As distopias estavam certas sobre o mundo atual

A palavra distopia ronda o mundo nos últimos meses, arrastada pela pandemia que nos leva ao distanciamento social, ao medo da morte, a um estado de ansiedade quase permanente. Tudo isso, de alguma maneira, foi previsto pela literatura há algumas décadas. Os chamados romances distópicos estão cada vez mais nas listas de leitores atentos às transformações que a sociedade tem de encarar. Um dos exemplos mais significativos é 1984, de George Orwell, autor cuja obra entrou em domínio público neste ano.

Mas o que é uma distopia? O significado é relativamente simples: um lugar imaginário onde as pessoas vivem em condições de extrema opressão, desespero ou privação. Ou seja, nada muito diferente do que se vê em muitos lugares do mundo neste momento. Algo que a literatura nos apresenta em livros que se tornaram clássicos e originaram alguns filmes do mesmo calibre.

O inglês George Orwell, autor do clássico e mais que atual romance 1984.

O futuro é agora

Em 1982, o escritor norte-americano Philip K. Dick concedeu o que seria sua última entrevista. Na conversa com o jornalista John Boonstra, o autor de O homem do castelo alto (1962) e Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), entre outros livros que imaginam futuros alternativos (e nem sempre agradáveis, para dizer o mínimo), comentou o momento que vivia a ficção científica — gênero que pode ou não englobar a distopia em si:

“É realmente como se o mundo tivesse chegado na ficção científica. (…) Não estávamos mais escrevendo sobre o futuro. Em certo nível, o próprio conceito de projetar o futuro perde o sentido porque já estamos lá, em nosso mundo real.”

A fala de K. Dick, cujos dois trabalhos citados foram adaptados com grande sucesso para o formato de série (homônima) e filme (Blade runner), respectivamente, talvez seja um bom começo para se pensar em que nível os futuros imaginados pelas distopias, com seus governos autoritários, guerras, estratificação social e desprezo à verdade, já se tornaram realidade. E por que se trata de um gênero literário com grande apelo popular, mesmo abordando questões desagradáveis.

Adriano Fromer Piazzi: “Se o livro é bom e transcende o rótulo, vai vender bem”. Foto: Rogério Albuquerque

Ficção e realidade

“Desde que publicamos livros como Laranja mecânica [Anthony Burgess] e Nós [Ievguêni Zamiátin], sempre houve interesse. Acho que a distopia, afinal de contas, sempre esteve em alta”, comenta Adriano Fromer Piazzi, diretor editorial da Aleph, que acaba de lançar o box Clássicos da distopia, trazendo os livros citados e uma narrativa incontornável do gênero — 1984, de George Orwell, na qual o Big Brother está sempre de olho. Piazzi também cita Um cântico para Leibowitz, deWalter M. Miller Jr.

Além de lembrar o boom recente de distopias mais voltadas para o público infantojuvenil, como a trilogia Divergente, de Veronica Roth, e Feios, de Scott Westerfeld, Piazzi não descarta o cenário sociopolítico atual como um fator para essa espécie de fôlego renovado do gênero:

“Apesar de achar que sempre estiveram em alta, acho que o cenário político e a pandemia contribuem para aumentar o interesse. Óbvio que não dá para medir, para mensurar, é só a minha opinião”.

Lidia Zuin: “Nas distopias, temos heróis que lutam contra o status quo”.

Reação do cérebro ao medo

Outra reflexão para tentar explicar o interesse do público no gênero é oferecida pela pesquisadora Lidia Zuin. Além de comentar que Frankenstein (1823), de Mary Shelley, já trazia essa pegada questionadora ao tratar dos perigos de se lidar com a tecnologia, a mestre em semiótica afirma que há uma reação natural do cérebro às situações ficcionais que provocam medo, apreensão e nervosismo, o que gera engajamento.

Já ao relacionar o momento atual do mundo com as distopias, Lidia pondera: “Acredito que estejamos nos voltando a essas obras no momento porque também estamos conectando mais a nossa realidade (pandemia, polarização política, violência racial e de gênero, etc.) com elementos que são centrais no gênero”.

Impacto social

Além de as distopias movimentarem o mercado editorial, tendo representantes como 1984, Admirável mundo novo [Aldous Huxley], O conto da Aia [Margaret Atwood] e Fahrenheit 451 [Ray Bradbury] na lista dos 100 mais vendidos da Amazon, o gênero parece cumprir um papel social importante.

“As distopias proliferam porque o mundo inteiro está passando por um momento de crise econômica, explosão de sucessivas bolhas financeiras, devastação ambiental, autoritarismo político, xenofobia, escalada da violência”, reflete o escritor Braulio Tavares, um dos maiores expoentes nacionais da ficção científica, que acaba de ter seu livro A espinha dorsal da memória relançado.

“Sinais de distopias são visíveis por toda parte, e não é pequeno o número de leitores que procuram na literatura, se não uma resposta para todos os problemas, pelo menos um espaço de diálogo”, complementa Tavares, que ainda salienta como as obras do gênero “nos mostram as estratégias e as táticas usadas pelo Poder para massacrar e iludir as populações”.

Algum tipo de esperança

Nesse ambiente mais “seguro” e catártico da ficção, em contraponto à realidade hostil que se insinua (ou já é regra?), o leitor pode encontrar algum tipo de esperança.

“Nas distopias, temos heróis que lutam contra o status quo, que tentam acabar com as megacorporações, ou tentam simplesmente sobreviver apesar de tudo estar destruído. Acho que isso nos dá um fôlego e inspiração”, diz Lidia.

Para que o leitor tenha uma noção melhor de sua maneira de encarar esse gênero literário, a colunista do TAB UOL indica a leitura dos livros A estrada (2006), de Cormac McCarthy, A parábola do semeador (1993), de Octavia Butler, e Matadouro 5 (1969), de Kurt Vonnegut — que “não é uma distopia em si, mas está inserido num contexto de guerra e tem um estilo de escrita incrível”.

Braulio Tavares: “Sinais de distopias são visíveis por toda parte”.

Como toda boa obra

De acordo com Piazzi, a distopia tem um papel social, sim, “como toda boa literatura”. E lembra, ainda, que a rentabilidade não está ligada necessariamente ao gênero literário, mas à qualidade da narrativa. “Se o livro é bom e transcende o rótulo, vai vender bem.”

Agora, tratando especificamente do possível papel crítico desempenhado pela distopia, o editor da Aleph explica que a boa literatura desse gênero, e a ficção científica em geral, têm a capacidade de representar os problemas da atualidade em futuros imaginados, o que pode fazer do leitor um espectador distante de suas próprias questões. “Você está indo para o futuro, mas trabalhando temas sociais — muitas vezes urgentes — do momento.”

Para ver melhor os problemas ao redor

Seguindo a mesma linha de pensar o possível efeito catártico da distopia, Lidia diz que a disposição de um personagem tomar determinada atitude contra opressões pode animar o leitor e, quem sabe, fazê-lo enxergar melhor os problemas que o cercam. “Nem sempre dá certo, nem sempre o ‘bem vence o mal’, mas pelo menos há essa tensão de ver o personagem ao menos tentando fazer algo pela situação”, diz.

Já analisando outro efeito possível da distopia no público leitor, Braulio Tavares comenta que “sempre há uma parte do público que se compraz na atitude de ‘vejam só o quanto sofremos, vejam só pelo que estamos passando, como somos mártires, como somos heróis’”, em uma leitura que “faz um apelo simultâneo ao sadismo e ao masoquismo do leitor”.

Mesmo assim, o premiado autor de ficção científica deixa a reflexão: “Os sinais das distopias estão todos aqui fora. Às vezes, temos dificuldade para interpretá-los, ou para fazer a necessária conexão entre eles, mas o livro vem ao nosso auxílio. A leitura é pesada, mas o leitor sai dela mais leve e mais lúcido”.