As editoras resistem à pandemia

Que a realidade é mais estranha que a ficção não é novidade. Agora, você acreditaria se te dissessem que, em meio ao caos pandêmico que toma conta do Brasil desde março do ano passado, as editoras estão indo relativamente bem? Ou, pelo menos, conseguindo manter as portas abertas?

As livrarias físicas, no entanto, não lidaram bem com o baque. Desde 2014, pelo menos, o país experimenta as consequências de uma crise político-econômica, e os espaços tradicionais de compras de livros sofreram: em um intervalo de seis anos, de 2012 a 2018, para pegar apenas um recorte, cerca de 980 livrarias baixaram as portas. Os dados são da Universidade Federal de Pernambuco.

Na realidade hostil vivida pelos brasileiros desde o começo de 2020, em que todo tipo de comércio físico ora abre, ora fecha, num vaivém indeterminado, o ambiente virtual se apresentou como a saída possível para os profissionais da editoração, que encontraram a luz no fim do túnel por meio das vendas online — e perceberam maior interação do público.

Uma pesquisa da Neotrust/Compre&Confie, veiculada pela Folha de S. Paulo, mostra que a venda de livros online cresceu 44% em 2020, em comparação com o ano anterior.

Para entender as consequências da pandemia no mercado do livro, e saber como o leitor vem se comportando durante esse período difícil, a Bienal 360º buscou depoimentos do Sul ao Nordeste do país, conversando com os representantes das editoras Dublinense (Gustavo Faraon), Cepe (Diogo Guedes), Ubu (Florencia Ferrari) e Record (Rodrigo Lacerda).

Florencia Ferrari: “Houve um crescimento muito grande de um segmento de leitura que não é aquele típico best-seller de megastore”.

Interesse renovado

Há uma percepção comum entre todos os editores: houve uma busca maior pelo livro desde o estouro da pandemia, e isso se refletiu no desempenho das vendas — mesmo que para Digo Guedes, à frente da Cepe, isso ainda não sinalize uma “mudança estrutural no mercado brasileiro”.

A Ubu, por exemplo, segundo informações de Florencia Ferrari, esperava uma queda de 30 a 50%, no pior dos cenários, mas cresceu 70% ao longo do ano passado. Além disso, o Circuito Ubu — clube de leitura da casa paulistana, que também oferece leituras complementares às obras e produtos audiovisuais — iniciou a pandemia com 400 assinantes, em março de 2020, e chegou aos 1,6 mil no mês de novembro.

“As pessoas que participam do clube podem ser consideradas leitoras frequentes ou interessadas em ler com frequencia. Muitos nem imaginavam que a leitura poderia fazer parte de suas rotinas”, diz Florencia.

Para Rodrigo Lacerda, que recentemente assumiu a carioca Record, esse fôlego renovado do público foi o principal tônico para que o segmento resistisse. “Acho que nenhuma editora teria enfrentado a pandemia da mesma forma sem esse alento de se perceber o interesse das pessoas pela leitura”, diz.

Rodrigo Lacerda: “Acho que nenhuma editora teria enfrentado a pandemia da mesma forma sem esse alento de se perceber o interesse das pessoas pela leitura”.

Virtualização das relações

As redes sociais já desempenham papel fundamental no cotidiano das pessoas há muitos anos. “Que parte da nossa vida não está mais ‘virtual’ hoje do que era dez anos atrás?”, pergunta Lacerda.

No período pandêmico, que se arrasta até hoje, as lives se tornaram frequentes e o contato do editor com o escritor, ou sobretudo do escritor com seu público, deu-se majoritariamente por meio das redes sociais — o importante “boca a boca” é agora digital, segundo o editor-executivo da Record.

“A importância das redes sociais já era enorme, fundamental. Apenas ficou mais óbvia”, afirma Gustavo Faraon. Apesar de acreditar que “muitas das transformações a que fomos forçados em decorrência da pandemia vão continuar”, o criador da gaúcha Dublinense também tem outra perspectiva.

“Acredito que há uma ânsia enorme pela retomada das atividades sociais presenciais relacionadas ao livro”, diz Faraon. “Espero ver eventos, lançamentos, debates, festas, festivais sempre muito cheios quando for seguro voltar a nos encontrarmos.”

Esse misto de sensações também é experimentado por Florencia, da Ubu. Para ela, o tête-à-tête presencial é insubstituível, com a possibilidade de se conhecer novas pessoas após um evento, as trocas de olhares, a presença corporal. O ambiente virtual, no entanto, expandiu os horizontes.

“Descobrimos que é possível fazer cursos e palestras a distância, alcançando lugares que estão fora do centro”, diz. “Acho que voltaremos a ter eventos presenciais, espero, mas também continuaremos tendo programação virtual, que acrescenta outras possibilidades de relação e de troca de conhecimento.”

Gustavo Faraon: “É um mercado com muito espaço para iniciativas inovadoras, que precisa mais do que nunca de novas ideias e novas abordagens, mais arejadas e corajosas”.

A literatura do futuro

“A pandemia é o novo mundo em que vivemos e, portanto, me parece natural que os autores busquem de alguma maneira refletir em suas obras este mundo”, diz Gustavo Faraon, que acredita ser ainda cedo para cravar se vai existir ou não uma espécie de “literatura da pandemia” — como já tivemos a do pós-guerra, por exemplo.

Para Diogo Guedes, qualquer afirmação não passa de chute. Certo, para ele, é que “o poder da melhor literatura é sua capacidade de driblar previsões e caminhos naturais”. Se fosse para comentar algo, porém, Guedes diria que a arte será sim influenciada em muitos casos — “espero que menos como mera repetição ou pano de fundo, e mais como reimaginação”.

Cenário atual

Para além das especulações, há um movimento que já parece estar acontecendo: os livros mais “cabeçudos”, de temas normalmente considerados “fundo de catálogo”, conforme definição de Florencia Ferrari, estão ganhando maior relevância.

“Houve um crescimento muito grande de um segmento de leitura que não é aquele típico best-seller de megastore”, explica Florencia, referindo-se às obras que propõem reflexões mais densas, com inclinações filosóficas, psicanalíticas, antropológicas.

Rodrigo Lacerda vai na mesma linha. “Muitos escritores de literatura fizeram diários da quarentena, o segmento de autoajuda tem livros específicos para o momento, e muitas linhas de publicação têm especificidades neste momento que são interessantes — economia, ciências biológicas, etc.”, diz. “Se tudo isso vai permanecer, aí depende de tanta coisa, então é cedo para falar.”

Diogo Guedes: “O poder da melhor literatura é sua capacidade de driblar previsões e caminhos naturais”.

Bom momento para começar?

“Para quem precisa escrever, nada é impedimento”, comenta Lacerda quando solicitado a dar algum conselho para quem deseja ingressar no mercado editorial, hoje, como autor ou editor.

Ele acredita que ser editor é uma “ótima maneira de ganhar a vida e viver perto dos livros ao mesmo tempo”, reiterando que, no caso de a pessoa optar pelo caminho da ficção, o cenário já é mais complicado.

“Ser escritor é mais difícil, na prática, pois em geral não permite que você viva só disso. Mas para quem precisa escrever, isso não é impedimento. Para quem só gosta, é uma carreira mais ingrata, solitária, que demanda muito tempo.”

Já para Diogo Guedes, tudo depende da paixão — uma do tipo “crítica, desapaixonada, capaz de acreditar na escrita enquanto vê suas arestas e limites”. Esses mesmos limites, talvez, que quando transpostos para o segmento da editoração podem ser superados em nome de um futuro ainda insondável — conforme reflexão de Gustavo Faraon.

“É um mercado com muito espaço para iniciativas inovadoras, que precisa mais do que nunca de novas ideias e novas abordagens, mais arejadas e corajosas. Saúdo a todos. Sejam muito bem-vindos. Que façam tudo completamente diferente do que nós estamos fazendo e que possamos depois aprender com o melhor desse pioneirismo.”