Afrofuturo: revisitar o passado e construir o futuro – agora

Como visões diversas e convergentes de mundo podem pensar os tempos vindouros e contribuir de alguma forma para transformá-los? Essa foi a discussão que reuniu o ator, cineasta e escritor de literatura infantil Lázaro Ramos, o autor de sci-fi & fantasia afro-americana Alê Santos, Aza Njeri, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora de África e Afrodiáspora, e dramaturgo, diretor teatral e escritor Elísio Lopes Jr. Para eles, o futuro já começa a acontecer no presente.

A mediação foi do diretor e roteirista Marton Olympio, que abriu a conversa contando uma curiosidade: há alguns anos, ele era uma das pessoas que montava os estandes da Bienal. Hoje, ele está em uma das mesas mais concorridas para refletir sobre o futuro.

A importância da literatura e da escrita é uma das vertentes do trabalho da professora Aza Neri, que tem um canal no Youtube com quase 11 mil inscritos. Ela diz que o ensino da Literatura precisa ser revisitado, para que a formação de leitores seja mais estimulada.

“A literatura não nos deixa mais inteligentes, mas ‘musculariza’ a nossa inteligência. A literatura nos traz um crivo crítico que nenhuma outra arte consegue dar. O audiovisual é maravilhoso, mas todo o trabalho semiótico já foi dado por aqueles que o produziram. Já a literatura exige que você trabalhe com o seu cérebro sobre a semiótica do que está sendo lido”, avalia.

Já Alê Santos trouxe para o debate a representatividade. Ele contou que começou a escrever para se reconhecer nas histórias que lia.

“Eu não existia nos livros de ficção, eu não existia nos livros de fantasia. Eu resolvi existir. Tem duas coisas que são sempre negadas para as pessoas negras: a intelectualidade e o sucesso. Então quando a gente passa a escrever, a gente começa a ser visto como intelectuais, como pessoas que existem para o debate de ficção, para o debate de futuro”, criticou.

Aza Neri reforça a urgência de uma agenda plural. A professora falou sobre a importância de as mudanças acontecerem no presente, colocando quem vive hoje como a ancestralidade do amanhã. Para ela, pensar o futuro é enfrentar o que ela chama de uma agenda ocidental de desumanização constante.

“Na filosofia do Sankofa, todo tempo é tempo para buscar nas pedras da experiência do ontem a sabedoria do hoje, para plantar o amanhã. Nós seremos os ancestrais do tempo futuro. E quando chegar a hora, que pedras da experiência e sabedoria vamos oferecer? Sem isso, vamos apenas retroalimentar o holocausto do nosso presente, com mais de 600 mil mortos (pela covid-19)”, disse ela.

Autor e diretor de “Dona Ivone Lara”, Elísio afirma que a sua principal função é ser pai de três meninas pretas. E pensando no futuro delas e de outros jovens, ele falou:

“Eu só acredito no futuro para quem puder desejar, sonhar, o que muitas vezes é roubado de nós. Se a gente se dividir em duas partes, eu carrego um eu-lírico e um eu-político. Quando se busca um autor negro, hoje em dia, acaba-se exigindo dele um eu-político, mas nós temos o direito ao posicionamento do eu-lírico também. Ou seja, eu vou escrever sobre aquilo que eu desejar – e não obrigatoriamente sobre a minha existência”, afirmou.

Marton falou da importância do longa-metragem “Pantera Negra”, que traz Wakanda como a nação negra futurística e potente. Para ele, esse tipo de arte influencia jovens a acreditar em si mesmos e no futuro.

Muitas vezes, porém, a realidade, de tão dura, impede de sonhar. Lázaro deu o próprio exemplo de menino pobre que precisava sustentar a mãe, mas que queria ser artista. O caminho que ele encontrou, para não abrir mão do sonho, foi trabalhar durante o dia em um hospital e à noite ir para o teatro.

“A gente tem tantas urgências que o futuro é agora: fazer, lutar, reivindicar agora. O meu acendimento para a escrita é trabalhar o hoje, para evitar no futuro coisas que já acontecem há muito tempo. Como estratégia coletiva, como a gente vai se ‘aquilombar’? Como vamos agir para ajudar uns aos outros e aos nossos jovens? Qual a linguagem que eu devo usar para chegar ao coração do jovem da periferia? Como manter o sonho e criar a estratégia de realização?”, questionou o ator.