Aos 100 anos, o que Ulysses tem a ver com a atual cultura pop?

E se alguém sugerisse para você, caso nunca tenha lido o romance Ulysses, considerado uma das obras mais complexas da literatura mundial, que o livro do irlandês James Joyce tem tudo a ver com reality shows, desenhos animados ou HQs, você levaria a sério?

De tão original, Ulysses foi descrito como “um romance para acabar com todos os romances” pela crítica especializada na época de seu lançamento, há exatos 100 anos, em 1922. Ou seja, depois dele, os outros autores que se recolhessem, porque tudo estava naquela história.

É mais ou menos verdade, porque, ao se apropriar da estrutura narrativa da Odisseia de Homero, Joyce fez uma espécie de livro “tudo-ao-mesmo-tempo-agora”, misturando gêneros literários, vozes narrativas, a linguagem culta à fala das ruas, etc. Cabe tudo ali, palavrão, piadas obscuras, trocadilhos, música, ofensas, jogos verbais e neologismos aos montes.

David Foster Wallace, autor de Graça infinita, é influenciado pela obra-prima de Joyce.

Sobre o que é Ulysses?

Se a linguagem é vasta e muitas vezes um pouco complexa, o enredo cabe em um parágrafo. Com quase mil páginas, o livro narra um dia (16 de junho de 1904) na vida de Leopold Bloom, judeu de meia-idade que trabalha como agente publicitário em Dublin, na Irlanda.

Ele acorda, toma café, vai ao enterro de um amigo, almoça, vai à biblioteca, ouve música em um pub, caminha à beira-mar, vai a um bordel e volta para casa para encontrar a infiel Molly Bloom, sua esposa.

No meio dessa breve sinopse, Joyce cava espaço para reflexões filosóficas, debates religiosos e fluxos de consciência que levam a narrativa para longe, muito longe.

E foi assim que  livro influenciou muitos artistas e obras, e segue como presença constante na cultura, ainda que por osmose em muitos casos. Mas é possível sentir a presença de Joyce e Ulysses na cultura de massa. Por exemplo:

  • O livro mostrou que uma vida “ordinária” pode ser “extraordinária”
  • É no que muitas HQs se baseiam, com heróis vivendo vidas “normais” quando não estão combatendo algum vilão
  • As quebras no tempo narrativo se assemelham aos desenhos animados, assim como episódios meio “absurdos”
  • Aliás, vários deles utilizam o fluxo de consciência, muito usado por Joyce
  • A descontinuidade do cinema alternativo e dos videoclipes estão em Ulysses
  •  Joyce também influenciou outros autores, que absorveram a cultura pop em suas narrativas do mesmo modo que Joyce fez com as piadas do século 18
  • Thomas Pynchon e David Foster Wallace são exemplos
  • Os realitys de hoje também, de alguma forma, reproduzem a mesma vigilância com que Bloom teve ao ter a vida narrada por Joyce 
Cena do filme Bloom (2004), de Sean Walsh, baseado em Ulysses.

Como Ulysses foi escrito

O livro demorou cerca de oito anos para ser publicado. No meio da escrita, Joyce sofreu um processo por conta da publicação em série feita na revista Little Review, de Chicago. A Suprema Corte americana havia declarado o livro “imoral e obsceno”, proibindo-o nos Estados Unidos.

Joyce tornou o processo de publicação do romance tão épico quanto o próprio livro. Ele era visto carregando os originais de Ulysses para tudo quanto é canto, e isso acabou contribuindo com lenda que se formava sobre a obra. Além disso, a publicação se tornou um problema após o processo americano e a rejeição ao livro na Grã-Bretanha.

Um dos maiores romances de todos os tempos só foi publicado por conta da ajuda inestimável da americana Sylvia Beach, fundadora da célebre Shakespeare and Company, livraria que virou ponto de encontro dos escritores expatriados da Geração Perdida em Paris.

Joyce em detalhes

  • Nasceu em Dublin, em fevereiro de 1882
  • Seu primeiro livro, Música de câmara, de poemas, foi publicado em 1907, em Londres; Dublinenses, de contos, em 1914
  • Antes de Ulysses, ainda escreveu Um retrato do artista quando jovem e a peça Exilados
  • Durante a vida, enfrentou problemas financeiros e de saúde
  • Após o começo da Segunda Guerra Mundial, foi morar na França
  • Morreu em Zurique, em 1941

Vale a empreitada

Mesmo sendo um livro bem volumoso e em vários trechos difícil de avançar, o romance traz momentos recompensadores ao leitor. Depois que se acostuma com as “liberdades léxicas e narrativas” de Joyce, como a abolição de pontuação em vários momentos, a escrita se embrenha na mente do leitor, que segue o “fluxo”.

Considerado por muitos joyceanos como uma obra intraduzível, Ulysses pode sim ser absorvido pelo leitor de outras línguas, que não o inglês original. Mesmo com as perdas no caminho (algumas citações são complicadas de decifrar), é um livro que dificilmente será esquecido por quem o enfrentou.   

Ulysses em detalhes

  • Foi o livro que deu fama internacional a Joyce
  • Traz um recurso até então pouco usado na literatura: o fluxo de consciência
  • Esse recurso seria usado depois por vários autores, entre eles Virginia Woolf
  • Ulysses se divide em 18 episódios, agrupados em três partes
  • Um dos capítulos mais divertidos é o do enterro de Paddy Dignam
  • Ulysses compila mais de 200 incidentes diferentes que se passam com Bloom nas 24h
  • Os poetas T. S. Eliot e Ezra Pound foram grandes divulgadores do livro
  • No Brasil, há três traduções diferentes da obra

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Ulysses (edição especial)
James Joyce
Trad.: Caetano W. Galindo
Penguin Companhia das Letras
884 págs.