Biografia mostra as várias facetas de Elke Maravilha, fenômeno da TV brasileira

Na biografia Elke: mulher maravilha, o jornalista Chico Felitti resgata a intensa trajetória de uma personalidade que, de modelo a jurada de programas de auditório, ganhou o público com sua irreverência. O livro conta a história desde que a artista — nascida na Alemanha — chegou ao Brasil, em 1949, até sua morte, em 2016, após cirurgia para tratar uma úlcera no duodeno.

Elke Maravilha, que durante toda vida sustentou a história de que tinha nascido em Leningrado, na União Soviética, chamou a atenção das pessoas desde cedo. Ela cresceu na chácara de Cubango, em Minas Gerais, localizada próximo à cidade de Itabira — onde nasceu o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

Aos 17 anos, falando oito línguas e com 1,77 metro de altura, Elke venceu o concurso de beleza Glamour Girl de Belo Horizonte. A partir daí, quando começou a se fazer presente na mídia nacional, as coisas deslancharam.

Ela se tornou a modelo mais requisitada do país, trabalhou com Chacrinha, que lhe deu o nome de Elke Maravilha, passou muitos anos no SBT, onde teve desentendimentos com Silvio Santos, e participou de filmes e séries. Foi, também, muito dada ao álcool (“A única que realmente é minha droga mesmo é a cachaça”, contou a Felitti) , experimentou todo tipo de entorpecimento e teve muitos amores.

Essa amálgama de qualidades fez com que Elke Maravilha fosse vista de muitas formas. Durante a apuração para escrever a biografia, de acordo com informações reunidas por Chico, ela foi classificada — por pessoas diferentes — de várias maneiras: a moça do Chacrinha; a loira gringa, linda, coisa de cinema; a louca que inventava moda e gritava que nem uma maritaca. “Todas essas respostas estão corretas”, escreve o autor de Elke: mulher maravilha.

Chico Felitti, autor de Elke: mulher maravilha. Foto: Marcus Leoni

O começo de Elke Maravilha

  • Chamava-se Elke Grünupp
  • Nasceu na cidade de Leutkirch (Alemanha), em 22 de fevereiro de 1945, seis meses antes do final da Segunda Guerra Mundial
  • Dizia ter nascido em Leningrado, atual São Petersburgo, na Rússia
  • Filha do russo George Grünupp, acusado de trair a pátria, e da alemã Liezelotte von Sonden
  • Chegou ao Brasil em 3 de janeiro de 1949, aos quatro anos de idade, junto com a família
  • Foi registrada, pela Polícia Marítima, com o nome de Ilga
  • Ficou com a família na Hospedaria da Ilha das Flores, que Elke viria a definir como “um campozinho de concentração pra imigrantes na baía de Guanabara”
  • Cresceu na chácara de Cubango, em Minas Gerais, localizada a 20km de Itabira do Mato Dentro
  • Aos 17 anos, em 1962, foi eleita a Glamour Girl Belo Horizonte
  • Já falava oito línguas: português, russo, inglês, francês, grego, latim, italiano e espanhol

Encontro com Drummond

Além de ter vivido meio reclusa no final da vida, o que destoa de uma trajetória sob os holofotes, outra curiosidade da biografia de Elke Maravilha é um encontro que ela teve com o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Em 1974, atrasada para participar em um desfile em Copacabana, Elke foi chamada por um homem que correu atrás dela. Quando percebeu que era o Drummond, gelou. “Elke diz que foi um dos únicos momentos de sua vida em que se sentiu constrangida”, conta Chico Felitti.

O constrangimento não durou muito. O poeta, que se considerava “uma pessoa triste, taciturna”, conforme disse à modelo e apresentadora, falou que as aparições da mulher na TV conseguiam deixá-lo alegre, até feliz.

Elke Maravilha na década de 1970. Foto: David Zingg/Instituto Moreira Salles

Trajetória (resumida) de Elke Maravilha

  • Foi finalista do concurso que elegeria a Rainha Brasileira do Café, em 1962; não venceu, mas ganhou visibilidade
  • Apareceu na capa da Manchete e fez ponta no filme Bossa nova, de Louis Serrano, que acabou não sendo lançado
  • Não durou um ano na faculdade de medicina, na qual, segundo Elke, seus colegas “tinham uma família real” na barriga
  • Casou-se com Alexandros Evremidis, em 1969, adotando o sobrenome do marido
  • Foi presa por seis dias pelo Dops, durante a ditadura militar, e se tornou apátrida
  • Firmou-se na moda antes de entrar para a TV
  • Estreou como jurada no programa “Buzina do Chacrinha” em 1972, onde recebeu o nome de Elke Maravilha e ganhou reconhecimento nacional 
  • Trabalhou com Silvio Santos em diferentes programas, com quem teve muitas divergências ideológicas
  • Participou de muitos filmes e séries; no final da vida, teve problemas financeiros e dificuldades para se manter nos holofotes
  • Operou uma úlcera no duodeno, precisou ficar em coma induzido e morreu, aos 71 anos, na madrugada de 16 de agosto de 2016

Por trás do livro

Chico Felitti começou a ganhar visibilidade quando publicou uma reportagem sobre Ricardo Corrêa da Silva, conhecido pejorativamente por Fofão da Augusta, no BuzzFeed. Esse trabalho se desdobrou no livro Ricardo e Vânia, lançado pela Todavia, que também editou A Casa — no qual Chico conta a história do criminoso guru João de Deus.

O texto veiculado pelo BuzzFeed, que teve um milhão de acessos só no primeiro dia, continha os elementos que viriam a fazer do repórter um dos nomes mais relevantes do jornalismo literário: a apuração minuciosa, a riqueza de informações, o estilo de escrita mais “solto” e o fato de não se fazer ausente dos próprios trabalhos, como prega a cartilha do jornalismo “quadrado”.

Mas nem sempre foi assim. Quando ainda era estudante, no penúltimo ano da faculdade de jornalismo, foi desencorajado a escrever uma biografia sobre Elke Maravilha — escutou, de um professor, que a história não interessaria a ninguém. A essa figura, na introdução de Elke: mulher maravilha, Felitti deseja “uma boa aposentadoria”.

Compre o livro na loja Bienal Rio

Elke: mulher maravilha
Chico Felitti
Todavia
200 págs.