Antologia traz mais de 200 poemas sobre a escravidão

A escravidão tem sido um tema bastante discutido por autores brasileiros, seja de ficção ou não. Laurentino Gomes, que a Bienal 360° entrevistou recentemente, publicará o último volume da trilogia sobre o assunto até a metade de 2022.

Agora um outro trabalho de fôlego sobre o tema surge pelas mãos do poeta Alexei Bueno. Ele compilou mais de 200 poemas de 81 poetas ao longo de três séculos e meio. O assunto está no autoexplicativo título da obra: A escravidão na poesia brasileira.

Em um trabalho de garimpagem, Bueno trouxe para a antologia, editado pela Record, muitos autores esquecidos e outros nunca publicados em livro. Para o antologista, o gênero da poesia foi o que retratou de forma mais frequente e contestadora os horrores do sistema escravocrata.

A seleção começa com Gregório de Matos (1636-1695), que tinha o singelo apelido de “Boca do Inferno”, e chega até os dias de hoje com Edimilson de Almeida Pereira, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021.

Além desses, como não poderia ser diferente, há nomes incontornáveis da nossa literatura, que se dedicaram a entender e denunciar um dos episódios mais vergonhosos de nossa história: a escravidão negra.

Alexei Bueno, organizador da antologia A escravidão na poesia brasileira.

Alguns dos autores do livro

  • Gonçalves Dias
  • Machado de Assis
  • Castro Alves
  • Cruz e Sousa
  • Euclides da Cunha
  • Alphonsus de Guimaraens
  • Augusto dos Anjos
  • Oswald de Andrade
  • Murilo Mendes
  • Carlos Drummond de Andrade

De Zumbi a Castro Alves

No texto de introdução do livro, Bueno explica suas escolhas e detalha particularidades de alguns poemas e poetas presentes na obra. “Este livro trata da escravidão negra na poesia brasileira. Seu tema não é o negro na poesia brasileira”, avisa logo no início o antologista.

Ele também esclarece que a escravidão é um tema milenar, sempre aconteceu e não foram apenas os negros escravizados ao longo da História. Mas que, no Brasil, foi a escravidão negra que deixou mais marcas na literatura, em especial na poesia. Como exemplo, cita a escravidão indígena, que acabou não sendo tão registrada nas artes quanto no caso dos negros.

Em A escravidão na poesia brasileira,Alexei Bueno também elenca subtemas essenciais para que o leitor se situe entre o emaranhado de poemas. Dessa forma, elege assuntos como “a viagem ultramarina”, “a separação das famílias”, “os castigos físicos”, “revoltas e fugas”, “os quilombos”, “as figuras míticas”, etc.

Em especial, dois casos chamam a atenção no livro. Um poeta e um personagem. O poeta é Castro Alves, que tem vários poemas presentes em seu clássico Navio negreiro reproduzidos na antologia. Já o personagem é Zumbi dos Palmares, que aparece como herói em diversos poemas do livro.

Zumbi, de Solano Trindade

Zumbi morreu na guerra
Eterno ele será
Rei justo e companheiro

Morreu para libertar
Zumbi morreu na guerra
Eterno ele será
Se negro está lutando
Zumbi presente está
Herói cheio de glórias
Eterno ele será
À sombra da gameleira
A mais frondosa que há
Seus olhos hoje são lua,
Sol, estrelas a brilhar
Seus braços são troncos de árvores

Sua fala é vento é chuva
É trovão, é rio, é mar.

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A escravidão na poesia brasileira
Org.: Alexei Bueno
Record
714 págs.