As escritoras que estão fazendo o novo “boom” latino-americano

Quando se pensa no boom latino-americano da literatura, momento em que a produção dessa parte do mundo adquiriu grande relevância no cenário ficcional nos anos de 1960 e 1970, costumam aparecer nomes como Julio Cortázar, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, entre outros — e de poucas mulheres.

Mais de meio século depois, as escritoras da América Latina parecem estar protagonizando um movimento semelhante — ou, no mínimo, recebendo maior atenção do público brasileiro e das editoras.

A impressão de que há maior interesse nacional — e mundo afora — na literatura escrita por mulheres da América Latina é compartilhada pela tradutora Mariana Sanchez, pela doutoranda em Estudos Literários Letícia Pilger e pelos editores Paulo Lannes e Maíra Nassif, que estão à frente da Pinard e Relicário, respectivamente — todos ouvidos pela Bienal 360º, que, antes de se aprofundar na discussão, pediu para que os entrevistados apontassem alguns nomes importantes da produção ficcional latino-americana: 

  • Alejandra Costamagna (Chile)
  • Alejandra Pizarnik (Argentina)
  • Andrea Jeftanovic (Chile)
  • Diamela Eltit (Chile)
  • Elena Garro (México)
  • Fernanda Melchor (México)
  • Gabriela Cabezón Cámara (Argentina)
  • Gabriela Mistral (Chile)
  • Giovanna Rivero (Bolívia)
  • Karina Sainz Borgo (Venezuela)
  • Lina Meruane (Chile)
  • Magela Baudoin (Bolívia)
  • María Fernanda Ampuero (Equador)
  • María Teresa Andruetto (Argentina)
  • Mariana Enriquez (Argentina)
  • Margo Glantz (México)
  • Nona Fernandez (Chile)
  • Samanta Schweblin (Argentina)
  • Sara Gallardo (Argentina)
  • Selva Almada (Argentina)
  • Silvina Ocampo (Argentina)
  • Sylvia Molloy (Argentina)
Mariana Sanchez: “Reescrever o famigerado boom, agora mais plural e feminino, é preciso”. Foto: Elisandro Dalcin

Novas perspectivas

Para começo de conversa, Mariana Sanchez é categórica: “Reescrever o famigerado boom, agora mais plural e feminino, é preciso”. Nesse processo, ela destaca a importância das editoras independentes e dos clubes de leitura, que estão apostando nos nomes de autoras latino-americanas.

Outros fatores importantes que devem ser mencionados, segundo Letícia Pilger, são as discussões decoloniais, que vão contra os padrões sociopolíticos estabelecidos, e feministas. “A perspectiva decolonial abriu — e tem aberto — mais redes e contatos dentro da nossa região, além de mostrar como a América Latina é uma translocalidade em constante construção com a prática de quebrar a lógica colonial e imperialista”, explica a pesquisadora.

“As discussões e reivindicações feministas são essenciais para pensarmos na presença de mulheres em mais espaços”, continua Pilger. “A partir dessas duas questões, os feminismos decoloniais têm se mostrado cada vez mais importantes ao potencializarem a participação das mulheres latino- americanas no debate e na produção de conhecimento sobre e na região.”

Letícia Pilger: “As discussões e reivindicações feministas são essenciais para pensarmos na presença de mulheres em mais espaços”.

Pioneiras e revolucionárias

Se é correto dizer que a literatura latino-americana contemporânea publicada no Brasil é predominantemente feminina, conforme afirma a editora Maíra Nassif, é interessante tentar entender como a leitura dessa ficção, feita por autoras de dicções muito próprias e diversas, pode enriquecer a visão do leitor brasileiro. 

“Ainda que tenham o mesmo gênero e compartilhem um mesmo território, marcado pela história colonial e pela experiência das ditaduras no século 20, suas produções são muito diferentes entre si”, diz Nassif, reiterando a importância de notar a diferença com que as escritoras chilenas Diamela Eltit e Lina Meruane, por exemplo, abordam a ditadura de Pinochet em seus trabalhos ficcionais.

Ainda se tratando de estética, Paulo Lannes acredita que muitas autoras latino-americanas “quebram paradigmas sobre o que se avalia como padrão de determinados movimentos literários”.

“Muitas são pioneiras e desafiaram normas tanto por abordarem temas tabus como por trabalharem com a linguagem de modo único”, explica um dos criadores da Pinard, que se afirma uma editora orgulhosamente latino-americana. 

Para ilustrar o pioneirismo, Lannes lembra que a chilena Gabriela Mistral foi o primeiro nome da América Latina a receber o Prêmio Nobel de Literatura e que a mexicana Elena Garro, com As lembranças do porvir, deu o pontapé inicial no realismo mágico — “antes mesmo de Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, tido como obra máxima do gênero”.

Maíra Nassif, criadora da editora Relicário. Foto: Gabrieu Algusto

Distanciamento e fascínio

Uma questão pouco discutida em território nacional é o fato de o Brasil, curiosamente, não parecer identificado com os movimentos literários latino-americanos. Para aquecer esse debate, Letícia Pilger acredita que, apesar desse distanciamento estar sendo revisto, a leitura de autoras da América Latina é importante. “Ainda há uma distância do Brasil com os diversos países latino-americanos”, pondera. “A troca cultural, dessa forma, faz com que a América Latina se expanda entre os brasileiros.”

“Além disso, a autoria de mulheres reafirma como as latino-americanas têm sido produtoras de um giro cultural no contexto da região”, prossegue Letícia. “Suas literaturas, de ficção e não ficção, fazem parte de um projeto de escrita-outra que quebra as relações hierárquicas que privilegiam a visão eurocêntrica e patriarcal e denunciam machismos, estruturas excludentes, xenofobias e autoritarismos.”

Em uma linha de pensamento semelhante, Mariana Sanchez percebe que o público nacional se vê tão próximo quanto distante do mundo hispânico, que “costuma exercer o fascínio da estranheza combinada ao pertencimento”, como se nos olhássemos em uma espécie de “espelho torto”. Para estreitar esses laços, toda literatura “inventiva e potente” é importante.

“As autoras latino-americanas vêm se destacando com histórias muito novas e frescas, com universos bem desenhados, personagens complexos e um trabalho estupendo de linguagem”, explica Mariana.

A tradutora nota que, além de uma imensa variedade de escritoras da nova geração estar chegando ao país, há também “aquelas que, num primeiro momento, acabaram ofuscadas ou esquecidas, como Silvina Ocampo, Teresa de la Parra, María Luisa Bombal e Sara Gallardo”. “É um bom sinal”, diz.

Paulo Lannes, um dos criadores da editora Pinard.

Conheça a literatura da América Latina

Para ajudar quem ainda não teve contato com a produção de escritoras latino-americanas, muitas das quais “estão refletindo sobre questões identitárias e (re)trabalhando a matéria da memória em seus textos”, de acordo com Mariana Sanchez, a Bienal 360º pediu para que as pessoas ouvidas pela matéria apontassem livros que são boas portas de entrada para esse rico universo em expansão. Todas as obras estão disponíveis na loja Bienal Rio.

Além desses títulos, são boas pedidas a revista de literatura latino-americana e caribenha Puñado, conforme dica de Letícia Pilger, e acompanhar o catálogo das editoras Relicário, que mantém a coleção Nos.Otras, Moinhos e Mundaréu. Para fechar, a pesquisadora sugere o evento “Escrever a América Latina”, que, por meio de diálogos, pensa a prática tradutória e de pesquisa entre Brasil, demais países e escritoras latino-americanas.