Cinco vezes Ana Maria Machado

Em dezembro de 2021, Ana Maria Machado completa 80 anos. Autora de mais de 100 livros, cinco lançamentos vão marcar a nova idade da imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Três deles, para o público infantil, acabam de ser lançados pela editora Moderna: O mesmo sonho, A história que eu queria e Igualzinho a mim. Ela aproveitou o período de isolamento por conta da Covid-19 para rever alguns escritos do passado e retomá-los. É o caso de O mesmo sonho, história cujo início estava pronto havia mais de 20 anos, mas Ana não sabia como continuá-la.

“Agora, durante a pandemia, ela amadureceu”, diz a escritora. Já o tema de Igualzinho a mim teve versões narrativas diferentes que não a satisfaziam. “Também durante a quarentena, quando desisti de narrar e resolvi fazer em versos rimados e metrificados, o livro quase se escreveu sozinho, eu só tive de cortar os excessos.”

Conversa no elevador

O terceiro livro, A história que eu queria, surgiu há uns dois anos, de forma inusitada. A escritora teve o start a partir de uma conversa entreouvida no elevador. “Acho que, de alguma forma, em conjunto eles têm a ver com este momento, valorizando solidariedade, empatia, criatividade, imaginação, sentido do coletivo, esperança, buscando forças para o futuro. Mas não foi consciente, foi coincidência.”

A história que eu queria ilustra bem o que autora fala. O livro mostra que cada ser humano é diferente sob diversos aspectos: cabelo, voz, cor de pele, etc. Mas, apesar de tantas diferenças, que fazem cada indivíduo ser único, existem também semelhanças. Afinal todos temos um coração no peito, os mesmos direitos e merecemos respeito — para ser do jeito que somos.

Ana Maria Machado já publicou livros no Brasil e em outros 17 países, somando mais de 20 milhões de exemplares vendidos.

O que vem por aí

Entre julho e agosto, outro livro infantojuvenil de Ana, O menino e o maestro, estará nas livrarias. Trata-se de uma reedição que a FTD publica com ilustrações de Vinicius Sabbato.

Lançado originalmente em 2006, o livro conta a história de amizade entre dois músicos: o menino, que toca tamborim numa bateria de samba, e o maestro, que toca clarinete numa orquestra sinfônica e numa roda de choro (onde é maestro, daí o nome). O maestro apresenta Mozart e a música clássica ao menino e ajuda a reaproximá-lo do pai, também músico, que tinha abandonado o filho.

Há cinco anos sem lançar um livro para o público adulto, Ana retorna com Vestígios, que está no prelo, previsto para ser publicado em julho pela Companhia das Letras. Com dez romances publicados, chegou a hora de a autora estrear nos contos.

As 11 histórias foram escritas “esporadicamente ao longo de mais de 40 anos”, conta. Em sua maioria inéditos, ou publicados apenas em revistas. “Eu nunca publicara um livro de contos, mas me dei conta de que esses tinham algo em comum e podiam constituir um volume consistente: todos tratam da repercussão futura de fatos passados, captando instantes que tiveram consequências e mudaram vidas. Daí o título, chamando a atenção para isso.”

Muitos livros, muitos leitores

Em quase 40 anos de carreira, Ana tem livros publicados no Brasil e em outros 17 países, somando mais de 20 milhões de exemplares vendidos. Uma trajetória recheada de prêmios nacionais e internacionais, como o Jabuti (que ganhou três vezes) e o Hans Christian Andersen, considerado a mais importante honraria da literatura infantojuvenil.

Em um ambiente ainda dominado por homens, Ana foi eleita em 2003 para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Entre 2012 e 2013, presidiu a instituição. Estudou arte em Nova York e deu aulas na Sorbonne e na Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Trajetória invejável, mas que não tira a autora do prumo nem a faz se acomodar. “Acho que mais importante é a qualidade da leitura que certos leitores me trazem. O melhor retorno para esta autora é a (eventual) constatação de ter sido bem lida”, diz sobre a quantidade expressiva de livros e leitores que fazem parte de sua vida profissional.

E esse tem sido um assunto presente em suas reflexões no último ano. “Tenho pensado muito nisso, e escrito um pouco a respeito, num texto longo ainda em processo, que talvez tenha sido minha principal produção literária deste período, numa linha mais memorialística de balanço destes anos de escrita e de encontros proporcionados por ela.”

Vida na pandemia

“Muito simples e doméstica”, diz Ana ao falar de como tem sido sua rotina durante a pandemia, que já passa de um ano. “Fico em casa, leio, escrevo, me comunico com amigos, ouço música, pinto, cozinho, vejo séries e filmes, cuido de plantas, quase não saio.”

Ela passou alguns meses na casa de praia no litoral capixaba. “Lá é tudo muito rústico: tenho a vantagem de jardim, quintal e proximidade do mar, mas a desvantagem de menos recursos tecnológicos e urbanos. Quando voltei ao Rio para me vacinar, fiquei. Até para não me expor em viagem de avião.”

E depois que o furacão da pandemia passar, o que fará Ana Maria Machado? “O maior plano neste momento é tentar ficar viva, com quem eu amo, tendo saúde e lucidez.”

Compre os livros na loja da Bienal Rio

O mesmo sonho
Ana Maria Machado
Ilustrações: Elisabeth Teixeira
Moderna
32 págs.

A história que eu queria
Ana Maria Machado
Ilustrações: Elisabeth Teixeira
Moderna
32 págs.

Igualzinho a mim
Ana Maria Machado
Ilustrações: Maria José Arce
Moderna
32 págs.