Cinco livros para entender o drama dos refugiados

A volta do grupo terrorista Talibã ao poder no Afeganistão, depois da retirada das tropas americanas do país, assombrou o mundo nas últimas semanas. Cenas de gente desesperada tentando fugir do país a qualquer custo, penduradas do lado de fora de aviões, escancarou novamente o drama dos refugiados — pessoas que, por motivos diversos, são obrigadas a fugir de seu país de origem.

O problema dos refugiados é global, mas no Oriente Médio e Paquistão, no sul da Ásia, a crise se arrasta há décadas, em diferentes países e por variadas razões — de guerras a governos autoritários.

Os livros selecionados pela Bienal 360° ajudam a entender, seja por meio da ficção ou de relatos reais, como cada local e seus habitantes têm tentado superar os conflitos que levam, quase sempre, a movimentos migratórios em massa. São autores de países distintos, mas que escrevem sobre um drama comum.

O mapa de sal e estrelas (Síria)
Zeyn Joukhadar

É com habilidade que o sírio-americano Zeyn Joukhadar entrelaça duas histórias cheias de lances dramáticos, que, entre diversos outros assuntos, tem no drama daqueles que são obrigados a fugir de seu próprio país o centro do romance. Em meio a protestos, conflitos e bombardeios durante a guerra civil de 2011 na Síria, a jovem Nur é forçada a deixar o país em busca de segurança. Quase mil anos antes, Rawiya, aprendiz de cartografia, traça exatamente a mesma rota, numa saga épica por terras desconhecidas. As duas jornadas de amadurecimento se intercalam, enquanto que as protagonistas, embora separadas por séculos de história, espelham as diferentes faces de milhões de refugiados do Oriente Médio e norte da África. Neste ano, Joukhadar recebeu os prêmios Stonewall Book Awards e o Lambda Literary Award por seu livro The thirty names of night, ainda sem tradução no Brasil.

O mapa de sal e estrelas
Zeyn Joukhadar
Trad.: Carol Chiovatto
Dublinense
384 págs.

Meninos de zinco (Afeganistão)
Svetlana Aleksiévitch

Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, a ucraniana Svetlana Aleksiévitch é autora de vários livros “assombrosos”, que misturam jornalismo com literatura, dando vida a relatos potentes como Vozes de Tchernóbil. Em Meninos de zinco, ela mira seu arsenal intelectual para o período entre 1979 e 1989, quando as tropas soviéticas se envolveram em uma guerra devastadora no Afeganistão, que causou milhares de baixas em ambos os lados e, claro, obrigou outras milhares de pessoas a sair do país. Enquanto a URSS falava de uma missão de “manutenção da paz”, levas e levas de mortos eram enviadas de volta para casa em caixões de zinco lacrados. Este livro apresenta os testemunhos honestos de soldados, médicos, enfermeiras, mães, esposas e irmãos que descrevem os efeitos duradouros da guerra. O “período soviético”, reportado no livro, ajuda a entender como o Taliban foi “gestado” e de que forma se tornou o que é hoje. 

Meninos de zinco
Svetlana Aleksiévitch
Trad.: Cecília Rosas
Companhia das Letras
368 págs.

Longe de casa: Minha jornada e histórias de refugiadas pelo mundo (Paquistão)
Malala Yousafzai

A história de luta da paquistanesa Malala Yousafzai está mais viva no que nunca com a nova ofensiva do Taliban contra as mulheres afegãs e seus direitos básicos, como a educação. Em 2009, ela foi baleada por um militante do grupo e se tornou uma voz global pelo direito das meninas e mulheres se educarem. Neste relato emocionante, a mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da Paz conta sua história e dá voz a garotas que estão entre os milhões de refugiados pelo mundo. Em Longe de casa, ela narra sua própria trajetória de vida e apresenta as histórias de outras nove garotas de várias partes do mundo, do Oriente Médio à América Latina. Todas tiveram que deixar para trás sua comunidade, seus parentes e o único lar que conheciam.

Longe de casa: Minha jornada e histórias de refugiadas pelo mundo
Malala Yousafzai
Trad.: Lígia Azevedo
Seguinte
232 págs.

O segredo do meu turbante (Afeganistão)
Nadia Ghulam e Agnès Rotger

A vida de Nadia Ghulam é uma sucessão de dramas, sofrimento e, ainda que por linhas tortas, sorte. Na primeira vez que o Taliban governou o Afeganistão, entre 1996 e 2001, Nadia tinha apenas oito anos. A casa onde vivia com sua família foi destruída por uma bomba e ela teve o rosto deformado, precisando fazer várias cirurgias ao longo dos dois anos que passou no hospital. Todos os homens da sua família morreram. Então, para sobreviver, teve que se travestir de homem e poder trabalhar, já que as leis do Taliban proíbem mulheres de trabalhar e estudar. Em um relato emocionante, em que fica evidente a persistência de Nadia, a autora revela a rotina de pesadelo imposta pelo grupo terrorista aos afegãos. Morando hoje na Espanha, Nadia virou símbolo da luta contra a opressão e a favor dos direitos das mulheres.

O segredo do meu turbante
Nadia Ghulam e Agnès Rotger
Trad.: Denise Schittine
Globo Livros
304 págs.

Persépolis (Irã)
Marjane Satrapi

A autobiografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi foi um grande sucesso quando foi lançada, na primeira década dos anos 2000, e continua uma referência ainda hoje. No livro, a autora mostra como sua vida foi impactada pelo regime radical iniciado com a “revolução islâmica” no Irã a partir de 1979. Nascida em uma família com ideias progressistas, ela mostra como foi sua juventude sob a mão pesada de um regime fundamentalista, que impõe ao cidadão absolutamente tudo: da roupa à alimentação. Um rotina que contrastava com as ideias de Marjana, e a levaram a se exilar na Suécia, longe da família.

Persépolis
Marjane Satrapi
Trad.: Paulo Werneck
Companhia das Letras
352 págs.