Coletânea de contos sobre o amor traz texto inédito de Fernanda Young

O amor é um tema inesgotável. Na vida e na arte. E é justamente sobre as variações desse sentimento, ao mesmo tempo tão conhecido e enigmático, que trata a coletânea de contos Eu chamo de amor, recém-lançada pela editora Melhoramentos. 

Com seis textos, o livro traz diferentes definições do que é o amor na visão de Fernanda de Castro Lima, Fernanda Young, Giulia Paim, Laura Conrado, Marina Carvalho e Vinicius Grossos.

Em sua maioria composto por autoras que escrevem literatura jovem (a chamada young adult), o time escalado também conta com Fernanda Young, que é o nome mais conhecido do livro e nunca havia publicado para o público jovem até então.

Fernanda Young e a editora Eugênia Ribas-Vieira na Bienal do Livro Rio 2017.

Seu “La Zorra” parece ter sido escrito especialmente para a coletânea. Contemporâneo e atual, o breve conto narra a história de Helena, uma mulher jovem que, após perder o emprego, resolve investir em seu relacionamento com o namorado Diego. Nervosa, rói as unhas, o que não é bom para uma mulher que quer impressionar o parceiro.

Então decide colocar unhas postiças e pintá-las de vermelho, o que acaba não impressionando o desavisado namorado. Pior, ele acha que os novos adereços a deixam “mais mulherão”, o que na cabeça de Helena quer dizer “mais velha”. É quando a história de amor começa a naufragar. E segue para um desfecho que tem tudo a ver com o título do conto.

Texto inédito

Fernanda Young morreu precocemente, em 2019, com apenas 49 anos. Mas produziu muito em vida, tanto romances quanto roteiros para TV, vários deles adaptados com sucesso, como a série Os normais.

“La Zorra” ficou anos na “gaveta” da ex-editora de Fernanda, a hoje agente literária Eugênia Ribas-Vieira. “A Fernanda tinha grande desejo de escrever para o público jovem. Havia, inclusive, desenhado em mente um romance para o leitor YA”, conta.

Giulia Paim, autora do conto “Prisma”.

O livro não foi para frente, mas Eugênia sugeriu que a escritora produzisse um conto com essa temática para a coletânea Heroínas, que a editora Record lançou em 2018. Fernanda desenvolveu a ideia que seria o romance, e a transformou em uma história em quadrinhos.

“Mas a editora disse que não cabia na coletânea. Ela então escreveu um texto, conforme o padrão… e foi ‘La Zorra’. A editora ainda achou pequeno. Fernanda, sem paciência nenhuma, quebrou o contrato. O que fiz agora foi aproveitar esse conto no pós-morte da autora”, diz Eugênia, que ainda quer publicar um romance inédito, chamado ironicamente de O livro, que a autora deixou inacabado, com cerca de 100 páginas.  

Outros textos

Eu chamo de amor ainda traz outras visões do amor, além da história sem final feliz de Fernanda Young. Em “Prisma”, Giulia Paim escreve uma espécie de diário da pandemia. Uma jovem, vivendo em uma cidade estrangeira, enfrenta os efeitos do isolamento: come demais, fala de menos com as pessoas (inclusive os pais, de quem rotineiramente não atende ligações), toma remédios e descuida da aparência.

Em seu diário, mistura a própria rotina com o que imagina ser a rotina dos vizinhos que vê pela janela de seu apartamento. E, assim, os nomina de acordo com o que consegue ver. Violeta é um velhinha que toma chá na sacada e tem violetas em casa.  

“Rosa e Vermelho estão jantando à luz de velas do lado de fora novamente. Parecem ainda mais bonitos do que da última vez que os vi. Devem ser os únicos que estão se cuidando esteticamente, afinal, têm alguém para quem mostrar o corpo depilado e os cabelos hidratados”, diz um trecho do conto em que a narradora vislumbra uma história de amor.

Marina Carvalho, autora do conto “Como Eduardo e Mônica”.

Uma das melhores histórias do livro é “Como Eduardo e Mônica”, de Marina Carvalho. Como o título sugere, os personagens do conto saíram da clássica música da Legião Urbana, “Eduardo e Mônica”, gravada no álbum Dois, de 1986.

O conto tem como espinha dorsal trechos da canção de Renato Russo, como “Foi um carinha do cursinho que disse: tem uma festa legal, e a gente quer se divertir” e “Eduardo e Mônica eram nada parecidos, ela era de leão e ele tinha 16”. A partir desses trechos, a autora desenvolve sua história, com um imaturo Eduardo e uma descolada Mônica.

Marina explora, como na canção, o contraste entre o casal, e coloca um detalhe que ainda incomoda muitos casais apaixonados: a diferenças de idade. Mônica tem 10 anos a mais. Assim como a canção, o conto é açucaradamente pop.

Já em “Uma história sobre montanhas, aplicativos e o crush supremo”, Vinicius Grossos mostra que é possível reparar os erros do passado e construir uma nova estrada para o futuro. Laura Conrado, em “Deve ser amor”, constrói uma história permeada pelos compromissos profissionais da personagem, que encontra o amor na hora certa. E Fernanda de Castro Lima, em “Arritmia”, investe em outro tema polêmico: o relacionamento “aberto” de Ana e Tomás. Enfim, um livro cheio de boas histórias, como são boas (quase sempre) as histórias de amor.

Compre o livro na loja Bienal Rio

Eu chamo de amor
Fernanda de Castro Lima, Fernanda Young, Giulia Paim, Laura Conrado, Marina Carvalho e Vinicius Grossos
Melhoramentos
148 págs.