alguém, uma ideia, uma parte do corpo, uma época da vida, uma experiência.”

Tratando-se de uma reação normal diante da perda, diz a doutora em Psicologia Clínica Gabriela Casellato, “o luto não deve ser amenizado, mas acolhido, validado”. O movimento contrário, de tentar simplesmente afastar a dor, sem que haja espaço ou escuta para quem sofre, “pode ser uma atitude desastrosa”.

Gabriela Casellato: “O luto não deve ser amenizado, mas acolhido, validado”.

Impactos da perda

Fazer-se presente para quem sofreu a perda é uma das melhores opções. “O primeiro antídoto é oferecer a presença, as palavras”, orienta Dunker, reiterando que o luto se apresenta de formas diferentes e pode perdurar por tempos variados. Não há fórmula nem um período preestabelecido para sentir os impactos.

“Alguns vão mais rápido e outros, mais lentamente. Alguns vão começar com reações mais expressivas, mais vívidas. Outros vão começar com um momento de recolhimento e, às vezes, terão o momento de emoção muito distante do ponto inicial da perda.”

Em qualquer caso, explica Gabriela, existe um processo de “ajustamento à vida que segue sem a pessoa amada”. “Perder alguém implica num impacto importante em nosso funcionamento físico e psíquico, afetando a saúde, a cognição, a vida social, a espiritualidade, e desafia o indivíduo a encontrar recursos para lidar com todas as mudanças inerentes à perda”, continua a organizadora do livro Luto por perdas não legitimadas na atualidade (2020).

Chimamanda Ngozi Adichie, autora de Notas sobre o luto.

Morte do pai

Em junho de 2020, em meio ao distanciamento social exigido pela pandemia, Chimamanda Ngozi Adichie perdeu o pai. Uma das vozes mais celebradas da literatura contemporânea, a nigeriana registrou a experiência no livro Notas sobre o luto (2021).

A narrativa, que talvez seja uma das formas encontradas para tentar se reajustar à vida sem a pessoa amada, é carregada de sentimentos dúbios. Fica claro que Chimamanda não mediu palavras na hora de lidar com a dor da morte do pai, do qual era bem próxima.

“Uma coisa dessas, temida durante tanto tempo, finalmente chega, e na avalanche de emoções vem também um alívio amargo e insuportável”, escreve a autora, em tradução de Fernanda Abreu.

“Esse alívio se torna uma forma de agressão, e traz consigo pensamentos estranhamente insistentes. Inimigos, atenção: o pior aconteceu. Meu pai se foi. Minha loucura agora vai se revelar.”

Cuidados necessários

Tentar simplesmente esquecer, para a pessoa enlutada, pode não ser a melhor opção. O processo do luto é sério e deve ser enfrentado com os devidos cuidados. “Um dos motivos que causam depressão são lutos malfeitos”, explica Dunker, autor do livro Uma biografia da depressão (2021).

“Lutos malfeitos, mal elaborados, voltam como violência. Uma violência que é desconhecida para o próprio agente da violência”, diz. “Fazer o luto não é eliminar. Não é deixar pra trás. Mas é transformar a dor em saudade — poder lembrar, portanto.”

Nesse processo, o acolhimento do próximo é importante. “Acolher a dor significa estar do lado de quem sofre, oferecer ajuda prática e uma escuta generosa para que a pessoa se sinta menos só e valorizada em seu sofrimento”, explica Gabriela Casellato.

Christian Dunker: “Um dos motivos que causam depressão são lutos malfeitos”.

Cenário adverso e perverso

Além da delicadeza que envolve o processo individual do luto, o momento atual faz com que estejamos vivendo esse sentimento em massa, de forma coletiva. “O cenário é bastante adverso e, por que não dizer, perverso”, diz Gabriela.

Um dos agravantes, segundo a doutora, é não existir a possibilidade de o enlutado experimentar os “rituais de despedida tão necessários para o reconhecimento da perda e o enfrentamento do luto” — o distanciamento do infectado, afinal, se faz necessário.

É preciso lembrar, ainda, que estamos “vivendo um profundo desamparo político-administrativo, governados por um presidente que não cansa de banalizar as milhares de mortes acumuladas e fomentadas por ações que vão na contramão da prevenção de outras tantas”.

Seremos melhores?

A humanidade enfrenta a tragédia do século. Quando se fala em Brasil, especialmente, após a situação se normalizar de alguma forma, será caso de pensar em como reconstruir o país como um todo — segundo Dunker.

“O Brasil não foi destruído só pela Covid. Estamos em uma situação sem precedentes — comparável à de uma guerra, à de uma recessão muito prolongada”, diz.

Frente à crise, completa Gabriela, é preciso aprender a se reinventar e buscar soluções para os novos dilemas que se apresentam. “Esse esforço é muito estressante, mas também uma grande oportunidade para desenvolvermos recursos de enfrentamento, resiliência, nos sabermos finitos e entendermos que sozinhos não vamos longe”, diz.

“Essa crise sem precedentes fará história pelo lastro de tantas mortes, mas também pode nos ensinar mais sobre nós mesmos e o valor de se viver em comunidade com ética e compaixão.”

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Notas sobre o luto
Chimamanda Ngozi Adichie
Trad.: Fernanda Abreu
Companhia das Letras
144 págs.

Luto por perdas não legitimadas na atualidade
Org.: Gabriela Casellato
Summus
264 págs.

Uma biografia da depressão
Christian Dunker
Paidós
240 págs.