As várias camadas de Loki, o Deus da Trapaça

Há dez anos, desde que foi apresentado ao público no filme Thor (2011), Loki é querido pelos fãs do Universo Cinematográfico Marvel (UCM). Na minissérie que leva seu nome, cujo sexto e último episódio vai ao ar nesta quarta-feira (14), é possível conhecer mais a fundo a personalidade — e complexidade — do Deus da Trapaça.

Ao longo de vários filmes da franquia, Loki já se sentou no trono de Odin, tentou brigar com o Hulk e praticou um ato heroico contra Thanos, o Titã Maluco. Sua motivação maior parece sempre ter sido a vontade de atingir a glória suprema e vários de seus atos foram conflitantes — transitando entre o papel de vilão e herói, sem nunca perder a piada e dificilmente deixando de lado a pose altiva, mesmo na iminência da morte.

Nos episódios da série Loki, que se passa após acontecimentos envolvendo o Tesseract em Avengers: Ultimato (2019), o personagem interpretado por Tom Hiddleston enfrenta uma espécie de desconstrução psicológica ao confrontar seus demônios — como a inveja, a insaciável sede de poder e certezas absolutas, entre outras qualidades que costumavam acompanhar o carismático trapaceiro.

Loki é interpretado por Tom Hiddleston.

Loucura do multiverso (contém spoilers)

Em muitos momentos, a exemplo do tom mais sombrio surgido em WandaVision, a série Loki flerta com o existencialismo e propõe boas reflexões. Tratando-se de um produto Marvel, no entanto, é claro que não deixa de ter um pano de fundo mirabolante — e que exige conhecimento prévio do espectador para que faça algum sentido. O que entra em cena, uma vez mais, é a loucura do multiverso.

Em Loki, o protagonista é preso e julgado pela Autoridade de Variância de Tempo (AVT). Quando se apossou do Tesseract em Avengers: Ultimato, afinal, criou uma nova realidade que conflita com a Linha do Tempo Sagrada, cultivada pelos Guardiões do Tempo, e passou a ser uma ameaça conhecida como Variante — que deve ser extinguida, a fim de que o caos não se instaure. Se parece que já há muita informação, fica pior. 

Ao longo dos episódios, vê-se que o bom-mocismo da AVT não é bem o que parece. Para além das várias ramificações que se criam na história, por meio das quais surgem diversas variantes de Loki (com destaque para uma mulher, chamada Sylvie e interpretada por Sophia Di Martino), o foco central da série parece recair sobre a relação do “Loki principal” com suas próprias ações — do passado e do futuro.

Ironicamente, o homem que faz com que o Deus da Trapaça bata de frente com seus próprios demônios é um funcionário da AVT, o Mobius (Owen Wilson), responsável inicialmente por caçar e dar fim às variantes de Loki. Como naquela conhecida fórmula cinematográfica, os antagonistas vão acabar unindo forças após uma descoberta que abala as certezas de ambos.

Sylvie é interpretada por Sophia Di Martino.

Um Deus no divã

Logo no início da série, ao ficar responsável por interrogar e dar fim à confusão temporal criada por Loki, Mobius tenta penetrar a barreira sarcástica do Deus da Trapaça, que tem sempre a resposta perfeita na ponta da língua e consegue achar uma brecha para escapar de seus adversários. Desta vez, porém, Loki para ter si mesmo como seu maior inimigo.

Em uma espécie de sala de interrogação, Mobius faz com que Loki reveja alguns momentos-chave de sua existência, como quando ele foi morto por Thanos em Vingadores: Guerra infinita (2018), para que o protagonista entenda que está fadado ao fracasso — afinal, seu destino já foi traçado pelos Guardiões do Tempo.

O orgulhoso Deus da Trapaça reluta de início, e até solta uma risada meio aterrorizante ao ver a si mesmo sendo enforcado pelo Titã Louco, mas no decorrer da trama parece começar a rever certos aspectos de sua personalidade e de sua existência como um todo, principalmente depois de se aproximar de Sylvie, sua versão feminina.

Para além do fato de meio que se apaixonar por si mesmo, já que a versão feminina de Loki é o Loki de outra linha temporal, o personagem parece tentar rever algumas questões existenciais, como o porquê tem o costume de trair todos que um dia confiaram nele, e começa a compreender melhor o sentido da palavra “amigo” por meio de sua relação com Mobius.

Diversas variantes de Loki. A do meio, criança, afirma ter matado Thor em sua realidade.

Informações e curiosidades

  • A Autoridade de Variância de Tempo (AVT) é regida pelos três Guardiões do Tempo, responsáveis por manter a Linha do Tempo Sagrada
  • Quando alguém escapa à Linha do Tempo Sagrada é criado um Evento Nexus, que desestabiliza a realidade e tem potencial catastrófico
  • Quem desestabiliza a Linha do Tempo ganha o nome de Variante e deve ser eliminado pelo pessoal da AVT
  • Uma das variantes de Loki é uma criança que alega ter matado Thor
  • Outra variante, chamada de Orgulhosa, diz ter acabado com o Capitão América e Homem de Ferro, o que provavelmente é mentira
  • Ainda outra variante é um jacaré
  • A variante que mais abala o “Loki real” é Sylvie, sua versão feminina, pela qual o Deus da Trapaça parece criar sentimentos sinceros
  • Em uma espécie de limbo temporal, o Vazio, Thor é um sapo preso em um jarro; ao seu lado repousa o lendário martelo Mjölnir
  • Chris Hemsworth, que interpreta o Deus do Trovão no UCM, gravou os gritos do Thor Sapo especialmente para a série
  • O Vazio é para onde vão as variantes exterminadas (“podadas”, no jargão da série) pela AVT