Cinco romances para começar a celebrar o centenário de José Saramago

O centenário de José Saramago (1922-2010), um dos principais escritores de língua portuguesa, é comemorado em novembro de 2022. Já em ritmo de celebração, e para oferecer algumas dicas preciosas a quem ainda não teve contato com o trabalho do vencedor do Nobel de Literatura (1998) e Prêmio Camões (1995), a Bienal 360º separou cinco romances imprescindíveis da extensa obra do autor.

Saramago escreveu mais de 40 títulos e está traduzido, de acordo com a fundação que leva seu nome, em mais de 60 países — fruto de uma trajetória literária iniciada em 1947, com Terra do pecado, e cultivada ao longo de seis décadas, até a publicação de Caim (2009), seu último livro lançado em vida. Tudo isso não aconteceu sem alguns percalços, vale lembrar.

Além de ter sofrido censura devido ao romance O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), exerceu diversas outras atividades — de serralheiro mecânico a funcionário público — antes de se firmar como ficcionista. É uma boa forma de lembrar, com algum otimismo, que momentos difíceis podem fazer parte da construção de um futuro brilhante.

José Saramago, vencedor do Nobel de Literatura 1998. Foto: Wikimedia Commons

O evangelho segundo Jesus Cristo

Em seu trabalho mais controverso, censurado em Portugal no início da década de 1990, Saramago — notório ateu — começa descrevendo uma pintura sagrada e dela retira as principais figuras que vão compor a obra, com destaque, é claro, para Jesus. Um tipo bastante humanizado, apresentado de forma linear (sem a lacuna bíblica) e cheio de dúvidas, que teve em Madalena sua amante. Deus e o Diabo, aliás, chegam até ter seus papéis invertidos em dado momento. Outro trabalho em que o autor faz uma “releitura” da Bíblia é seu último publicado, Caim.

O evangelho segundo Jesus Cristo
José Saramago
Companhia das Letras
448 págs.

Ensaio sobre a cegueira

O que resta quando todas as certezas palpáveis da vida desaparecem de repente, tendo um motorista parado num sinal como “paciente zero”? A partir daí, a “treva branca” se espalha e os habitantes da cidade em que o livro se passa vão precisar lidar com novas formas de organização e, principalmente, um sem-fim de dúvidas. A visão, afinal, não existe mais. O romance, lançado originalmente no ano em que Saramago recebeu o Prêmio Camões (1995), foi adaptado para o cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, também responsável por levar Cidade de Deus, de Paulo Lins, às telonas.

Ensaio sobre a cegueira
José Saramago
Companhia das Letras
312 págs.

O homem duplicado

Não se trata de ficção científica, mágica ou qualquer coisa do tipo: o homem que se vê duplicado, o professor de história Tertuliano Máximo Afonso, é nada mais do que fruto de um período — início do século 21, quando a obra foi lançada — em que a globalização parece ter “roubado” a individualidade das pessoas. Não à toa, é em um filme, grande fonte de entretenimento e business milionário, em que o professor vê seu duplo pela primeira vez. Após a descoberta, o personagem se lança em uma crise existencial. 

O homem duplicado
José Saramago
Companhia das Letras
320 págs.

Ensaio sobre a lucidez

Se em Ensaio sobre a cegueira houve uma “treva branca” que tirou a visão das pessoas de uma cidade, desta vez é uma “epidemia” diretamente ligada à política que está no centro da narrativa. Após eleições na capital de um país imaginário, a vitória não é de nenhuma das ideologias normalmente em vigência, mas do voto em branco. A partir daí, como prosseguir? É o momento ideal para questionar as fragilidades do sistema político e mostrar, de alguma forma, que os velhos pilares que movem a sociedade talvez não sejam mais as melhores opções. Repensando a forma que o mundo está organizado, é possível chegar à lucidez?

Ensaio sobre a lucidez
José Saramago
Companhia das Letras
328 págs.

As intermitências da morte

Em mais uma narrativa carregada de simbolismo, Saramago faz com que a morte, cansada de ser odiada pelos homens, deixe de trabalhar. Novamente, as pessoas de um país imaginário são afetadas — positivamente, a princípio, pois se sentem como se abençoadas pela vida eterna. Mas não tardam a perceber como a mortalidade era, na verdade, uma espécie de condição essencial para que se mantivesse certa harmonia nas relações entre instituições (governamentais ou não) e diferentes crenças. Agora, sem o toque final à espreita, os hospitais estão lotados, a Igreja está em xeque e os seguros de vida se tornam inúteis.

As intermitências da morte
José Saramago
Companhia das Letras
208 págs.