As guerras de Amal El-Mohtar e Max Gladstone

A canadense Amal El-Mohtar e o norte-americano Max Gladstone se conectaram por meio das palavras. Cientes da escrita um do outro há tempos, conheceram-se pessoalmente em convenções de leitores em Boston e Londres.

Depois disso, trocaram cartas por cerca de um ano, criando a sintonia para que, futuramente, viessem a escrever o romance de ficção científica É assim que se perde a guerra do tempo — vencedor do Hugo, prêmio que já foi concedido a nomes como Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin.

Na trama futurística, Blue e Red são guerreiras de lados opostos em uma Guerra do Tempo. Elas se conectam quando a segunda, em meio ao cricrilar de grilos e naves espatifadas, encontra uma carta escrita à mão: “Queime antes de ler”.

Contra todas as expectativas, as personagens passam a se corresponder por meio de cartas, o que dá estrutura à narrativa, e descobrem que “têm mais em comum entre si do que com os mundos de onde vieram”, de acordo com a entrevista dos autores à Bienal 360º, na qual comentam o processo criativo do livro, refletem sobre a trama e discutem o papel da ficção científica.

Max Gladstone e Amal El-Mohtar: “Quando o mundo se assemelha à ficção científica, precisamos dela mais do que nunca”. Foto: Navah Wolfe

Alguns leitores classificam É assim que se perde a guerra do tempo como uma espécie de “Romeu e Julieta sci-fi”. Para o leitor desavisado, como definiriam o livro?
Blue e Red são duas agentes de lados opostos em uma Guerra do Tempo — um conflito entre viajantes do tempo que tentam reescrever a História para garantir sua própria vitória. Elas são perigosas, estão em plena forma e sozinhas, lá fora, no campo. Até que elas começam a trocar cartas e descobrem que têm mais em comum entre si do que com os mundos de onde vieram.

O livro foi lançando num momento em que a ficção científica voltou a ser comentada de forma mais ampla devido à pandemia. De que maneira o gênero pode “explicar” este momento tão delicado pelo qual o mundo passa?
Certamente a ficção científica previu este momento — Wanderers, livro do Chuck Wendig lançado em 2019, trata de uma pandemia que resulta da transferência de um vírus zoonótico de morcegos para humanos, enquanto A song for a new day, da Sarah Pinsker, vislumbra um mundo em que os encontros públicos são banidos por causa de pandemias. No caso do É assim que se perde a guerra do tempo, tem sido um conforto saber que, mesmo separadas de seus entes queridos devido à pandemia, as pessoas têm compartilhado a leitura do livro à distância e se sentido conectadas por ele.

Por que decidiram abordar a questão da homossexualidade no romance? Esse é um tema tabu também nas histórias de ficção científica?
Desde que existe a ficção científica existe a ficção científica queer, mas particularmente nos últimos dez anos floresceu todo tipo de ficção queer, tanto científica quanto de fantasia. Queríamos que nossas personagens fossem iguais e também opostas — que tivessem uma paridade feroz e reflexiva. Também queríamos escrever sobre mulheres.

Philip K. Dick é autor de livros como Androides sonham com ovelhas elétricas? e O Homem do Castelo Alto.

Como se conheceram e decidiram escrever uma história juntos? E como foi o processo de escrita do livro?
Fazia tempo que estávamos cientes da escrita um do outro, mas nos conhecemos pessoalmente pela primeira vez no Readercon, uma convenção local de Boston, em 2014, e nos vimos novamente no Worldcon desse mesmo ano em Londres. Depois disso, trocamos cartas manuscritas entre Glasgow, Boston e Ottawa durante mais ou menos um ano. Decidimos que nos gostávamos suficientemente para trabalhar juntos em um projeto e começamos a desenhar os parâmetros para nos acomodarmos um ao outro: sabíamos que teria que ser maior que um conto, porém mais curto do que um romance, e que duas vozes teriam que conversar entre si, para valorizar nossos estilos diferentes. Escrever cartas manuscritas um ao outro e nos conhecermos melhor na privacidade destas cartas era uma grande parte do que queríamos para nossa colaboração, então decidimos criar duas personagens que escreviam cartas uma à outra. Comentamos muitas vezes sobre a estranha sensação de viagem no tempo ao escrever cartas, porque é preciso sentar e inventar a pessoa para quem escreve — que existe no futuro e que não receberá suas palavras durante dias. Por sua vez, a pessoa que recebe a carta está lendo um artefato recuperado do passado. Sobre o processo de escrever em si, trabalhamos juntos por cerca de duas semanas em um retiro de escrita: a cada manhã, nos sentávamos um diante do outro em um coreto sem internet. Um de nós escrevia uma carta, enquanto o outro escrevia a situação na qual a carta era recebida; falávamos sobre essa situação, mas nunca sobre a carta em si, então sempre era uma surpresa para ambos — tanto para a pessoa que escrevia a carta quanto para a pessoa que a recebia. Após algumas trocas, ficamos tão sincronizados que estávamos acabando nossas partes ao mesmo tempo, independentemente do tamanho respectivo de cada escrita. Depois trocávamos nossos notebooks, líamos o que o outro tinha escrito e nos deleitávamos com isso, trocávamos de volta e continuávamos. Era como uma coreografia, como uma dança, e era maravilhoso.

Como decidiram os traços que definem as personagens? Cada um escreveu a parte de uma das personagens? Max seria a Red e a Amal a Blue, ou vice-versa?
Não podemos dizer que um de nós é necessariamente uma ou outra personagem, mas certamente Amal escreveu Blue e Max escreveu Red. Como autores, compartilhamos muitas preocupações (mas nem todas) ligadas à história e à violência, à memória e ao controle, ao desejo, à satisfação, à possibilidade ou à impossibilidade de comunicação. Porém, temos estilos e técnicas diferentes. Queríamos adotar um estilo no qual nossas vozes trabalhassem juntas e em tensão. As personagens surgiram em grande parte dessa interação entre estilo e estrutura.

Red e Blue se apaixonam, mas acabam nunca se encontrando “presencialmente”. Esse fato tem alguma relação com nosso mundo conectado, em que até relações amorosas podem ser virtuais?
Uma das coisas mais consistentemente maravilhosas e surpreendentes que as pessoas nos relatam é que conheceram seus amores através da leitura do livro, ou como consequência dela, ou que se viram dentro do livro. Sobretudo os que se encontram em relacionamentos de amor a longa distância estão nos dizendo que usaram o livro para ficarem conectados, fazendo leituras pelo telefone ou se enviando trechos.

O romance surge num momento de polarização e radicalismo ao redor do mundo. A história de Red e Blue tem algo a ensinar a quem insiste em extremismos?
Não gostamos de pensar em histórias como sendo meramente instrutivas. Porém, acreditamos que esta história tem muito a dizer sobre os limites e o terror que qualquer visão totalizadora do mundo suscita — sobre qualquer pessoa que reivindica que a História é e sempre foi uma coisa só, que vê apenas os inimigos de sua visão, que não permite que os outros existam. Red e Blue estão em lados opostos de uma guerra, mas têm muito em comum, não somente em termos de competência ou perspectivas, mas também em relação aos seus valores e ao que conseguem valorizar uma na outra. Se tiver qualquer coisa para ensinar, é crucial achar espaços nos quais as pessoas possam ser inteiras umas com as outras para fomentar a compreensão e apreciação mútua entre elas, ao invés de reduzi-las à soma das piores opiniões ou alianças.

A Amal também é poeta. Como é sua produção nesse gênero? A literatura de fantasia tem alguma influência sobre seus versos?
Sim, uma vez que alguns dos primeiros versos que li na vida estavam em O Hobbit — todas as canções e enigmas em itálicos que muita gente pula eu memorizava, adorava e percebia como chaves para desvendar mais mistérios, outros feitiços de encantamento. Também sou estudiosa da poesia romântica britânica, que é frequentemente de fantasia — A balada do velho marinheiro e Christabel, do [Samuel Taylor] Coleridge, e Lamia e A bela dama sem piedade, do Keats. Gosto de dizer que a literatura tem sido de fantasia por muito mais tempo do que não o foi — que nossa valorização contemporânea do realismo e do doméstico é relativamente recente, e que a poesia tem sido sempre transformadora e transgressiva, o que considero ser o reino do fantástico.

A ficção científica é vista com certo preconceito por parte da crítica. Por outro lado, tem muitos leitores. O livro de vocês, inclusive, tornou-se best-seller. O que pensam sobre esse assunto?
Antigamente, isso era completamente verdadeiro. Ainda resta um resquício de suspeita crítica em relação à ficção comercial, mas muitas dessas barreiras estão sendo erodidas, ou já se erodiram, porque o “establishment literário”, pelo menos nos mercados anglófonos, tornou-se mais receptivo aos trabalhos estranhos ou de metafiçcão — Colson Whitehead, Emily St. John Mandel ou David Mitchell são alguns exemplos no mundo anglófono. Ao mesmo tempo, existe mesmo um elemento “reacionário” na ficção científica e na ficção de fantasia, em que um grupo de leitores rejeita o trabalho mais sério ou inovador em termos estruturais. As coisas mudam.

Ursula K. Le Guin é autora de livros como Os despossuídos e A mão esquerda de desus, reunidos em box.

Séries de ficção científica, como Dark e Black Mirror, fizeram muito sucesso em canais de streaming. Diferentes mídias, como o livro e o audiovisual, competem umas com as outras? Ou se complementam?
Com certeza se complementam, mas também se afetam e se transformam mutuamente. Atualmente, temos expectativas diferentes dos livros e da televisão das que tínhamos até duas décadas atrás. Existe mais polinização cruzada. Muitas vezes, os agentes usam comparações com filmes ou séries de televisão para vender os livros aos editores e os editores fazem a mesma coisa para vender os livros aos leitores.

Isaac Asimov, Kurt Vonnegut, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin são alguns dos nomes que já ganharam o Prêmio Hugo. Como foi a sensação de entrar para esse time?
Incrível. A ficção científica realmente é como uma espécie de conversa — os autores interagem através dos tropos, formatos de história e ideias de uma forma muito mais clara quando a comparamos com a ficção que não é científica, por exemplo. Sabemos quem inventou o conceito do “ansible”; nem sei se tem sentido perguntar quem inventou o conceito de “história de amor”. Nós, autores, escrevemos uns aos outros através do tempo. Enviamos nossos livros como cartas em garrafas para o futuro. Os prêmios são uma maneira de formalizar essa relação, para fazê-la mais transparente. São como ilhas que surgem das ondas — traços visíveis do fundo do mar.

Hoje há maior facilidade em expor seu próprio trabalho ficcional e angariar público, sem necessariamente precisar de modelos tradicionais de divulgação. Os prêmios literários, mesmo assim, ainda são o melhor caminho para validar um romance?
O termo “melhor” é enganoso. Cada prêmio tem sua comunidade e suas próprias dinâmicas, e os prêmios são como um presente que essa comunidade outorga a um certo número de livros durante um dado ano. Muitas variáveis afetam essas decisões, e o “melhor” é sempre um alvo em movimento — ou uma categoria. É mais correto dizer que os prêmios são a culminância das conversas entre certos grupos, e quanto mais grupos estão conversando sobre seu livro, melhor!

Hoje, em que a vida já se parece uma distopia, qual é o papel da ficção científica?
Quando o mundo se assemelha à ficção científica, precisamos dela mais do que nunca — para compreendê-lo e para compreender nos nossos corações quais são as oportunidades para agir.

A ficção científica deve ser catártica? Há alguma mensagem principal que vocês desejam passar? Ou a literatura não tem essa obrigação?
“Deve” e “obrigação” são palavras perigosas para se usar em relação a algo tão vasto e estranho como a narração de histórias. A palavra “mensagem” também é espinhosa. Esperamos oferecer aos leitores um pouco de coragem, um pouco de esperança, um pouco de espaço. Um gole de água ou um respiro de ar livre. Quando vamos à página, também estamos à procura destas coisas.

Max é criador de um jogo de sucesso. Os jogos ocupam, hoje, o papel que um dia foi da literatura escrita — no sentido de criar grandes universos e entreter? Acham que esses formatos podem conviver em harmonia?
Não tenho certeza de que “a literatura” é o peso certo para se colocar na balança contra “os jogos”. Existem jogos que são épicos, existem jogos que são literatura, existem jogos que são como postagens de blog ou até mesmo como tuítes. Existem também jogos que são poemas, que vão do haiku à sextina e depois ao verso livre, se alastrando sem fim. Tanto os jogos quanto a literatura respondem ao mundo e tiram proveito das habilidades artísticas e tecnológicas do momento para fazê-los. Eles estão em competição somente no sentido de que os seres humanos têm poucas horas do dia em que não estão trabalhando ou cozinhando ou cuidando das crianças, etc. Mas, nesse sentido, eles estão em competição mais feroz com as mídias sociais e o desespero existencial do que entre si mesmos.

Qual é a maior guerra em andamento no mundo moderno?
A que você escolhe.

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É assim que se perde a guerra do tempo
Amal El-Mohtar e Max Gladstone
Trad.: Natalia Borges Polesso
Suma
192 págs.