Aniversário do Bruxo: autores escolhem suas obras preferidas de Machado de Assis

Nascido em 21 de junho de 1839, Machado de Assis segue, para muitos críticos e leitores, como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Em meio a uma literatura tão rica e diversificada, isso certamente não é pouco.

Filho do pintor Francisco José de Assis e da açoriana Maria Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo. Foi criado no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde.

O que não o impediu de ser um intelectual múltiplo, sendo jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. Ele publicou seu primeiro livro, Crisálidas, em 1864. Ao longo da década de 1870, lançou Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia.

Com Memórias póstumas de Brás Cubas, de 1881, dá início a uma série de livros que se tornariam clássicos absolutos de nossa literatura e o transformariam em um monumento literário. O crítico americano Harold Bloom o apontou como um dos 100 gênios da literatura mundial.

Para celebrar o nascimento do Bruxo do Cosme Velho, como ficou conhecido, autores brasileiros, a pedido da Bienal 360°, escolhem seu “Machado preferido”. É uma lista bem plural, que vai dos célebres contos do autor, passa pelos ensaios que escreveu, e desemboca em romances clássicos, como Dom Casmurro, Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba.

Dom Casmurro
Jeferson Tenório

Jeferson Tenório, autor de O avesso da pele. Foto: Carlos Macedo.

Embora Machado de Assis seja um excelente contista, creio que os romances expressam de maneira mais categórica a força de sua genialidade. O livro Dom Casmurro me parece sua narrativa mais bem-acabada. Com um narrador não confiável, a obra que tem como protagonistas Bentinho e Capitu leva o leitor para o universo da dúvida, das ambiguidades. Ao mesmo tempo, faz um retrato crítico da sociedade burguesa, além de manter um diálogo intersubejtivo com a peça Otelo, de Shakespeare. Dom Casmurro é um clássico.

Jeferson Tenório estreou na literatura com o romance O beijo na parede, eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. É autor também de Estela sem Deus e O avesso da pele.

Ensaios
Luís Augusto Fischer

Luís Augusto Fischer, autor de Machado e Borges — E outros ensaios sobre Machado de Assis.

Meu livro preferido do Machado é um que ele nunca organizou em vida: o conjunto de seus ensaios sobre literatura, cultura, opinião pública. Especialmente entre seus 20 e 40 anos, ele inventou — precisou inventar — toda uma interpretação dos limites que o Brasil impunha a ele mesmo e à nossa produção intelectual, especialmente a literária. E ali forjou reflexões que em condições normais apareceriam apenas em ambientes acadêmicos requintados, como ele nunca frequentou. Aquela pérola que é “Notícia da atual literatura brasileira — Instinto de Nacionalidade”, aquela outra que são os dois textos sobre O primo Basílio e depois o ensaio chamado “A nova geração”, todos dos anos 1870, figuram entre as páginas mais lúcidas que um intelectual sul-americano poderia escrever. Jorge Luis Borges, sem ter lido Machado, só nos anos 1940 é que alcançou sínteses parecidas — que reivindicam liberdade e autonomia de pensamento para muito além das restrições nacionalistas, como quem quisesse jogar a Champions League e não apenas a Libertadores de América.

Luís Augusto Fischer é escritor, ensaísta e professor gaúcho, autor de Machado e Borges — E outros ensaios sobre Machado de Assis.

Quincas Borba
Flávia Oliveira

Flávia Oliveira, colunista do jornal O Globo.

Quincas Borba foi um livro marcante para mim. Foi o primeiro do Machado que li, no ensino médio. Fascinante”, diz Flávia Oliveira. O romance, que desenvolve melhor um personagem apresentado em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), acompanha a trajetória e derrocada mental do enfermeiro Rubião, discípulo do semidemente Quincas Borba — um “náufrago da existência” e inventor do Humanitismo, filosofia que “retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, enche de imensa glória o nosso país”, conforme Borba a define. Na narrativa, carregada da pesada ironia que marcou essa fase literária do Bruxo, destaca-se a máxima: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

Flávia Oliveira é jornalista, colunista do jornal O Globo e comentarista do canal GloboNews e da rádio CBN

Contos fluminenses
Marcelino Freire

Marcelino Freire, criador da Balada Literária.

Tantas obras para destacar do romancista Machado de Assis, que venho louvar o seu lado contista. Sempre volto aos contos irônicos e precisos do autor, por exemplo, de narrativas clássicas como “Pai contra mãe” e “Teoria do medalhão”. Para citar um livro, destaco então o volume Contos fluminenses, de 1870.

Marcelino Freire é escritor e ativista cultural. Criador do evento Balada Literária, publicou as narrativas curtas de Contos negreiros e o romance Nossos ossos.

Dom Casmurro
Nara Vidal

Nara Vidal, autora do romance Sorte.

Imagino que Dom Casmurro seja, para muitos, o grande destaque na obra de Machado, e é exatamente essa a minha escolha. Não tenho uma publicação de literatura que se chama Capitolina à toa. A absoluta genialidade de Machado para nos apresentar Capitu, dá-se, especialmente, pela escolha da voz narrativa. Ao colocar Bentinho para nos contar sobre seu grande amor, Machado nos põe frente a frente com a fragilidade, a especulação, a obsessão de um homem apaixonado por uma mulher que não é perfeitamente compreensível para ele. A suposta ambiguidade de Capitu se opõe à personalidade da mãe de Bentinho, uma mulher com características psicológicas menos evasivas e socialmente previsíveis. A grandeza de Capitu como personagem é exatamente por ser uma mulher que não narra a própria história e que é investigada e observada através da insegurança que o amor trouxe ao homem. Brilhante!

Nara Vidal é escritora e editora. Seu primeiro romance, Sorte, ficou em terceiro lugar no prêmio Oceanos de 2019. Da Inglaterra, onde vive, edita a revista Capitolina, especializada em literatura brasileira contemporânea.

Memórias póstumas de Brás Cubas
Luci Collin

Luci Collin, autora do recém-lançado Dedos impermitidos.

Memórias póstumas de Brás Cubas é um marco na literatura brasileira, que indica a passagem (tardia) do Romantismo para o Realismo. Essa obra, de 1881, me encanta e a ela volto muitas vezes. Devedor da ficção ousada e revolucionária do irlandês Laurence Sterne, Brás Cubas apresenta as memórias de um defunto-narrador, explora a fragmentação, a metalinguagem, é altamente irônico (a invenção de um emplastro para curar os males do mundo é deliciosa, bem como a sátira do darwinismo na filosofia do Humanitismo) na descrição de sua vida banal. Brás Cubas é um anti-herói — dos amores às invenções. Não é idealizado. Por ter sido escrito em uma fase madura de Machado, o livro é altamente criativo e não segue moldes nem ditames de cartilha. Por meio de sua leitura, se absorve muito do Brasil da época, principalmente de sua então capital, o Rio de Janeiro; a atmosfera das mudanças sociais é intensa, abordando da escravidão ao positivismo e cientificismo em voga. Um romance muito crítico, perceptivo e inteligente — qualidades importantíssimas para a cultura e literatura brasileiras.

Luci Collin é escritora e tradutora. Tem vasta produção na ficção e poesia. Seu livro mais recente é a coletânea de contos Dedos impermitidos, lançada pela Iluminuras.

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Dom Casmurro
Machado de Assis
Penguin Companhia
400 págs.

Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Ciranda Cultural
192 págs.

Quincas Borba
Machado de Assis
L&PM
280 págs.

Contos fluminenses
Machado de Assis
WMF Martins Fontes
344 págs.