Autores de diferentes gerações criam histórias sobre dilemas da juventude

A adolescência é certamente um dos períodos mais conturbados da vida. As dúvidas mexem tanto com a cabeça quanto os hormônios com o resto do corpo. Representar ficcionalmente e materializar em palavras esse espiral de sensações foi o desafio que a jornalista e escritora Joselia Aguiar propôs a sete autores brasileiros e um angolano.

O amanhã cheio de histórias reúne contos inéditos de autores de diversas regiões do país: Ignácio de Loyola Brandão, do interior paulista; a santista Maria Valéria Rezende, que vive na Paraíba; a cearense Socorro Acioli; Itamar Vieira Junior, da Bahia; Eliana Alves Cruz, do Rio de Janeiro; a paraense Paloma Franca Amorim; e a mineira Isabela Noronha. Completa o time o angolano Ondjaki, conhecido do leitor brasileiro, com várias obras publicadas aqui.

Um time certamente diversificado, não apenas geograficamente, mas também em “estilo” de escrita. Ainda que adolescência seja um período mais ou menos parecido para todo mundo, certamente há particularidades, e é aí que a escalação de Joselia aparece. Sem contar, claro, que são todos autores experientes, de literatura e de vida — todos já passaram pela fase que retratam no livro.

“Existem dois pontos-chave para a estruturação da antologia”, explica a curadora. “O primeiro é que todos os contos têm protagonistas jovens em um processo de aprendizagem diante de uma situação desafiadora. E o segundo é a vontade de reunir contos que transmitam esperança aos jovens. Eu queria construir um livro que pudesse auxiliar a Joselia que fui aos 14 anos de idade”, completa.

Eliana Alves Cruz, uma das participantes da obra.

Os contos da juventude

Maior fenômeno dos últimos anos da literatura brasileira, Itamar Vieira Junior abre a coletânea com “Novata”. Assim como em seu romance mais celebrado, Torto arado, o conto traz o universo feminino inserido em uma cidade pequena, do interior. Na trama, uma menina sente o drama de ter que deixar a cidade e sua avó para ir para uma cidade maior, onde pode estudar e crescer profissionalmente. 

“A pergunta que minha avó queria me fazer era: ‘Sua mãe vai te levar pra estudar na cidade grande?’ Ela sabia que era meu último ano na escola da região. Não tinha mais onde estudar em Outeiro, nem mesmo na cidade grande mais próxima”, narra a personagem, com medo de enfrentar o “drama” vivido pela avó.

Um dos autores brasileiros mais celebrados por seu trabalho com o público jovem, Ignácio de Loyola Brandão também contrói uma história em que a avó participa da “transformação” de um jovem em “adulto”.

“Acorda, hoje é seu dia. É só uma vez na vida que se faz 16 anos.Teu avô vai te levar pra buscar madeira. Sabe o que significa? Você já é homem. Pronto para trabalhar”, diz trecho de “A última árvore”. O conto se desenrola em uma narrativa sobre a natureza e os valores do “mato”, bem diferentes da cidade grande. Algo que o personagem carrega para a vida toda.

Outro destaque é a narrativa do angolano Ondjaki. Ele conta como aulas de teatro transformaram um menino, como o fizeram olhar para dentro de si próprio e para coisas aparentemente banais, mas belas, nas ruas de Luanda, onde se passa “Aulas de teatro”.

As outras histórias apresentam novos dilemas na vida de jovens personagens, como gravidez precoce (“As verdades de Vivi Starobinas”, de Isabela Noronha) e pandemia da Covid-19 (“Meu irmão Pelédson”, de Maria Valéria Rezende) — todos permeados por um sentimento de inadequação. O livro também mostra personagens de diferentes origens sociais, o que talvez seja seu traço mais importante, em uma mensagem de que, apesar de tudo, somos mais iguais que diferentes.

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O amanhã cheio de histórias
Org.: Joselia Aguiar
Eliana Alves Cruz, Ignácio de Loyola Brandão, Isabela Noronha, Itamar Vieira Junior, Maria Valéria Rezende, Ondjaki, Paloma Franca Amorim e Socorro Acioli
FTD Educação
160 págs.