Clássica HQ de Alan Moore recria a história de Jack, o Estripador

Na HQ Do inferno (1999), lançada originalmente há mais de 20 anos, o inglês Alan Moore (roteiro) e o escocês Eddie Campbell (arte) usam da imaginação e de fatos para recriar a trajetória de Jack, o Estripador — um assassino em série que matou ao menos cinco mulheres no distrito de Whitechapel, em Londres, no final dos anos 1880. No Brasil, o trabalho circula, em versão integral, pela editora Veneta.

A história, que se passa durante os últimos suspiros da Inglaterra Vitoriana, sugere um ponto final à enigmática questão de quem foi o serial killer londrino. Na imaginação de Moore, e por meio dos traços sombrios de Campbell, o homem que retalhava prostitutas tem sua identidade revelada — e o nome não vai aparecer aqui, é claro, para não estragar a surpresa.

Por mais que os autores tenham elaborado esse minucioso trabalho detetivesco, tendo como base livros como Jack the Ripper: the final solution (1976), de Stephen Knigt, e muitos outros registros históricos e especulativos, o que mais se destaca na história não é a “revelação” da identidade do assassino. Até porque o próprio Alan Moore, nas muitas e muitas páginas de apêndice aos capítulos dos quadrinhos, diz ele mesmo não acreditar na solução de Knight e deixa bem claro o que é ficção e o que foi tirado de fatos.

Alan Moore, autor da HQ Do inferno. Foto: Mitch Jenkins/Planeta de Livros do Brasil

Conheça Alan Moore

  • Nasceu em uma área pobre de Northampton, na Inglaterra, em 1953
  • Foi expulso da escola
  • Trabalhou como faxineiro, em uma companhia de gás e num curtume
  • É autor de clássicos dos quadrinhos:
  • V de Vingança (1982), Watchmen (1986-87), Batman: A piada mortal (1988) e Do inferno (1989)
  • Dos títulos mencionados acima, os dois primeiros e o último foram adaptados para o cinema
  • Watchmen faz parte da lista da revista Time que selecionou os 100 melhores romances de 1923 a 2005
  • Publicou os livros A voz do fogo (1996) e Jerusalém (2016)
  • Escreveu e estrelou o filme The show (2021), dirigido por Mitch Jenkins
  • Afastou-se dos quadrinhos há anos e considera os filmes de super-heróis um desfavor à cultura

A cidade como personagem

Em Do inferno, Alan Moore parece fazer da chegada do frenético século 20 e a espetacularização que a mídia fez em cima do caso de Jack, o Estripador os verdadeiros personagens centrais dos acontecimentos sangrentos de Whitechapel. A história é dividida em um prólogo e cinco grandes partes:

  • Os anciões na praia
  • As paixões do jovem sr. S
  • Um estado de trevas
  • Chantagem ou sra. Barrett
  • “O que o senhor exige de ti?”
  • O nêmesis da negligência

Em alguma medida, reavaliando a HQ neste momento, é possível dizer que a dissolução da identidade do assassino, em meio à histeria que marcou a virada do século, foi muito sintomática — no sentido de que estaria quase prevendo uma era em que a quantidade de informação e a ânsia por chamar a atenção, mesmo que de maneira vazia, fossem mais relevantes do que solucionar o caso.

Alguma semelhança com o século 21?

Johnny Depp no papel do inspetor Frederick Abberline.

Mídia e adaptações

 No “mundo real”, o caso de Jack, o Estripador acabou engavetado pela Scotland Yard — o que gera, até hoje, todo tipo de teoria conspiratória.Não é para menos, já que se trata de um assassino em série que mora no imaginário popular, muito devido ao trabalho da mídia, e cujas ações foram representadas em variadas formas de arte.

Em 2001, os diretores Albert e Allen Hughes levaram a história de Do inferno para os cinemas, com Johnny Depp no papel do inspetor Frederick Abberline, responsável pelo caso à época. O longa-metragem, além de não ter sido muito bem recebido pelos fãs de quadrinhos, despertou a ira de Alan Moore. Para o autor inglês, a adaptação não conseguiu, nem de longe, captar a complexa essência de seu trabalho.

O desapontamento de Moore com adaptações que fazem de seus trabalhos se tornou uma constante, levando-o a romper com muita gente e se tornar crítico ferrenho dos filmes de super-heróis, por exemplo, os quais ele considera não só uma forma de infantilizar os adultos como um desfavor à cultura, pois não propõem reflexões sérias a respeito dos problemas do mundo contemporâneo.

A arte de Alan Moore

O tom combativo e algo místico do mago dos quadrinhos, que não mexe mais com HQs e quer ser desvinculado de seus trabalhos clássicos, é bastante conhecido do público. É curioso pensar quem, em sã consciência, gostaria de se ver livre do peso de uma história revolucionária como Batman: A piada mortal, da qual Moore se arrepende.

Ao que tudo indica, o autor inglês é um sujeito tão complexo quanto seus próprios personagens. E a influência de seu trabalho saltou das páginas para ganhar não só as grandes telas, mas o mundo todo. O grupo Anonymous, por exemplo, apropriou-se da máscara criada por Moore na HQ V de Vingança, que acabou se tornando um dos maiores símbolos de protesto do século 21.

Apesar de ter gerado tamanho impacto na sociedade, o ex-quadrinista continua parecendo mais preocupado com questões existenciais e os rumos do planeta Terra do que com mídia. Além de ainda não ser afeito a grandes aparições midiáticas, cultiva até hoje discursos pouco ortodoxos com relação ao sentido da vida. A forma de ele encarar as coisas, talvez, possa ser sintetizada em uma de sua frases de impacto: “Linguagem, arte, consciência e magia são quatro facetas do mesmo fenômeno”.

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Do inferno
Alan Moore e Eddie Campbell
Trad.: Jotapê Martins
Veneta
592 págs.