As diversas faces do cancelamento

A virtualização das relações sociais é uma realidade. Graças às ações online, editoras estão conseguindo se virar em meio ao caos gerado pela Covid-19, conforme demonstrado pela Bienal 360º na matéria As editoras resistem à pandemia. Esse mesmo ambiente digital, como mostrado em A literatura navega pelas redes, facilita a veiculação de diferentes conteúdos literários. Mas há outro fenômeno moderno, no entanto, que carrega tons de cinza: o cancelamento.

O ato de cancelar uma pessoa ou uma marca, o que pode ocorrer em variados níveis de intensidade, é conhecido do público contemporâneo. Não faltam memes nem reflexões mais sérias a respeito dessa atitude que pode sair do plano virtual e ter consequências devastadoras na realidade — as linhas que separam esses dois mundos, afinal, são cada vez mais tênues.

No final de fevereiro passado, por exemplo, após a internet se mobilizar pela causa, a rapper Karol Conká foi eliminada do Big Brother Brasil 2021 com 99,17% dos votos — batendo o recorde de rejeição de todas as edições do programa, cujo nome é emprestado do livro 1984, de George Orwell.

Outro caso emblemático, com causas e consequências muito mais pesadas, é o de Kevin Spacey. Acusado de diversos abusos sexuais em 2017, o ator perdeu o papel de Frank Underwood em House of cards. A Netflix, produtora da série, também interrompeu uma cinebiografia na qual Spacey, vencedor do Oscar e do Globo de Ouro, interpretaria o escritor Gore Vidal (1925-2012).

Liv Soban: “A gente precisa aprender a entender, a usar, o cancelamento de uma forma mais sadia”. Foto: Marcus Steinmeyer

Faces do cancelamento

Há casos e casos. Para Liv Soban, autora do livro Sociedade na nuvem: como aprender a se comunicar nas mídias sociais sem ofender nem ser criticado (2021), o “cancelamento é importante na esfera em que a gente está hoje, mas perigoso por várias razões”.

“Tudo começa com uma crítica ou boicote a uma pessoa ou marca”, explica Liv, reiterando que o movimento inicial pode evoluir para algo mais grave. “Já o linchamento virtual é uma possibilidade perigosa, porque você fica cego dentro dos próprios preceitos e não dá voz para o outro se recuperar.”

A escritora lembra que, claro, existem “atos que, dentro de uma sociedade funcional, devem ser cancelados e censurados em qualquer lugar”, mas é preciso estar sempre atento à responsabilidade de querer fazer “justiça com os próprios dedos”. De se tornar um “justiceiro de internet”.

Complexo narcísico

“A ideia de ser justiceiro é delicada. A pessoa pode não ter preparo educacional, ou mesmo estruturação emocional, para poder cancelar ou não a outra”, reflete Liv. “Às vezes, você se coloca como dono da razão, que é uma atitude comum às personas virtuais [no sentido junguiano, sobre as formas que o homem representa a si mesmo], e acaba achando que é detentor da única verdade.”

Dentro desse “complexo meio narcísico”, ainda segundo a entrevistada, “tudo aquilo que não conversa com sua verdade, ou não a legitima, acaba sendo censurado”. A partir daí, guiado por essa “cegueira informacional”, o indivíduo pode se alojar em bolhas informacionais, nas quais o que importa é a hegemonia, e não a troca.

Nesses pequenos universos virtuais, frutos do modelo de sociedade hiperfragmentada que se originou nos nichos da internet, as informações se repetem — em um ciclo alimentado pelos algoritmos das próprias redes sociais, vale lembrar: quanto mais do mesmo você consome, mais do mesmo lhe é ofertado pela própria internet.

Kevin Spacey interpretou Frank Underwood em House of cards.

Zona de conforto informacional

Para ilustrar a ideia de bolhas informacionais, Liv recorre ao Mito da Caverna platônico — presente no livro VII de A república, no qual Sócrates (enquanto personagem de Platão) pede a Glauco que imagine uma caverna na qual homens estão acorrentados e só enxergam sombras, a única realidade que conhecem, da qual só é possível se libertar, trocando em miúdos, por meio da busca pelo conhecimento.

No caso de quem acaba preso na “zona de conforto informacional”, no entanto, trata-se do caminho inverso: é um indivíduo que entrou, deliberadamente ou não, nessa espécie de caverna virtual. Seu objetivo se torna a criação de um mundo homogêneo, e não mais a pluralidade de informações.

“Quando passa a achar que sua verdade é a única existente”, explica Liv, “você começa a cancelar questões que, de repente, não deveriam ser canceladas, mas conversadas”.

Grandes responsabilidades

A autora de Sociedade na nuvem reitera que o conceito de cancelamento “surgiu como uma forma de dar voz às pessoas que nunca tiveram, de falar que certa coisa — de uma instituição, empresa, político — não está legal — e isso é bom, é ótimo, porque você dá chance à minoria dizer algo que ela nunca teve oportunidade de falar. Mas, para tudo, há vieses. E temos que ter consciência do quanto é difícil assumir a justiça com as próprias mãos”.

Em meio à democratização da informação, que permite à sociedade se expressar com maior facilidade, todos passaram a ter voz mais ativa. Figuras como a do produtor cinematográfico Harvey Weinstein, condenado a 23 anos de prisão por más condutas sexuais e devido ao qual se iniciou um enorme movimento virtual de denúncia contra abusos, o #metoo, não passam mais incólumes.

Nesse complexo processo de trocas virtuais e possibilidades de cancelamento, Liv destaca dois pontos fundamentais: não se achar dono da verdade e ter empatia, que é o “grande caminho para a mudança comunicacional”. “Com grandes poderes”, brinca, lembrando a fala do tio do Homem-Aranha, “vêm grandes responsabilidades”.

“A gente precisa aprender a entender, a usar, o cancelamento de uma forma mais sadia.”

Fernanda Bastos: “É um tanto prepotente que o meio do livro acredite que possa ser regido por outras regras que não as da boa convivência e do respeito aos direitos humanos”. Foto: Pedro Heinrich/CRL

E na literatura, como é?

No Brasil, é possível que o caso de Monteiro Lobato com o racismo seja o mais emblemático para pensar em um autor canônico cuja obra foi reavaliada e levantou debates. De acordo com Fernanda Bastos, CEO da editora gaúcha Figura de Linguagem, o escritor paulista tinha “posições e textos extremamente racistas contra o povo negro brasileiro”, mas não foi cancelado.

“Os protetores do autor — grandes editoras brancas e uma academia branca, também — têm garantido que ele chegue às escolas, onde é ensinado por professores brancos e não brancos, que garantem que sua literatura é imprescindível para as crianças”, opina.

Fernanda afirma, ainda, que “a controvérsia em torno de biografias e até mesmo o reconhecimento público de participação em atos de violência física ou simbólica não gerou cancelamento a qualquer autor ou autora”. “É mais plausível pensar na ideia de autores cancelados”, continua, “serem aqueles pertencentes a grupos que o mercado silencia ou ignora.”

Ficção e crítica

Questionada sobre a responsabilidade social da literatura, a autora de Eu vou piorar (2020) e Dessa cor (2018) diz que o “texto de ficção é livre” e “os autores e autoras são cidadãos e conduzem suas vidas conforme as leis onde vivem”.

Vale lembrar, diz ela, “que essa divisão aparentemente tão simples entre autor e obra é cada vez menos interessante em uma sociedade na qual o sujeito e seu aparecimento público quase ofuscam a centralidade da obra literária.”

Em sintonia com as análises do professor e crítico inglês John Carey, “que acredita que a vida dos autores faz parte de sua obra, e aponta quando há misoginia, homofobia e racismo nos textos”, Fernanda fala que a reflexão deveria acompanhar a leitura de ficção, “levando em consideração que somos pessoas maduras e bem-intencionadas”.

De modo geral, enfim, o escritor não está além do bem e do mal. “A ética perpassa todas as atividades humanas, de modo que é um tanto prepotente que o meio do livro acredite que possa ser regido por outras regras que não as da boa convivência e do respeito aos direitos humanos”, encerra a colunista do portal Literatura RS.

Dica de leitura

Sociedade na nuvem: como aprender a se comunicar nas mídias sociais sem ofender nem ser criticado
Liv Soban
Letramento
134 págs.