Bauman e a liquidez dos tempos: o que significa?

A reedição de algumas das principais obras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) são uma boa oportunidade para repensar, ou entender, a liquidez dos tempos — conceito que, apesar de ser disseminado com frequência nas redes sociais, gera muita dúvida. O que, por si só e ironicamente, pode ser um sintoma dessa forma de agir fluida e “descompromissada” da modernidade que recusa definições estáveis, para a qual a transitoriedade se tornou quase regra.

No prefácio ao livro Modernidade líquida, Bauman utiliza uma epígrafe do poeta e filósofo francês Paul Valéry (1871-1945) que pode ajudar, de saída, na compreensão de sua principal formulação sociológica: “Pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?”. Não é preciso se assustar com o tom meio obscuro da pergunta, nem imaginar que vem muita lengalenga pela frente, pois a resposta está facilmente ao redor de quem se dispõe a analisar o mundo em que vive.

Ao que interessa, para iniciar seu raciocínio, o pensador da Polônia se apoia em uma definição da Enciclopédia britânica que distingue os líquidos e gases dos sólidos. Os dois primeiros estados “não podem suportar uma força tangencial ou deformante quando imóveis”, ainda segundo trecho da obra de Bauman, e assim “sofrem uma constante mudança de forma quando submetidos a tal tensão”.

Zygmunt Bauman, o sociólogo polonês que pensou a liquidez dos tempos modernos.

Perdidos no tempo-espaço

Em linguagem simples, resume Bauman, isso significa que “os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade”. “Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo”, continua, valendo-se de uma metáfora que tem como objetivo demonstrar o estágio em que se encontra a era moderna — momento no qual a sociedade parece associar a “‘leveza’ ou a ‘ausência de peso’ à mobilidade e à inconstância”. Até onde, porém, essa concepção pode ser positiva?

Quando toda ideia “sólida”, firmada em conjunto, não tem mais o devido valor para a comunidade, o que resta? A urgência da ação, como se estivéssemos lutando contra o tempo mas sem Norte, em um fruir indiscriminado (e individualista) que não permite nenhum tipo de enraizamento.

Essa ausência de laços sociais, justamente, é que permite aos poderes globais, que ditam as regras, seguirem intactos, invencíveis. Quando não há nenhuma forte barreira pela frente, afinal, e tudo que poderia ser sólido se dissipa com facilidade, essa massa líquida de pessoas — que vagam meio sem referências, perdidas, em busca de conquistas individuais — pode ser direcionada com maior facilidade.

Conheça Zygmunt Bauman

  • Nasceu em Poznań, na Polônia, em 1925
  • Vivenciou o antissemitismo na Polônia, fugiu do nazismo e viveu como refugiado em duas ocasiões (1939-1940 e 1968)
  • Tornou-se conhecido entre sociólogos na década de 1960
  • Ganhou atenção ampla da comunidade acadêmica com o lançamento de Modernidade e Holocausto (1989)
  • Chamavam-no “Simmel moderno”, em alusão ao sociólogo alemão Georg Simmel
  • Foi professor da Universidade de Leeds por mais de 30 anos
  • Aos 75 anos, depois de se aposentar das salas de aula, voltou-se para o público mais jovem
  • Modernidade líquida, de 2000, tornou-o mundialmente conhecido
  • Ganhou, entre muitos outros prêmios, o Príncipe das Astúrias de Comunicação (2010)
  • Morreu em Leeds, na Inglaterra, em 2017

Exemplo prático

Não se engane ao pensar que Bauman considerava tarefa fácil contornar a liquidez dos tempos. Em conferência ministrada no evento Fronteiras do Pensamento de 2011, o sociólogo deixa claro: “Laços humanos são um misto de bênção e maldição”. Qualquer pessoa que tenha amigos ou relacionamentos amorosos sabe bem disso.

Agora, para ilustrar como a modernidade parece tentar contornar a parte da “maldição” e desfrutar somente da “bênção”, Bauman dá um exemplo prático — que, apesar de oferecido há uma década, segue bastante atual para um mundo hiperconectado. “Um viciado no Facebook me segredou — não segredou, mas gabou-se para mim — de que tinha feito 500 amigos em um dia”, conta o pensador.

“Minha resposta foi que tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz ‘amigo’, e eu digo ‘amigo’, não queremos dizem a mesma coisa”, continua. “Quando era jovem, nunca tive o conceito de ‘redes’. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes.”

“Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: conectar e desconectar”, prossegue com o raciocínio. “Acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí: é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar.”

Sentimentos descartáveis

No livro Amor líquido, que faz parte de uma série na qual Bauman se dedica a esmiuçar o conceito de fluidez em diferentes aspectos da sociedade moderna, é possível encontrar definições ainda mais claras para as frouxas relações sociais da contemporaneidade.

“O principal herói deste livro é o relacionamento humano”, registra no prefácio da obra. “Seus personagens são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por ‘relacionar-se’.”

É curioso saber que, para iniciar seu raciocínio, Bauman utiliza a figura de Ulrich, protagonista do romance O homem sem qualidades (1930), do austríaco Robert Musil (1880-1942). Sem qualidades adquiridas ou herdadas, explica o sociólogo, o personagem precisa usar sua própria bússola interior para seguir em frente, sem garantia de que suas escolhas fossem perdurar indefinidamente “num mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”.

É nessa ambivalência que o pensamento de Bauman parece se focar: estou livre das amarras (consideradas obsoletas), sim, mas e agora? Nasce uma estranha necessidade de “apertar os laços [sociais] e ao mesmo tempo mantê-los frouxos”. O compromisso com a permanência assusta, afinal, e assim, no “líquido cenário da vida moderna”, o ser humano resta como uma ilha solitária em alto-mar.

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Modernidade líquida
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Trad.: Plínio Dentzien
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280 págs.

Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos
Zygmunt Bauman
Trad.: Carlos Alberto Medeiros
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192 págs.

Bauman: uma biografia
Izabela Wagner
Trad.: Carlos Alberto Medeiros
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648 págs.