Autores indicam obras marcantes no Dia Mundial do Livro

Todo leitor tem sua biblioteca afetiva. Livros que, por motivos variados, foram marcantes. Os escritores, em geral grandes leitores, também têm suas histórias preferidas. Neste Dia Mundial do Livro, convidamos cinco autores da literatura brasileira contemporânea para falar sobre obras que os influenciaram e, de alguma forma, reverberam em suas próprias criações.

Do Nobel de Literatura José Saramago ao Bruxo Machado de Assis, os autores e livros citados mostram como a literatura pode fisgar um leitor das mais diversas formas, seja pela história ou pelo “jeitão” como a narrativa se desenvolve.

Como o clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas, indicado pelo mineiro Luiz Ruffato, contado por um “autor-defunto”. Ou a poesia “seca” de João Cabral de Melo Neto em Auto do frade, “o maior de todos os poemas dramáticos em língua portuguesa”, na opinião do romancista cearense Ronaldo Correia de Brito. Confira as boas e plurais indicações.

O tempo e o vento
Erico Verissimo

Os livros que compõem a saga de Erico Verissimo foram uma herança do meu pai. Ele passou a juventude lendo estes livros e cresci ouvindo-o falar daqueles personagens que contavam a história de uma família no sul do Brasil, atravessando momentos da história do país e da própria região. Ler esta obra tão cedo foi importante para que eu notasse a ausência de obras que contassem histórias semelhantes, mas com o nosso ponto de vista. De toda a coleção me restam quatro livros que estão aqui na minha estante como recordação do ponto de partida de todas as reflexões sobre o tempo e de como ele hoje é meu personagem preferido.

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista, autora dos romances Água de barrela (vencedor do Prêmio Oliveira Silveira),  O crime do cais do Valongo (semifinalista do Prêmio Oceanos em 2019) e Nada digo de ti, que em ti não veja.

O tempo e o vento
Erico Verissimo
7 volumes
Companhia das Letras

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Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis

Recomendo sempre a leitura de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, um dos maiores autores da literatura universal de todos os tempos. Além de ser um livro divertido e que todo o tempo flerta com a inteligência do leitor, é um tratado perfeito do que somos, nós, os brasileiros, e do que é o Brasil, com todas as suas mazelas, todas as suas incongruências, todas as suas impossibilidades. E isto escrito no século XIX!

Luiz Ruffato, autor de O verão tardio, tem livros publicados em 13 países. Em 2018, ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse.

Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Penguin | Companhia
368 págs.

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Árvore de Diana
Alejandra Pizarnik

O motivo: sou alguém que vivencia o Silêncio sem medo

e quando li o primeiro verso deste livro, Percebi que a Alejandra era o próprio Silêncio criativo, as páginas preenchidas com palavras que correm em um ciclo de uso, se repetem

em sons

mas não em sentidos íntimos.

é como se a Alejandra fizesse render um mundo

com algumas pedras

cintilantes

nas mãos.

seu gosto pelo pequeno e pelo trágico iluminou em mim uma caverna nunca antes habitada, Exploro

com o livro-lanterna

nos olhos, é o que a Alejandra faz

em seus poemas, ela muda

a estação do rádio,

agora vocês vão dançar conforme o meu Silêncio.

Foto: Lorena Dini

Aline Bei é autora dos romances O peso do pássaro morto (ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura) e Pequena coreografia do adeus, que acaba de ser publicado.

Árvore de Diana
Alejandra Pizarnik
Trad.: Davis Diniz
Relicário
104 págs.

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Auto do frade
João Cabral de Melo Neto

São tantos os prosadores com seus livros marcantes, lidos e relidos, que prefiro referir um poeta, entre muitos, o que me acompanha sempre: João Cabral de Melo Neto. Na poesia de Cabral não há passo incerto, subida ou descida, o verso se mantém perfeito, sem desequilíbrio, exato, garantindo a qualidade de todos os seus poemas. Dos bons livros, o que mais gosto e me marcou? Não penso duas vezes e respondo Auto do frade, a meu ver o maior de todos os poemas dramáticos em língua portuguesa. A caminhada do Frei Caneca até o local de sua execução, no Forte das Cinco Pontas, no Recife, enseja uma revisita às lutas desse mártir das revoluções de 1817 e Confederação do Equador. Um poema sobre o sentido de viver, lutar e transformar. E sobre o desejo do Norte traçar o próprio destino.

Ronaldo Correia de Brito, médico e escritor, é autor dos livros de contos Faca e O amor das sombras, além dos romances Galileia (vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura) e Dora sem véu. Acaba de lançar a coletânea de crônicas A arte de torrar café.

Auto do frade
João Cabral de Melo Neto
Alfaguara
200 págs.

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Ensaio sobre a cegueira
José Saramago

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, é o nosso mito da caverna de Platão dos tempos modernos. O assunto parece cada vez mais contemporâneo e atual, principalmente agora em tempos pandêmicos. O estilo inconfundível e fluido da escrita do autor também dá um fôlego indescritível à narrativa. É um livro que para mim é filosofia, poesia e suspense. Você só larga quando termina.

Verena Smit é autora dos livros de poesia Eu você e Lovely.

Ensaio sobre a cegueira
José Saramago
Companhia das Letras
312 págs.