@akapoeta e suas pílulas de amor, paixão e dor

Os primeiros anos de vida do escritor João Doederlein — nacionalmente conhecido como @akapoeta — foram com os avós, em Brasília, em cuja casa a poesia fazia parte do cotidiano familiar. O avô, José Antônio, era poeta e vivia recitando versos. E, claro, costumava presentear o neto com livros de seus escritores favoritos: Mario Quintana, Paulo Leminski, Vinicius de Moraes e muitos outros.

 @akapoeta tem um olhar aguçado e lírico para as questões que envolvem o amor, as desilusões e os recomeços.

O menino João se tornou poeta conhecido e foi buscar nas referências do avô o título de seu mais recente livro. Para ressignificar um grande amor, lançado pela Companhia das Letras, é livremente inspirado em Para viver um grande amor, um “clássico moderno” do poeta e compositor Vinicius de Moraes, publicado em 1962.

Só que em vez de mirar na magia do amor e entregar ao leitor os melhores sentimentos, o jovem poeta volta-se para o período mais delicado de um relacionamento: a separação. No texto, ele demarca a importância de fazer as pazes com a memória do antigo parceiro ou parceira, reconstruindo-se das dores do término e cultivando um “reflorescer” a partir de novas vivências.

“O que acontece quando um grande amor acaba? Depois que doeu, o que fazer com as memórias que assombram? A solidão pode ensinar como se reconstrói. O livro aponta um caminho de paz com a memória do amor e traz uma mensagem de esperança”, diz o escritor, que assina seus trabalhos também como @akapoeta.

“Desta vez, os leitores são apresentados a Matilda, personagem conhecida por quem me acompanha nas redes sociais. Ela é a pessoa amada. Cada capítulo é introduzido por uma carta escrita para ela. No primeiro, é uma carta no passado. No último, o teor da correspondência é: ‘Matilda, eu ouvi dizer que você vai casar’.”

Em dezembro de 2020, durante a pré-venda, o título constava entre os 20 mais vendidos no site da Amazon. Agora, a expectativa é de ainda mais sucesso. Segundo o autor, a pandemia trouxe muitos lutos e a separação é um deles. Apesar de se concentrar na fase pós-término, João reforça que a leitura é válida e proveitosa também para pessoas que estejam em um relacionamento, felizes, amando e sendo amadas.

“Não precisa ressignificar só em momentos de necessidade. É preciso ter esse movimento, esse ato contínuo também em fases de alegria, de paz, de tranquilidade, porque isso mantém a máquina girando, mantém o ser humano curioso”, explica.

E completa com valiosos conselhos: “Para um amor ser um grande amor, ele precisa ser constantemente ressignificado. Quando se olha um quadro pela primeira vez, o olhar é de contemplação, êxtase. Vendo o mesmo quadro todo dia, o olhar torna-se banalizado. A pandemia obrigou muitos casais a enfrentarem essa monotonia, a falta de novidade. Só que o amor é um quadro infinito, sempre há novos detalhes a serem explorados”.

Akapoeta | Para ressignificar um grande amor.

Caiu na rede, é poesia

João estreou no mercado editorial em 2017, com O livro dos ressignificados, que se tornou um best-seller. No entanto, a vocação para expressar pensamentos chegou bem antes, aos 13 anos. Com o ambiente fértil do lar — além da influência do avô, a mãe de João é jornalista —, os exercícios de escrita criativa fluíam bem: ele transportava para as telas sensações do seu cotidiano, reflexões, dando novas tonalidades a situações reais. Até hoje, esse traço em sua literatura, ao qual o autor denomina de “ficção autobiográfica”, é muito marcante.

As mídias sociais projetaram seus textos, transformando-se num verdadeiro trampolim para a carreira de escritor. Só no Instagram, tem mais de 1 milhão de seguidores. E ele não está sozinho — muitos outros jovens escritores têm ganhado projeção na internet. Uma geração talentosa que acabou inaugurando um outro jeito de escrever e publicar: o relacionamento direto e instantâneo com o leitor deu outra dinâmica à escrita.

“Rupi Kaur, Lang Leav, Amanda Lovelace são autoras estrangeiras desta geração. Aqui no Brasil, temos o Igor Pires, Matheus Rocha, Lorrane Pimenta, Ryane Leão. Uma galera que, assim como eu, deram seus primeiros passos no Facebook e no Instagram.”

Enquanto a pandemia ainda faz parte da realidade de muitas cidades, João segue torcendo para que as coisas melhorem. Quando a poeira baixar, pretende rodar o Brasil em sessões de autógrafos e, com certeza, participar de mais uma edição da Bienal Rio.

“Se tem um evento que marca meu ano é a Bienal do Livro Rio. Em 2019, quando não estava em mesas-redondas cumprindo agenda como autor, estava como leitor, aproveitando, degustando o evento. Quando decidi que queria ser escritor, pensei: não posso ficar parado, tenho que ir à Bienal, conhecer escritores, editores. Fui como leitor na de São Paulo, em 2016. No ano seguinte, em 2017, fui como autor na do Rio. Uma experiência maravilhosa.”