Caminhos e dicas para se tornar escritor

Parece um caminho natural que o leitor de ficção acabe pensando, em algum momento da vida, em se tornar escritor. Mas permanece sempre à espreita a dúvida: por onde começar?

Hoje, com tantos cursos e experiências acumuladas por especialistas ao longo dos anos, certamente não é preciso aguardar o toque das musas nem o arroubo traiçoeiro da inspiração para pôr, literalmente, mãos à obra.

Se você faz parte desse time de marinheiros de primeira viagem, e por acaso se sente meio perdido, a Bienal 360º convidou os professores e escritores Luiz Antonio Assis Brasil, Noemi Jaffe, Paulo Scott e Leticia Wierzchowski para falar sobre a trajetória nem sempre fácil em meio às letras.

Além disso, ao final deste texto está disponível uma lista com várias indicações de leituras para o escritor iniciante, com obras de grandes críticos e ficcionistas de sucesso — James Wood, George Orwell, Haruki Murakami e Raimundo Carrero, entre outros.

Luiz Antonio de Assis Brasil: “O excesso de confiança e a falta de confiança são as maiores pedras nesse caminho [do aspirante a escritor]”. Foto: Douglas Machado

Cursos de escrita ajudam?

Professor de escrita criativa há 36 anos, e um dos nomes à frente da Quadro Amarelo, Luiz Antonio de Assis Brasil explica que há, hoje, uma pluralidade de cursos à disposição do escritor iniciante — e diversos segmentos, aliás, como os voltados especificamente para o conto, poesia ou romance. “A cartilha é vasta”, diz o autor de Escrever ficção: um manual de criação literária (2019).

A respeito de se estar em uma sala de aula para desenvolver a escrita, Assis Brasil destaca o fato de que cursos oferecem disciplina e a possibilidade de se compartilhar textos com colegas. Nesse processo, “o professor será, sempre, um orientador que, com sua maior experiência, pode ser útil para organizar tudo isso”.

Noemi Jaffe: “É preciso ler muito, de tudo e sempre”. Foto: Renato Parada

Para Noemi Jaffe, criadora da Escrevedeira, o curso de escrita criativa é uma boa forma de começar. “A pessoa estará em contato com outras pessoas que têm os mesmos interesses e para quem ela poderá mostrar e compartilhar seus textos, dificuldades e necessidades”, explica a autora do romance O que ela sussurra (2020).

Muita leitura e exercícios

Noemi salienta, no entanto, que essa não é a única forma: “É possível começar criando uma disciplina de escrita, lendo muito e se propondo exercícios baseados em livros de escrita ou mesmo na própria imaginação”.

A importância de se expor em um ambiente controlado também é comentada por Paulo Scott. “Experimentar, expor-se, é fundamental. As oficinas são espaços preciosos de leitura e exposição. Não se trata de escrita criativa, mas de leitura criativa”, explica o autor de Marrom e Amarelo (2019).

Já para Leticia Wierzchowski, que ganhou projeção nacional com o romance A casa das sete mulheres (2002), é compreensível que a pessoa opte por escrever sozinha, e afirma que é ela própria quem deve sentir essa necessidade ou não de experimentar um curso ou uma oficina. Para Leticia, pelo menos, que passou pela Oficina de Criação Literária ministrada por Assis Brasil, há mais de três décadas ativa na PUCRS, a experiência foi positiva: “Eu era muito jovem, estava bem perdida. Foi um alívio ter um guia”.

Leticia Wierzchowski: “Se você escreve pensando no mercado, faça um concurso público. Escrever é uma necessidade vital”. Foto: Carin Mandelli

Leia, planeje e trabalhe muito

A preparação de um escritor não se dá somente em cursos e oficinas. Uma grande somatória de fatores, muitos deles subjetivos, vai orientar o aspirante no caminho que mais lhe aprouver. Há, no entanto, exercícios que parecem incontornáveis.

“Viva. Leia muito, leia melhor”, recomenda Scott, reforçando que o mais apropriado é se entregar à ficção, e não se prender necessariamente a textos técnicos: “Manuais ensinarão muito pouco. Leia ficção. Leia o que te desconforta, o que te desconfirma”.

Noemi compartilha dessa visão: “É preciso ler muito, de tudo e sempre”. Além da leitura, a escritora paulistana recomenda paciência e trabalho duro ao iniciante, pois “o tempo da escrita é longo” e “mais importante do que a suposta inspiração, o essencial é trabalhar e criar a própria rotina de escrita”.

Observar e imaginar, para Assis Brasil, são pontos cruciais para o aspirante a escritor. “Isso implica muita leitura, pois a leitura é que pode indicar todas as potencialidades dessa dupla ação, tornando-a eficiente para o domínio do texto”, aconselha o autor dos romances O inverno e depois (2016) e Figura na sombra (2012). Além da leitura, dedicação e imaginação, a rotina e a organização são importantes. “Sempre recomendo a constância e algum planejamento. A criatividade pode nascer de um estado de euforia, de intuição — ou seja, de um meio desorganizado de pensamento —, mas ela funciona melhor com organização, criando uma musculatura criativa, como diz o Murakami”, diz Leticia.

Paulo Scott: “Leia ficção. Leia o que te desconforta, o que te desconfirma”. Foto: Renato Parada

Pedras no meio do caminho

A primeira estrofe de um dos poemas mais famosos de Carlos Drummond de Andrade (1902-1986) diz: “No meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho/ Tinha uma pedra/ No meio do caminho tinha uma pedra”.

No meio do caminho do escritor iniciante, é claro, não é diferente — e as dificuldades podem ser tanto externas quanto internas, afinal, é de conhecimento popular que lidar com o ego do artista pode não ser das tarefas mais fáceis.

“O excesso de confiança e a falta de confiança são as maiores pedras nesse caminho [do aspirante a escritor]. Isso pode ser contornado com observação, experiência de partilhar seus textos. A troca é que pode ser um bom meio-termo útil”, explica Assis Brasil.

Para facilitar a vida do iniciante

Pensando a prática da escrita enquanto ofício, Scott deixa algumas observações que podem facilitar a vida do iniciante: “O mercado e as relações do meio editorial (curadorias, prêmios, inclusive) são, em boa parte das vezes, promíscuas e têm pouco a ver com valor, singularidade, importância, originalidade”.

“Por isso, não escreva para agradar as outras pessoas. Realizar sua literatura em função dos outros é o pior dos erros”, completa o autor dos poemas de Garopaba Monstro Tubarão (2019).

Ainda sobre ficção e mercado editorial, Leticia também deixa uma reflexão: “Se você escreve pensando no mercado, faça um concurso público. Escrever é uma necessidade vital — baseada nisso, corri atrás de todos que pude, bati em todas as portas. Você tem de correr riscos para ser feliz”. E Scott completa: “Se você acredita em fórmulas, seu lugar não é na arte. O maior conselho que recebi nesses anos de escritor publicado veio de Marçal Aquino: não se compare, não se desconcentre, baixe a cabeça e escreva”.

Dicas de leitura

A Bienal 360º apresenta dez dicas de boas leituras para quem, após desfrutar dos conselhos oferecidos acima, pretende se aprofundar na arte da escrita.

Escrever ficção: um manual de criação literária
Luiz Antonio de Assis Brasil
Companhia das Letras
400 págs.

À frente da oficina de criação literária mais antiga do país, em atividade há 36 anos na PUCRS, o autor gaúcho — com o apoio de Luís Roberto Amabile — passeia por diferentes questões técnicas do fazer literário, como a criação de personagens e o enfoque narrativo.

Romancista como vocação
Haruki Murakami
Trad.: Eunice Suenaga
Companhia das Letras
168 págs.

Apoiando-se em sua própria trajetória literária, um dos escritores japoneses mais festejados da atualidade — autor da trilogia 1Q84 e Kafka à beira-mar, entre outros livros — faz longas digressões sobre literatura e seu amor pela escrita.

Sobre a escrita: a arte em memórias
Stephen King
Trad.: Michel Teixeira
Suma
256 págs.

Nesta espécie de autobiografia com toques de manual de criação literária, o autor de Carrie, a estranha (1974) e O iluminado (1977), entre outros sucessos do terror, oferece dicas valiosas para todo aspirante a escritor e revisita sua própria trajetória.

Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los
Francine Prose
Trad.: Maria Luiza X. de A. Borges
Zahar
320 págs.

É possível ensinar alguém a escrever? A partir dessa pergunta clássica e polêmica, a autora norte-americana investiga a obra de autores como Jane Austen, Virginia Woolf e Philip Roth para tentar chegar ao segredo de como se tornar um bom ficcionista.

Como escrever um romance
Miguel de Unamuno
Trad.: Antonio Fernando Borges
É Realizações
144 págs.

Filosofia e teoria literária se combinam nesta obra do autor espanhol, que enxergava a literatura como uma espécie de comentário sobre a vida. Longe de se parecer com um manual, a obra pede imersão do leitor e pode ser vista como um tipo de romance sobre como se escrever um romance.

Por que escrevo
George Orwell
Trad.: Claudio Marcondes
Penguin Companhia
128 págs.

Nesta reunião de ensaios sobre literatura, linguagem e livros, o autor de 1984 e A revolução dos bichos (ou A fazendo dos animais, conforme diferentes traduções) demonstra a importância social e política da ficção.

A preparação do escritor
Raimundo Carrero
Iluminuras
224 págs.

Com a clareza de quem já produziu muita literatura, o escritor pernambucano esmiúça as técnicas narrativas que constituem um texto ficcional, dando especial importância à diferença entre foco e ponto de vista narrativo.

Como funciona a ficção
James Wood
Trad.: Cláudio Alves Marcondes
Sesi-SP
232 págs.

Professor de crítica literária da Universidade de Harvard e conhecido por seus textos publicados na revista The New Yorker, o autor inglês aborda os mecanismos, procedimentos e efeitos da construção narrativa ficcional.

Cartas a um jovem escritor
Mário Vargas Llosa
Trad.: Regina Lyra
Elsevier/Campus
182 págs.

A vida, para além das técnicas narrativas, tem peso crucial na hora se elaborar um texto ficcional — trata-se, em última instância, de uma atividade introspectiva. Compreendendo essa faceta da criação, o autor peruano tenta capturar as sutilezas que envolvem o fazer literário.

Para ser escritor
Charles Kiefer
LeYa
160 págs.

Além de dissecar os mecanismos do fazer literário, o autor gaúcho — duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti — busca mostrar ao aspirante a escritor como funciona o mercado na prática e possíveis questões éticas que acompanham a escrita.