Ampliação das vozes LGBTQIAP+ e os próximos passos

A mesa de encerramento desta Bienal tão especial trouxe para o debate importantes vozes LGBTQIAP+. A XX edição tinha uma provocação para o público – “Que histórias queremos contar a partir de agora?” -, mas o encontro final levantou outro questionamento: o que vem pela frente para essas histórias? Quando se olha especificamente para a literatura, o que falta vermos nas livrarias? 

Deste o bate-papo participaram os autores Amiel Vieira, Renan Quinalha, Letícia Carolina Nascimento, Samuel Gomes e Natalia Borges Polesso – referências quando o assunto é diversidade. A mediação foi de Felipe Cabral.

Natalia Polesso, autora de “Amora”, livro de contos sobre relacionamentos lésbicos, contou que durante seu pós-doutorado, iniciou uma pesquisa das obras de mulheres lésbicas, bissexuais, cis ou trans lésbicas. 

“O trabalho começou com 25 autoras e, em dois anos, havia 584, sendo 252 brasileiras. Ou seja, não só essas, mas outras histórias existem, e a maioria não chegou às grandes editoras. É isso que falta”, pontuou Natalia.

Homem trans, intersexo, sociólogo e ativista, Amiel Vieira explica que não existem histórias intersexo no Brasil, talvez por este ainda ser um movimento novo. “A gente vive uma limitação entre o que é realidade e ficção. Uma das grandes necessidades de as pessoas intersexo é ter uma autobiografia. Nos espaços das redes sociais, sim, temos uma boa participação. E, ainda que tenhamos uma ficção, é preciso que ela seja crível, algo verossímil”, disse ele.

Para Renan Quinalha, autor do livro “Contra a moral e os bons costumes”, que fala sobre as políticas sexuais repressoras da ditadura brasileira, a inviabilização de histórias passa por um processo de apagamento ou soterramento das pessoas LGBTQIAP+. Ele afirma que há muito já sendo feito, mas o caminho ainda é longo.

“São histórias que existem, mas que não aparecem. Apesar do momento ruim do país pelos discursos de ódio, também vivemos um processo interessante de ampliação dessas vozes. Uma das coisas (necessárias) é expandir o movimento para outros lugares do Brasil e tirar do eixo Rio-São Paulo”, acredita Renan.

Mulher trans, Letícia Nascimento é escritora do livro “Transfeminismo”. Para ela, estão faltando histórias que permitam sonhar e ir além.

“A mídia quer constantemente explorar a nossa dor porque é isso que vende, mas ninguém mostra que eu sou uma travesti doutoranda. Queremos inspirar, mostrar que é possível ocupar cada vez mais esses espaços. A gente pode contar nossas dores, mas isso não precisa ser o único foco. Minhas realizações vão inspirar outras irmãs a chegar em lugares que eu não chegarei, mas que elas vão conseguir”, disse Letícia.

Samuel Gomes assina o canal no Youtube “Guardei no armário”, que deu origem ao livro “Guardei no armário: Trajetórias, vivências e a luta por respeito à diversidade racial, social, sexual e de gênero”. Segundo ele, o que ainda está guardado no armário são tabus sobre a homossexualidade e o fato de a população preta declarada corresponder a 56% da população e não haver representação suficiente no cenário político. 

“Eu fui uma criança criada em um lar evangélico. Só fui assistir à TV com sete anos. Dos seis aos 23 anos, quando eu saí do armário, minhas orações a Deus eram para que morresse ou para que eu dormisse e acordasse heterossexual. Nada disso aconteceu e, graças a Ele, estou aqui. Eu escrevo para outras pessoas que possam estar passando por isso. Eu estou aqui pelos meus ancestrais e pelos meus descendentes”, concluiu Samuel.