Agente literário: guru de escritores

O termo “agente literário” ainda causa certa confusão no leitor brasileiro. Muitas vezes até mesmo quem escreve — ou já publicou um livro — não sabe definir bem o que faz esse profissional. Para o senso comum, é simplesmente a pessoa que ajudará o autor a encontrar uma editora que publique seu livro. E é isso mesmo, em geral, o que move um escritor inédito a procurar um agente. Mas esse é apenas um dos trabalhos, e certamente não o mais importante.

“O agente é o profissional que ajuda o autor na gestão de sua obra, cuidando de todos os contratos de edição, dos relacionamentos com editores nacionais e estrangeiros, e, ainda, com os produtores de audiovisual e de teatro, organizadores de eventos, e muito mais”, explica Lucia Riff, decana do agenciamento literário no Brasil.

Lucia Riff: “O agente é o profissional que ajuda o autor na
gestão de sua obra, cuidando de todos os contratos de edição”.

Psicóloga, ela fundou em 1991 a agência que leva seu nome. E desde então tem se mantido como uma referência na área. Um nicho que durante décadas foi pouco explorado no meio literário e editorial brasileiro.

“Não sou exatamente pioneira”, diz Lucia, que cita a espanhola Carmen Balcells como a desbravadora do mercado local. Conhecida como La Mamá Grande (apelido dado pelo colombiano Gabriel García Márquez, um de seus pupilos mais conhecidos), Carmen é tida como figura essencial do boom latino-americano dos anos 1960.

A lista de autores que agenciou é impressionante: Pablo Neruda, Camilo José Cela, Vázquez Montalbán, Ana María Matute, Jaime Gil de Biedma, Carlos Fuentes, Julio Cortázar e Isabel Allende, entre muitos outros. Além da dupla de (ex) amigos Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa.

No Brasil, onde abriu uma filial no final dos anos 1970, manteve em seu catálogo autores como Rubem Fonseca, Nélida Piñon, Clarice Lispector e Autran Dourado. Quando morreu, em 2015, Carmen ganhou obituários e perfis nos principais jornais do mundo — do El País ao The Guardian. Uma pequena mostra de seu enorme prestígio.

Aposta no autor

Além de encontrar as melhores maneiras de publicar os autores que representa, o agente tem uma série de outras funções, como negociar contratos, acompanhar vendas de livros e se encarregar de questões legais e financeiras de uma publicação.

Em geral também é responsável por negociar os direitos estrangeiros de uma obra, podendo vendê-la para outros países. Além de gerenciar os direitos para o audiovisual, teatro, licenciamentos e outras plataformas, como o mais recente streaming. Em contrapartida, recebe uma porcentagem da receita vinda dos contratos que fecha.

Alessandra Ruiz e André Vianco: “Com sua experiência no mercado editorial e visão geral, o agente pode ajudar o autor na condução de sua carreira, em suas decisões editoriais”.

“Isso significa que o agente entra no risco e aposta naquele autor, o que o valoriza como um curador de conteúdo, pela sua credibilidade e reputação de acordo com os resultados que obtém”, diz Alesandra Ruiz, que está à frente da Authoria, que fundou após 27 anos de trabalho no mercado editorial, em casas como Sextante e Gutenberg. Entre os autores que agencia, estão os best-sellers Thalita Rebouças e André Vianco.

Primeiro leitor e conselheiro

Para além de se encarregar da burocracia que envolve a vida literária — verdadeiro pesadelo para a maioria dos escritores —, o agente é também uma espécie de “guru” do autor, dando conselhos a respeito da condução da carreira. “Sim, pode-se dizer que o agente seria uma espécie de guru, de consultor de plantão. E pode eventualmente pensar projetos, dar sugestões para o autor, dicas, etc.”, diz Lucia.

“Com sua experiência no mercado editorial e visão geral, o agente pode ajudar o autor na condução de sua carreira, em suas decisões editoriais e também, sim, atuando como um primeiro leitor e editor de sua obra”, completa Alessandra Ruiz.

“Minha agente é a pessoa a quem eu chamo quando tenho dúvidas ou inseguranças sobre meu trabalho e com quem eu me aconselho sobre questões editoriais”, diz Alexandre Vidal Porto. Ele morava no Japão quando foi apresentado “virtualmente” a Lucia Riff por intermédio da romancista Adriana Lisboa.

Durante meses, o escritor e a agente trocaram e-mails, em uma relação que desde o começo foi “muito cativante e verdadeira”, segundo o autor do romance Sérgio Y vai à América, que venceu o Prêmio Paraná de Literatura em 2012.

Alexandre Vidal Porto: “Minha agente é quem eu chamo quando tenho dúvidas ou inseguranças sobre meu trabalho e com quem eu me aconselho sobre questões editoriais”.

“Quando vim ao Brasil, almoçamos juntos no Rio e expressamos nosso interesse recíproco. Saímos do restaurante direto para a agência e assinamos um contrato”, diz. “Não sei se ela se lembrará, mas o Ondjaki [escritor angolano], com quem a Lucia tinha uma reunião logo depois do almoço e já estava por lá, figurou como testemunha. Ao longo destes anos, minha relação com a Lucia e com o pessoal da agência tem sido gratificante.”

Aposta em jovens autores

Roteirista vinda do mercado publicitário, a curitibana Giovana Madalosso é agenciada desde antes de ter publicado. Em 2015, Ana Paula Hisayama e Lucia Riff leram o manuscrito de seu primeiro livro, A teta racional, e resolveram apostar nele. “Desde então caminhamos juntas”, diz Giovana. “Publiquei Tudo pode ser roubado pela Todavia graças a elas. Também foi a Riff que atraiu alguns interessados em produzir uma série a partir desse romance e um filme a partir do meu último livro, Suíte Tóquio. Suíte está sendo vendido para a Planeta Colômbia e deve ser publicado também na Venezuela.

“É um baita privilégio ter mulheres como Lucia Riff, Julia Wähmann e Eugênia Ribas-Vieira ao meu lado” diz Giovana. As mulheres são maioria nesse mercado. Boa parte vinda de editoras ou do jornalismo, como Luciana Villas-Boas, Marianna Teixeira Soares e Valéria Martins, que também se destacam no setor.

Giovana Madalosso: “É um baita privilégio ter mulheres como Lucia Riff, Julia Wähmann e Eugênia Ribas-Vieira ao meu lado”.

Profissionalização do mercado

Gente que emergiu a partir da profissionalização do mercado editorial do país. Se inicialmente as agências literárias brasileiras atuavam em grande parte mais com coagenciamento, representando agências e editoras internacionais para vender direitos de livros estrangeiros no Brasil, “mais recentemente, a representação de autores locais tem crescido bastante, com novas agências e agentes independente surgindo”, conforme explica Alessandra Ruiz.

A partir desse “assentamento” das bases do novo mercado, mais profissional, as agências se especializaram: há as mais literárias, outras focadas em literatura infantil e as voltadas ao “trade”, ou seja, obras de interesse geral e comercial, caso da Authoria.

Portanto, de acordo com a “linha editorial” adotada pela agência, é importante ter seu catálogo composto por um mix. Porém, sem dúvida, assim como as editoras, ter no portfólio uma combinação de autores que vendam, com outros que sejam consagrados, com relevância em sua área, além da diversidade, é sempre importante.

E, para os escritores, essa linha editorial pode ser determinante para que a agência possa trabalhar em sinergia com o autor e sua obra. Mas um agente consegue “resgatar” a carreira de um nome consagrado “em baixa” ou alavancar a trajetória de um jovem talento ainda desconhecido?

“Tudo é possível… resgates, descobertas”, diz Lucia Riff. “Mas diria que é um trabalho de equipe: o autor e sua obra, o agente e a editora, todos somam para chegar ao sucesso.”