As perigosas e resistentes sapatas de Alison Bechdel

A tira “Perigosas sapatas”, da norte-americana Alison Bechdel, circulou durante 25 anos — de 1983 a 2008 —, em diversos veículos dos Estados Unidos. Em 2021, para trazer uma amostra desse trabalho ao público brasileiro, a Todavia lançou O essencial de Perigosas sapatas, reunindo as histórias mais significativas desses quadrinhos que, na definição da própria autora, causaram “uma perturbação no continuum espaço-tempo”.

A ideia para começar a produzir “Perigosas sapatas”, que captura o cotidiano de lésbicas nos Estados Unidos com muito humor e densas reflexões, surgiu durante o expediente em um trabalho temporário de Alison. A autora, que já flertava com a ideia de ser cartunista desde os 12 anos, foi tomada por uma revelação: “E se eu parasse de desenhar caras e começasse a desenhar sapatas?”.

Alison saiu do estado da Pensilvânia para desembarcar em Nova York, em 1981, “armada com nada além da incumbência nebulosa de dizer o indizível”. Ao chegar na Grande Maçã, sentindo-se deslocada, achou que tinha perdido alguns momentos-chave: a cena underground dos anos 1950, o fermento revolucionário da década seguinte, a contracultura gay e lésbica radical de 1970. Mas, para o próprio alívio, ela estava errada.

Alison Bechdel, autora de O essencial de Perigosas sapatas. Foto: Jeanette Spicer

Conheça Alison Bechdel

  • Nasceu em Lock Haven, na Pensilvânia, em 1960
  • Mudou-se para Nova York, em 1981, após não conseguir entrar em nenhuma pós-graduação de Artes Visuais
  • A grande “sacada” para começar a produzir tiras surgiu em uma tarde, durante o expediente num trabalho temporário
  • A tira “Perigosas sapatas” foi publicada por 25 anos, em diversos veículos, de 1983 a 2008
  • Nos esforços de publicar sua literatura, recebeu uma carta de recusa da poeta Adrienne Rich
  • Depois de Alison revelar à família que é lésbica, seu pai foi encontrado morto (em um aparente suicídio)
  • Na HQ Fun home: uma tragédia familiar, a autora explora a relação com o pai e revisita sua própria infância
  • Fun home estreou como musical da Broadway em 2013
  • A adaptação para o teatro, feita por Lisa Kron e Jeanine Tesori, ganhou mais de dez importantes prêmios e foi finalista do Pulitzer
  • Na introdução ao Essencial de Perigosas sapatas, Alison convida o leitor a pensar o impacto que seu trabalho teve na sociedade

A insurreição

Em Nova York, Alison Bechdel percebeu que ainda havia todo um universo paralelo a ser explorado durante a noite, a princípio, em boates nas quais as pessoas se reuniam para celebrar uma vida livre dos julgamentos preconceituosos. Em locais que ela podia chegar e afirmar: “Porra! Sapatas!”.

Nesse cenário, conforme introdução desenhada do livro O essencial de Perigosas sapatas, a autora diz que tinha o desejo de “fazer sexo com absolutamente todas essas criaturas irresistíveis”. A vontade principal, no entanto, girava em torno de, alguma maneira, capturá-las, “poder apontar sua essência”. E foi o que fez.

Ao perceber que as escritoras que lia à época tinham conseguido essa façanha, Alison também tentou ir pelo caminho da literatura — e acabou recebendo uma carta de recusa de Adrienne Rich, que não considerou seu trabalho “suficientemente denso para publicá-lo”.

Mesmo assim, a célebre poeta e ativista norte-americana incentivou Alison a continuar trabalhando. Uma vez mais, foi o que fez. E deu muito certo: afinal, você consegue apontar assim, de cabeça, uma produção que circulou com consistência por 25 anos?

Perigosas sapatas

Ao longo de mais de duas décadas, a tira “Perigosas sapatas” apresentou pelo menos 22 personagens diferentes, com o objetivo de mostrar diversas personalidades do mundo no qual a autora estava inserida. De dar um rosto, corpo e ações às sapatas. As que aparecem com mais frequência são:

  • Toni
  • Harriet
  • Clarice
  • Lois
  • Ginger
  • Sparrow

A tira traz situações como uma crise existencial desencadeada por um corte de cabelo ruim, no que Mo liga para Lois e diz que não entende como as pessoas podem ficar transando enquanto há miséria e desolação no mundo. Após a conclusão de que a vida é cheia de altos e baixos, um quadrinho com a voz da narradora questiona: será que Mo tem karma ruim ou é uma chata?

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O essencial de Perigosas sapatas
Alison Bechdel
Trad.: Carol Bensimon
Todavia
416 págs.