Animes, mangás e literatura: um guia para o Dia da Imigração Japonesa

Hoje, 18 de junho, celebra-se o Dia da Imigração Japonesa. O navio Kasato Maru, que trouxe os primeiros imigrantes japoneses para o Brasil, atracou no Porto de Santos há 113 anos. Atualmente, o Ocidente consome muito da cultura oriental. Em nosso país, observa-se grande interesse por animes e mangás. Além, é claro, da presença da boa e velha literatura.

Apesar de as plataformas de streaming contribuírem muito para a popularização dos animes no Brasil, engana-se quem pensa que essa troca cultural começou agora. “Desde os anos 2000, a forte presença dos animes na cultura pop ocidental tem impulsionado a venda de mangás”, explica Douglas Bettioli, analista de marketing da Panini.

Nesse processo em que uma coisa leva à outra, os dois formatos — audiovisual e impresso — se beneficiam. Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba, Naruto, Dragon Ball, One Piece, Jujutsu Kaisen e The Promised Neverland são alguns exemplos de mangás de sucesso citados por Bettioli.

Cena do anime Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba.

Diferentes gerações

Todos os títulos acima têm suas versões animadas, veiculadas em épocas diferentes. O clássico Dragon Ball, por exemplo, começou a ser transmitido em 1986. Anos mais tarde, no início do século 21, o anime que narra a saga do poderoso saiyajin Goku e traz vilões como Majin Boo, Freeza e Cell, fez a cabeça do público brasileiro por meio da TV Globinho.

Um caso mais recente de sucesso é o de Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba. A primeira temporada, que conta a jornada de Tanjiro em busca da cura de sua irmã amaldiçoada por demônios, chegou à Netflix em 2019. No ano seguinte, o anime se desdobrou no filme Demon Slayer — Mugen Train. Segundo informações do IMDb, o longa-metragem já arrecadou 455 milhões de dólares em bilheteria ao redor do mundo.

E vem mais coisa por aí. Para os fãs do anime Dorohedoro, disponível no catálogo da Netflix desde 2020, uma boa notícia: o lançamento dos mangás da série no Brasil, segundo Douglas Bettioli, está previsto para agosto deste ano. Na trama, Caiman foi amaldiçoado com uma cabeça de lagarto e, sofrendo de amnésia, precisa da ajuda de Nikaido para confrontar o feiticeiro que o deixou assim.

Angel Bojadsen: “Estamos todos um pouco cansados de um certo cartesianismo ocidental”.

Literatura japonesa

A ficção oriental tem nomes clássicos e grande reconhecimento. Em 2017, Kazuo Ishiguro se tornou o terceiro escritor japonês a vencer o Prêmio Nobel de Literatura. Os outros dois são Kenzaburo Oe, agraciado em 1994, e o incontornável Yasunari Kawabata, que ganhou em 1968.   

Um caso recente de sucesso é o de Haruki Murakami. Apesar de ele ter se tornado um fenômeno com a publicação da trilogia 1Q84, a literatura japonesa já vem sendo editada e lida com consistência no Brasil há muito tempo — “bem antes do boom dos animes e mangás”, diz Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade.

“A editora, em três décadas de elaboração de um catálogo abordando de forma planejada e sistemática o essencial da literatura japonesa moderna, trouxe ou introduziu no Brasil os autores consagrados do século 20, e também a geração mais jovem dos contemporâneos”, explica Bojadsen.

Yasunari Kawabata, primeiro escritor japonês a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.

Livros: o que ler?

“Estamos todos um pouco cansados de um certo cartesianismo ocidental”, pondera o diretor editorial. Assim, àqueles que ainda não são familiarizados com a ficção nipônica, ele recomenda os livros A casa das belas adormecidas, de Kawabata, e Eu sou um gato, de Natsume Soseki.

Nas definições de Bojadsen, o primeiro é um “clássico absoluto com uma sensualidade velada bem conduzida” e o segundo oferece “uma visão sarcástica da vida intelectual pelos olhos de um gato incomum”.

Já para os “iniciados”, valem a leitura de O marinheiro que perdeu as graças do mar, de Yukio Mishima, e do recém-lançado A polícia da memória, de Yoko Ogawa, “que combina muito bem com estes tempos conturbados em que se tenta todo dia manipular a realidade”.

Detalhe do mangá Vagabond, de Takehiko Inoue.

Mangás: o que ler?

Pulando para os quadrinhos, para celebrar a Dia da Imigração Japonesa, Douglas Bettioli aponta dois títulos clássicos de mangás que fazem jus à importância histórica da data: Vagabond, de Takehiko Inoue, e Lobo solitário, criado por Kazuo Koike e ilustrado por Goseki Kojima.

Para além das indicações, Bettioli explica que o caso é mais abrangente: “A imigração japonesa enquanto um fenômeno de inserção e adaptação cultural pode ser melhor entendida através de toda e qualquer obra que também carregue em si aspectos sociais e culturais do Japão”.

Vale mencionar que um dos mangás citados, Vagabond, é uma adaptação bastante fiel do romance épico Musashi, de Eiji Yoshikawa. Com suas 1.808 páginas, a obra — conta Angel Bojadsen — chegou ao Brasil em 1997-98, pela Estação Liberdade, e “fez muito para tornar a literatura japonesa mais conhecida aqui, inclusive ajudando a criar um caldo de cultura atraindo mais gente para a tradução e os estudos japoneses”.

Livros nunca são de mais

Para fechar esta matéria, a Bienal 360º preparou uma lista com outros dez livros da literatura japonesa, escritos por homens e mulheres de diferentes gerações — alguns sugeridos por Angel Bojadsen, outros selecionados pela redação.

Morte na água
Kenzaburo Oe
Trad.: Leiko Gotoda
Companhia das Letras
456 págs.

Klara e o sol
Kazuo Ishiguro
Trad.: Ana Guadalupe
Companhia das Letras
336 págs.

Diário de um velho louco
Jun’ichiro Tanizaki
Trad.: Leiko Gotoda
Estação Liberdade
204 págs.

Querida konbini
Sayaka Murata
Trad.: Rita Kohl
Estação Liberdade
152 págs.

O museu do silêncio
Yoko Ogawa
Trad.: Rita Kohl
Estação Liberdade
304 págs.

Do outro lado
Natsuo Kirino
Trad.: Roberto Wander Nóbrega
Rocco
544 págs.

Sayonara, gangsters
Genichiro Takahashi
Trad.: Jefferson José Teixeira
Ediouro
294 págs.

Declínio de um homem
Osamu Dazai
Trad.: Ricardo Machado
Estação Liberdade
148 págs.

O som da montanha
Yasunari Kawabata
Trad.: Meiko Shimon
Estação Liberdade
344 págs.

Vida à venda
Yukio Mishima
Trad.: Shintaro Hayashi
Estação Liberdade
256 págs.