As revelações de Will Smith

Astros do cinema, não raramente, costumam ter vidas atribuladas fora de cena. Com Will Smith, um dos nomes mais rentáveis de Hollywood (toda atuação se converte em cifras extraordinárias), não é diferente.

Apesar de ter uma carreira bem-sucedida no entretenimento, sua vida é permeada de lances dramáticos, momentos depressivos e relacionamentos difíceis, perdas e ausências.

É por conta dessa espécie de dicotomia existencial que ele mesmo titubeou em começar sua autobiografia, chamada apenas Will, contando a difícil infância na Filadélfia ao lado do pai, um sujeito inteligente, mas descontrolado quando ficava nervoso ou bêbado.  

Certamente um contraste para os fãs do ator, visto como exemplo de um profissional de sucesso — neste ano, ele está cotado para levar o Oscar por seu papel em King Richards — Criando campeãs, que conta a história de Richard Williams, pai das tenistas Venus e Serena Williams.

“Evidentemente, existe o ‘Will Smith’ do tapete vermelho, dos carros maneiros, do corte de cabelo massa, dos recordes de bilheteria, do casamento com uma gostosona, das flexões de Eu sou a lenda e da coreografia de Gettin Jiggy Wit It…E também existe eu. E este livro é sobre mim”, escreve o astro, que teve a colaboração de Mark Manson, autor do best-seller mundial A sutil arte de ligar o f*da-se.

E esse “eu” passou por diversas provações e ainda hoje carrega a culpa por não defender a mãe quando seu pai a esmurrava. Até que ela se cansou e foi embora. A infância e a relação com os pais toma boa parte do livro, mostrando que esse talvez tenha sido o período mais marcante da vida de Will Smith.

Will Smith em cena do filme MIB.

Estrelato

Nascido Willard Carroll Smith II (era II, não a “porra” de Junior, como costumava frisar seu pai) na Filadélfia em 1968, Will começou a carreira como rapper, nos anos 1980, atuando com o nome de Fresh Prince.

Nesse momento, ele já soube que a carreira profissional no entretenimento tem suas próprias regras. Will era cobrado pela cena rapper por ser “diferente”, não vir de um gueto e não ter uma vida pregressa no crime ou na contravenção. Era muito classe média para um rapper americano.

“Naquela época, o hip-hop não era o que é agora. Havia alguns hits, mas de modo geral ainda era uma cena bem underground. O gênero não produzia álbuns ou singles, não tocava nas rádios, não havia videoclipes — você precisava conhecer alguém que conhecia alguém que pudesse arrumar uma fita cassete de uma das apresentações ao vivo no epicentro do hip-hop: a cidade de Nova York.”

Mas a carreira de Will estava dando certo, e isso o assustou de certo modo. “Tudo parecia surreal, um pouco confuso. Eu tinha voado sozinho, o que era incomum e desconfortável, e agora, com o trânsito engarrafado na rodovia 405, eu tinha um momento para refletir: Por que diabos estou indo para a casa de Quincy Jones?

WIll Smith em cena do filme Ali.

Cinema

O ponto de virada para Will foi quando ele estrelou o seriado The Fresh Prince of Bel-Air, que teve seis temporadas, até 1996. É quando há outro “pulo do gato” em sua carreira e ele passa a atuar em filmes. Um dos primeiros projetos foi Independence day, um arrasa-quarteirão que arrecadou milhares de dólares e contribuiu para que Will se tornasse um rosto conhecido para além da TV americana.

Os dez anos seguintes da carreira de Will foram um caos absoluto e completo na indústria do entretenimento. Ele esteve envolvido em uma série de filmes que lucraram exorbitantemente; Os Bad Boys; Independence Day; MIB — Homens de preto; Inimigo do Estado; As loucas aventuras de James West; Ali; MIB — Homens de preto II; Eu, robô; O espanta-tubarões; Hitch — Conselheiro amoroso; À procura da felicidade; Eu sou a lenda; e Hancock. Resultado: mais de 8.000.000.000 de dólares em bilheterias mundiais.

Uma das coisas mais interessantes do livro é que Will dá detalhes sobre sua rotina de tantos compromisso para divulgar esses filmes para além do território americano. O que o fazia lucrar mais e divulgava sua própria carreira.

“Então eu gravava Um maluco no pedaço durante a semana, saía do set, ia direto para o aeroporto, voava para a Europa durante a noite, pousava no sábado de manhã, dava entrevistas o dia inteiro, fazia uma première, assinava autógrafos a noite inteira, ia direto para o aeroporto, entrava no avião, decorava as minhas falas para o próximo episódio de Um maluco no pedaço durante o voo e pousava em Los Angeles bem a tempo de ir dormir no domingo à noite.”

Uma vitória atrás da outra? Sim e não. Porque por trás do sucesso haviam sentimentos conflitantes: a esposa e os filhos se sentiam atrações no espetáculo de Will, “um trabalho em tempo integral para o qual não tinham se candidatado”.

Will, em vários momentos, adquire um tom confessional que beira a autoajuda. Mas é esse também o grande mérito do autor, admitir, com o peito aberto, que por mais sucesso que tenha, é um ser vulnerável como qualquer outro. E seu recado é de que nossa jornada de aprendizado talvez nunca chegue ao fim.

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Will
Will Smith e Mark Manson
Trad.: Jim Anotsu
BestSeller
448 págs.