Aos 70 anos, “O apanhador no campo de centeio” ainda conversa com o jovem leitor?

O apanhador no campo de centeio, romance escrito pelo americano J. D. Salinger, está completando 70 anos neste mês. Fenômeno literário, vendeu mais de 70 milhões de cópias desde 1951, quando foi lançado pela primeira vez. Algo como 1 milhão de exemplares a cada ano.

Nada mau para uma obra de um autor que odiava qualquer tipo de publicidade e parecia sabotar a si mesmo, tendo por fim encerrado a carreira depois de apenas quatro livros e alguns outros contos esparsos publicados em revistas literárias.

De 1963, quando a revista The New Yorker trouxe em uma de suas edições o conto “Hapworth 16, 1924”, até 2010, quando morreu, Salinger não publicou uma linha sequer. O que não quer dizer que tenha parado de escrever. As especulações dão conta de que ele nunca parou de produzir, apenas de publicar. Mas, passados mais de 10 anos de sua morte, nada veio à tona ainda.

J. D. Salinger na Segunda Guerra Mundial.

A história

O apanhador no campo de centeio traz uma história sobre a adolescência contada por um adolescente. Holden Caulfield, de 16 anos, foi expulso da escola por ser rebelde e tirar zero em quase todas as disciplinas. Mas Holden não é burro, pelo contrário, seu discurso é sofisticado, inteligente e sarcástico.  

Com alguns trocados e seu indefectível boné vermelho de caçador, ele vaga por Nova York, adiando a volta à casa dos pais. Seus dias e noites serão marcados por encontros confusos, e ocasionalmente comoventes, brigas e dúvidas que irão consumi-lo.

Em tom coloquial, ele expõe seu desconforto com o fim da infância e a raiva que sente do mundo adulto, do qual logo fará parte. Uma das palavras preferidas de Holden é phony (falso), que serve para qualificar quase tudo que o desagrade.

O livro foi celebrado justamente por trazer essa visão “de dentro” da adolescência e, claro, aliar isso a uma prosa elaboradíssima. Salinger era um autor obcecado pelo texto “correto”, aquele da frase perfeita.

Com essa receita, Holden se tornou um ícone do mal-estar e da alienação adolescentes, fazendo do livro um dos mais importantes do século 20.

Casa de Salinger em Cornish, New Hampshire, para onde ele se mudou em 1953.

E hoje?

Mas O apanhador no campo de centeio consegue cativar o adolescente ou jovem leitor de hoje? O livro passou por diversas gerações de leitores, sempre com êxito. Por isso sua carreira nas escolas e universidades do mundo anglófilo foi igualmente bem-sucedida.

Mas o romance foi publicado há 70 anos, sendo que começou a ser gestado uma década antes, quando Salinger ainda estava na frente de batalha da Segunda Guerra Mundial, servindo aos Estados Unidos no famoso desembarque na Normandia — o Dia D.

Quando foi publicado, O apanhador representou uma revolução porque dava voz a um adolescente problemático. Algo pouco visto até então na literatura. Mas, de lá para cá, o mundo se transformou e o jovem de hoje é feito em um molde completamente diferente.

Por isso, o desafio do livro parece cada vez mais complicado a cada ano, a cada década. E uma pergunta fica sempre à espreita:

“O apanhador no campo de centeio” ainda fala para os jovens?

Abaixo, algumas informações que podem ajudar a responder essa questão.

  • Por mais que o tempo passe, literariamente o romance ainda “para em pé”. A prosa de Salinger é envolvente e sua voz criativa como escritor é inconfundível mesmo depois de tantas décadas.
  • Holden, apesar de ser um garoto dos anos 1950 em Nova York, mantém viva a chama da rebeldia juvenil, que parece não se apagar jamais (pelo menos para alguns abnegados).
  • O livro ainda carrega uma aura cult em torno de si, tanto pela influência que teve em gente importante (escritores, músicos, atores e artistas) quanto pelas circunstâncias pouco nobres em que foi exaltado: como no assassinato de John Lennon.

Um livro e um autor enigmáticos

A história por trás de O apanhador no campo de centeio é cheia de lances interessantes, assim como a vida pessoal e profissional de seu autor.

  • Salinger serviu ao Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. E lá ele escreveu alguns dos contos que fizeram sua fama como uma revelação da revista The New Yorker.
  • O escritor concluiu o romance no escritório da New Yorker, no verão de 1950, num “cubículo abafado”.
  • Salinger recusou qualquer tipo de publicidade para promover o livro, e exigiu que sua foto fosse retirada da contracapa.
  • Na resenha do The New York Times, o livro foi definido como “excepcionalmente brilhante”.
  • Em 1953, Salinger se isolou em sua propriedade em Cornish, New Hampshire, e nunca mais falou sobre sua obra ou vida pessoal. Morreu em 27 de janeiro de 2010.

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O apanhador no campo de centeio
J. D. Salinger
Trad.: Caetano W. Galindo
Todavia
256 págs.