Amy Winehouse segundo seu melhor amigo

Melhor amigo de Amy Winehouse, Tyler James escreveu um livro visceral sobre a cantora inglesa. O título — Minha Amy: A vida que partilhamos — faz jus ao relato. Não é uma biografia nos moldes tradicionais, com entrevistas e rigor técnico. Trata-se mais de um relato biográfico íntimo, de quem viu de perto a ascensão e queda de uma das artistas mais icônicas deste começo de século 21.

O livro, que será lançado nesta sexta-feira no Brasil pela editora Agir, sai justamente quando se completam 10 anos da morte de Amy, vítima de uma intoxicação alcoólica em 2011. Com um histórico de problemas relacionados ao consumo de drogas pesadas, a cantora morreu justamente quando estava “careta”, longe do crack, mas muito próxima do álcool.

“Foi um processo incrivelmente catártico, mas também terapêutico, que durou um longo tempo”, diz Tyler James em entrevista à Bienal 360° sobre seu processo de escrita. “Mas eu precisava contar a história de Amy”, completa. O autor, que conheceu a cantora quando ela tinha 12 anos e ambos participavam de um grupo de teatro de uma escola de Londres, parece ainda muito abalado simplesmente pelo fato de lembrar de episódios passados com a amiga.

“Nunca li nenhum livro sobre Amy”, diz. “E também não assisto coisas que não me fazem bem, como documentários.” Tyler diz que costumava ficar chateado com algumas coisas que lia e via sobre Amy, e essa foi uma das razões pelas quais resolveu escrever o livro, dizendo que a amiga foi “uma vítima da fama”.

Escute a playlist feita pela Bienal 360° com músicas da Amy

Amy Winehouse é autora dos álbuns Frank (2003) e Back to black (2006). Foto: Harvey Brown

Trajetória

Amy e Tyler acalentavam o sonho de ser cantores. Ambos vinham de famílias da chamada “classe trabalhadora” inglesa e viram esse sonho se transformar em realidade em 2003, quando foram contratados pela Island Records. Inseparáveis, viveram uma relação intensa que durou do começo da adolescência até a morte de Amy, aos 27 anos — mesma idade que morreram Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Kurt Cobain, o famoso “Clube dos 27”.

Amy teve uma estreia morna no cenário musical britânico. Apesar de receber boas críticas, seu disco Frank, de 2003, não teve grande saída. Mas com o álbum posterior, de 2006, ela se transformou em um fenômeno mundial.

Back to black foi o disco mais vendido do mundo em 2007, com seis milhões de cópias comercializadas. Além disso, levou cinco troféus na 50ª edição do Grammy Awards, em 2008.

O primeiro hit do álbum, “Rehab”, composto por Amy em apenas três horas, é uma espécie de canção-símbolo de sua vida cheia de percalços por conta do alcoolismo e dependência química. Logo nas primeiras linhas, ela diz que “eles tentam me levar pra reabilitação, mas eu digo não, não, não”, sobre os empresários que tentavam convencê-la a passar por um período de desintoxicação.

Com influências de soul e jazz, a canção também dá o tom de todo o restante de álbum, que ainda traz hits como “You know I’m no good”, “Back to black” e “Tears dry on their own”. Um petardo atrás do outro, com letras sinceras e que, musicalmente, atualizavam sons retrôs de artistas como Billie Holiday, uma das influências de Amy. 

Junto com o sucesso, no entanto, veio a perda de privacidade e a exposição em excesso tanto de seus êxitos quanto de seus problemas pessoais. Em uma época pré-redes sociais, Amy foi uma das artistas do meio musical mais perseguidas por paparazzis em todo o mundo. E ela não estava preparada para isso.

Este mês de julho marca dez anos da morte de Amy Winehouse. Foto: Tyler James

Intimidade

“A Amy nunca desejara ser famosa. Queria ser cantora de jazz. Mais do que tudo ele queria ter uma família. Ser esposa e ter filhos. Tudo que Amy sempre quis ter foi uma vida normal”, diz um dos trecho de Minha Amy.

O livro também deixa claro uma espécie de “dependência” afetiva tanto de Tyler quanto de Amy — um em relação ao outro. Nas diversas casas que dividiram, foram várias as idas e vindas, em geral com Tyler indo embora por conta da vida autodestrutiva que ambos levavam.  

“[Amy] Queria que alguém me amasse. Dizia: ‘T, quero que você se apaixone’. Ela nunca vira aquilo acontecer comigo porque eu andava sempre atrás dela. Eu estava com 29 anos e nunca tivera um relacionamento de verdade — quando teria tido tempo para conhecer alguém? Eu mal tinha outros amigos, porque Amy vinha sempre em primeiro lugar.”

Vida rock’n’roll

O livro de Tyler mostra uma visão “de dentro” da vida de Amy como poucos livros ou documentários  conseguiram mostrar — e eles já são muitos. As festas regadas a drogas e álcool, as “trips” com junkies como Pete Doherty, do The Libertines, são narradas com precisão de detalhes, em um texto que flui muito bem.

Uma das cenas mais impactantes narradas do livro é Tyler tendo que “desviar” das agulhas de heroína caídas no chão depois de uma noite regada a drogas.   

Tyler também mostra uma outra Amy, diferente da pin-up extrovertida no palco, com uma taça de vinho na mão. Em Minha Amy, quem aparece é a garotinha tímida que virou figura carimbada de Camden Town, o bairro boêmio de Londres. 

“Eu ainda tenho pesadelos com ela, linda. Acho que é porque nunca vou parar de sentir saudades e deixar de amá-la. Ela estará comigo o tempo todo”, diz Tyler em meio a lágrimas.

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Minha Amy: A vida que partilhamos
Tyler James
Trad.: Roberto Muggiati
Agir
320 págs.