Autor do best-seller “O pequeno príncipe preto”, Rodrigo França fala sobre racismo e literatura

Da falta de histórias e personagens negros na literatura infantojuvenil, nasceu um best-seller. O pequeno príncipe preto, do carioca Rodrigo França, há tempos tem frequentado a lista dos mais vendidos.

O texto deriva de uma peça de teatro escrita e dirigida por França. O espetáculo rodou o Brasil com enorme sucesso, mesmo assim, segundo o escritor, “não conseguiu atingir todas as praças”. Com a publicação em livro, o acesso se democratizou e a obra repetiu o êxito da peça.

Como o próprio título sugere, o best-seller mundial do francês Antoine de Saint-Exupéry é o ponto de partida para o livro de França. Na verdade, trata-se de uma “grande provocação”, diz o autor. Na história, o pequeno Príncipe Preto vive em um planeta minúsculo. Além dele, existe apenas uma árvore Baobá, sua única companheira. Quando chegam as ventanias, o menino viaja por diferentes planetas, espalhando o amor e a empatia.

Mas, em O pequeno príncipe preto, explica França, o personagem “vai para outras relações, outros conceitos, mas o nome é uma grande provocação para justamente a gente refletir sobre por quantos anos as crianças tiveram acesso a uma única característica de personagem, que é uma criança branca.”

Multiartista, Rodrigo França é ator, dramaturgo, cientista social, filósofo, professor, articulador cultural, produtor, artista plástico, além de ativista em direitos humanos fundamentais. Nesta entrevista ele fala sobre o sucesso de seu primeiro livro infantojuvenil, racismo e educação.

Rodrigo França: “O nome O pequeno príncipe preto é uma grande provocação”. Foto: Julio Ricardo da Silva

O livro O pequeno príncipe preto deriva de um texto teatral escrito e dirigido por você. Como lhe surgiu, primeiramente, o texto em si e, depois, a ideia de transformá-lo em livro infantil?
O texto teatral vem de uma necessidade de preencher uma lacuna. Faltam personagens negros na dramaturgia brasileira, principalmente infantil e infantojuvenil. O espetáculo fez um enorme sucesso, mas, mesmo assim, não conseguiu atingir todas as praças. Havia uma grande necessidade desse texto e dessa mensagem chegarem para mais gente. Então uma das formas de democratizar isso é o livro. As pessoas não têm condições de irem ao teatro, muitas vezes a partir de uma questão geográfica, mas a mensagem chega através do livro.

E porque você partiu de O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, para construir sua história?
Na verdade, o nome O pequeno príncipe preto é uma grande provocação. O livro se iguala ao O pequeno príncipe do Antoine de Saint-Exupéry a partir dessa estrutura de que é um menino, príncipe do planeta. Em O pequeno príncipe preto ele vai para outras relações, outros conceitos, mas o nome é uma grande provocação para justamente a gente refletir sobre por quantos anos as crianças tiveram acesso a uma única característica de personagem, que é uma criança branca.

O livro está na lista de mais vendidos do país há muito tempo. Você esperava esse sucesso, já que o espetáculo teatral foi bem-sucedido?
Não é que não esperamos o sucesso, mas a gente luta pelo sucesso, a gente trabalha para o sucesso. Se ele vier é consequência, e é assim que eu funciono, tanto nos meus livros quanto nos meus espetáculos e filmes. Vou batalhar para que dê certo. Se der certo ao ponto de ser um sucesso, é consequência.

O livro traz mais texto do que a média dos livros infantojuvenis. Como pensou a estrutura narrativa?
O livro traz mais texto porque vem do espetáculo teatral, mas de qualquer forma minha escrita é pensada para a família. Sempre acredito que a educação de uma criança é de responsabilidade do adulto. Então que essa pessoa adulta esteja ao lado, lendo, comentando, conversando, conceituando, provocando a reflexão dessa criança. Então, dessa maneira, o tamanho do texto não é relevante.

Na história, o menino negro é um rei, que se orgulha de sua ancestralidade e de seus traços físicos. Sua ideia é resgatar esse orgulho da história do povo negro, que de alguma forma foi “apagada” por conta do período escravocrata?
A criança negra precisa de repertório para poder se retroalimentar em relação a sua autoestima. Ela desde pequena já é bombardeada por uma cultura hegemônica que a faz ser preterida. Um dos espaços mais violentos quando a gente vai falar de opressão, é a escola, com raras exceções, e eu posso falar como professor. Estou na educação há 20 anos. Então há uma necessidade dessa criança negra se reconhecer como potente e há uma necessidade da criança que não é negra reconhecer que a negritude é potente. Aí a gente começa a ensaiar uma educação antirrascista, que deve ser constante e contínua.

Nos últimos anos há uma maior abertura do mercado editorial para autores negros — o que inclui feiras, editoras, prêmios, etc. Como você vê esse cenário?
Sempre acho que é aquém. Para não fazer uma falsa simetria, ainda está aquém daquilo que nós somos como população negra, como população no Brasil, quando a gente pensa em 56%. Nós ainda publicamos menos. Escrevemos cada vez mais, não acho que é uma novidade a escrita através de um autor negro ou de uma autora negra, isso sempre existiu. A oportunidade de publicar esse livro é que sempre foi escassa. Mas sinalizo pelos anos de cota, de ações afirmativas, sinalizo através de uma classe média negra que vem aumentando, e principalmente pelas redes sociais que fazem com que o autor e a autora tenham contato com o seu público, não se limitando quase exclusivamente à mídia. Então a gente tem aí a população negra consumindo um trilhão e novecentos bilhões de reais, e as editoras estão de olho, mas vale frisar que ainda é muito pouco.

Você leu os livros de Laurentino Gomes sobre a escravidão no Brasil? O que achou?
Li o livro do Laurentino Gomes, gosto muito, mas temos que frisar que, do que ele fala de uma maneira brilhante, outras pessoas negras já pesquisaram, já falaram, e, inclusive, por conta dessa estrutura racista, essas publicações, às vezes acadêmicas, nunca chegam para o grande público. E aí é necessário que Laurentino chegue, como uma pessoa branca, para que essas informações cheguem ao grande público. A gente precisa refletir também sobre isso, não é uma crítica ao Laurentino, é uma crítica ao sistema, mas ao mesmo tempo é importante que o branco fale para a população branca, já que a sua palavra vai ter mais valor por conta dessa estrutura que é racista.

Compre o livro na loja Bienal Rio

O pequeno príncipe preto
Rodrigo França
Nova Fronteira
32 págs.