Antonio Fagundes: a maravilhosa paixão pelos livros

Antonio Fagundes ama os livros. É um amor que vem de longe, de uma infância com uma estantezinha de poucos livros e muitos sonhos. Hoje, aos 71 anos, o ator de grandes sucessos na tevê, teatro e cinema, dedica boa parte de sua vida à leitura. Seguindo os passos de seus autores preferidos, transformou a paixão em livro. Acaba de lançar Tem um livro aqui que você vai gostar (Sextante), no qual comenta 150 obras — das clássicas às contemporâneas — de forma espontânea, sem a intenção de “catequizar” o leitor.

Ele deseja, e deixa isso bem claro, construir uma estrada que leve mais pessoas ao fascinante mundo dos livros.

Antonio Fagundes em sua biblioteca pessoal e afetiva.

Familiarizado com a ficção desde os 10 anos, quando começou a montar sua biblioteca pessoal e afetiva, Fagundes sabe muito bem da importância da fabulação. “O hábito da leitura ajuda a vida de qualquer pessoa”, diz. E complementa: “Qualquer tipo de iniciativa que empurre as pessoas à leitura só pode fazer bem”.

Nesta entrevista ao Bienal 360º, ele comenta como foi a construção do livro, as dificuldades enfrentadas na pandemia, a literatura brasileira contemporânea, entre outros assuntos, sempre com os olhos voltados para uma estante repleta de boas histórias.

Seu livro traz indicações de leitura muito variadas, dos clássicos à literatura contemporânea. Você retornou aos livros para escrever sobre eles?

Uma das coisas mais difíceis de se fazer é indicar um livro para alguém. É preciso conhecer muito a pessoa, saber seus hábitos de leitura, o vocabulário que ela tem, enfim, o tipo de leitura que já fez antes, se está próxima do gênero que você vai indicar. Essa foi uma das dificuldades de fazer o livro. Mas eu queria que fosse algo muito abrangente, que as pessoas, ao lerem o livro, pudessem se encontrar de alguma forma. Inclusive, vem daí o título: Tem um livro aqui que você vai gostar. Ampliei a possibilidade de contato com todo tipo de literatura. Não foi preciso retornar aos livros, porque eles vinham à memória à medida que eu ia trabalhando. O reencontro se deu por lembrança mesmo.

O livro é composto por breves comentários. Como se deu o processo de escrita, de construção do livro?

A origem desse livro é um podcast. Eu estava fazendo a novela Bom sucesso e meu personagem era um editor famoso que — coincidentemente — gostava tanto de livro quanto eu. O elenco me via sempre lendo nos intervalos, e vinha aquela pergunta: “O que você está lendo? O que você recomenda?”. Surgiu então a vontade de fazer um podcast. Então, através do Gshow, fiz um chamado “Clube do Livro por Antonio Fagundes”. Exatamente pela dificuldade de recomendar um livro, resolvi dividir o podcast em gêneros. São 21 programas, divididos por gêneros, falando de livros em geral — distopias, biografias, história do Brasil, política, clássicos, literatura brasileira. Depois, quando resolvi escrever meu livro, juntei os breves comentários que fazia no podcast com outros feitos no Instagram, onde todo mês conto para as pessoas o que li e faço um pequeno comentário sobre cada obra e autor.

Na introdução de Tem um livro aqui que você vai gostar, você fala sobre o prazer de frequentar livrarias. Como compra livros nestes tempos de reclusão? Aderiu às compras online?

Sempre gostei de frequentar livrarias porque você tem a possibilidade de viajar mesmo sem comprar o livro. Gosto de, antes de comprar, ler a orelha, introdução, prefácio, contracapa. É sempre muito prazeroso frequentar a livraria, mas, realmente, neste tempo de reclusão tive que aderir às compras online. Mas continua sendo gostoso. Quando o livro chega em casa é o mesmo prazer.

Como a pandemia mexeu com a sua vida pessoal e profissional? Ela também influenciou sua rotina de leitura?

Mexeu muito com a minha vida profissional, porque vivo de aglomeração. O teatro precisa daquela aglomeração. A gente estava, inclusive, com a peça Baixa terapia em cartaz há três anos. Mais de 300 mil espectadores. Viajamos pelo Brasil, mais de 27 cidades, fomos para o exterior — em Portugal, tivemos mais de 60 mil espectadores. Mas não tínhamos feito essa peça no Rio de Janeiro. Estávamos com o teatro marcado, tudo certo para uma apresentação em 1º de maio. Com a pandemia, fomos obrigados a interromper a temporada. Estamos esperando a vacinação ter o seu efeito para retomar. E as gravações também foram interrompidas, longas-metragens pararam de ser feitos.

Profissionalmente, realmente mexeu bastante comigo. Por outro lado, escrevi meu livro para a Sextante, fiz o Sapiens [livro do israelense Yuval Noah Harari] em audiobook para a Companhia das Letras. Não parei de produzir: continuo recebendo propostas de trabalho e organizando as produções. Houve uma mudança bastante forte, mas não parei de trabalhar. Naturalmente, minha rotina de leitura ficou mais tranquila. Tenho mais tempo para ler do que jamais tive em minha vida. Eu sempre andava com um livro debaixo do braço pra ler nos intervalos entre um trabalho e outro, e agora tenho minhas duas ou três horas por dia para dedicar só à leitura. Isso tem sido maravilhoso.

De que maneira você chega aos livros, como os descobre? Quais são os seus critérios para eleger a leitura da vez?

Você acaba criando uma linha quando começa a ler. Normalmente, gosto de não seguir as linhas que crio para mim mesmo. O meu livro tem um pouco dessa ideia — de que o gostoso é você não ter compromisso. Como a leitura não é feita academicamente, não existe somente um cânone, você não é obrigado a ler só um determinado tipo de livro. A minha linha de leitura é não ter linha. Meu critério é o que vai me dar prazer aquela hora. Fico olhando minha biblioteca, pego um livro aqui, outro ali, quando vejo já estou sentado, lendo.

Seu livro funciona como um guia de leitura. Os clubes do livro fazem justamente isto: vendem indicações de leitores experientes. Qual é a sua opinião sobre os clubes do livro atuais?

Acho que meu livro funciona mais como dicas para quem quer começar a ler. Não gostaria de escrever os 500 livros que você tem que ler antes de morrer, nem selecionar autores que eu acho que seriam os mais importantes para você ler. É por isso que meu livro tem 150 indicações, e com pequenas biografias de cada autor citado, para que o leitor possa se guiar um pouquinho melhor. Os clubes do livro, de certa forma, orientam. Eu não quis orientar ninguém, não. Quis deixar a pessoa descobrir qual indicação ela gostaria de seguir. Mas acho que os clubes do livro fazem um trabalho magistral, porque nessa orientação você pode, de repente, estimular muita gente a ler. Qualquer tipo de iniciativa que empurre as pessoas à leitura só pode fazer bem.

Por vezes, vemos nas novelas cenas de personagens lendo, numa tentativa de incentivar a leitura entre os telespectadores. Ao mesmo tempo, a novela é vista por muitas pessoas quase como uma antítese do livro, mero entretenimento. É possível conciliar as duas coisas?

As novelas tentam fazer as pessoas lerem, mas acho que só mostrar um personagem lendo não é um estímulo eficaz. A pessoa vê aquilo sem entender o que está acontecendo. Os autores de Bom sucesso [novela escrita por Rosane Svartman e Paulo Halm] conseguiram fazer isso muito bem, conseguiram passar para o público exatamente o prazer que aqueles personagens estavam tendo com a leitura. Esse, sim, foi um estímulo bom e que levou muita gente a ler. A gente soube que, durante a novela, os livros citados aumentaram suas vendas em até 15%.

Digamos que a novela deixou de ser só um entretenimento e passou a ser um incentivo à leitura. Mas acho que as novelas brasileiras, em algum aspecto, deixam de ser só entretenimento. Nossa teledramaturgia sempre tocou em problemas sociais, às vezes éticos, políticos, de uma forma que novelas de outros países não tocam. As novelas brasileiras deixaram de ser só entretenimento, passaram a ser algo a mais. Como, também, alguns livros podem ser entretenimento. Não tenho nada contra o entretenimento. Se você conseguir se distrair, já é bom. Tem tanta coisa ruim acontecendo no mundo que, às vezes, dar um descanso, dar uma afastada, pode ser uma coisa boa.

Como é composta a sua biblioteca? Quantos livros tem e como começou a construí-la?

Confesso que nunca parei para contar quantos livros tenho. Mas é muita coisa. Minha biblioteca vem sendo composta há mais de 60 anos, porque comecei a comprar livros em sebos, quando não tinha dinheiro, e ganhando de amigos. Com 10 anos, já tinha uma estantezinha em casa. Naturalmente, as estantes foram aumentando e fui ganhando mais livros, comprando mais. Foi assim que compus minha biblioteca. Posso garantir que tem um pouco de tudo.

De que forma o hábito da leitura o ajudou em sua profissão? O que de mais importante a leitura lhe proporcionou?

O hábito da leitura ajuda a vida de qualquer pessoa. Mas, para o ator, é muito importante que leia e goste de ler, porque nossa profissão lida com a palavra. Essa proximidade da palavra só pode ajudar. O hábito de ler em voz alta, inclusive, é uma coisa que faço muito. A intimidade com a palavra é uma coisa que ajuda muito o ator. Naturalmente, para desenvolver melhor minha profissão, me ajudou muito o fato de eu ler.

Você costuma indicar livros para os colegas de profissão?

Indico livros para alguns colegas e amigos, mas só àqueles que conheço muito. Ou quando começo a falar do livro e percebo que a pessoa gostou do tema, aí aprofundo um pouquinho. Mas acho muito difícil. Por isso, o Tem um livro aqui que você vai gostar tem mais de 150 indicações.

Alguns livros que você indica foram adaptados para a TV. De alguns, você integrou o elenco. É o caso do romance Dois irmãos, do Milton Hatoum. Como é ler um livro e, certo dia, ser convidado para interpretar um personagem desta história?

Quando se lê um livro, mesmo não sendo ator, você se identifica com um personagem ou com outro, você se vê na pele de um personagem ou de outro. Isso que é o maravilhoso da literatura. Você muda de sexo, vai para o futuro, volta para o passado, vive em outros tempos, muda de idade. É uma delícia, esse tipo de leitura. Sendo ator, claro que tem um ou outro personagem que você pensa: “Que beleza! Gostaria de fazer”.

Tive sorte, porque acabei interpretando personagens de alguns livros que li. Dois irmãos, por exemplo, do Milton Hatoum. Fiz Se eu fechar os olhos agora [Fagundes interpretou Ubiratan na minissérie baseada no romance de Edney Silvestre], o coronel Ramiro de Gabriela, cravo e canela. E naturalmente, depois de ler o livro, parte do estudo daquele personagem você já fez. É muito importante que ator tenha em mãos o livro com o personagem que vai interpretar.

Você é um leitor atento da literatura brasileira contemporânea. Por que vários de nossos bons autores são pouco conhecidos do público mais amplo?

Nossos autores não são muito conhecidos do público porque nós temos, como dizia Nelson Rodrigues, aquele complexo de vira-lata. A gente acha que tudo que é produzido aqui é ruim e que autores estrangeiros devem ser melhores. Então, acaba-se buscando sempre autores de fora. É uma pena, porque nossa literatura é riquíssima, variada. Existem autores extraordinários no Brasil, que realmente precisam de um empurrãozinho para que sejam lidos. Mas tenho certeza de que se as pessoas abandonassem esses preconceitos, descobririam grandes obras na literatura brasileira.

Como definiria, em uma frase, a importância da leitura e da literatura em sua vida?

Parafraseando Fernando Pessoa, diria que a literatura é uma confissão de que a vida não basta.